Na escuridão da noite 

Na escuridão da noite, Ouço a voz do silêncio. Solitário numa madruga que insiste em não chegar ao fim, Sinto a presença dos que a longo tempo deixaram-me. Não, não é fantasma ou espírito, Mas a lembrança continua que nunca se desvanece. Minha alma é pura confusão, Confusão que envolve seres, lembras, pessoas e amores.…

O amanhã

Dizem que os pontos negros nos poros da pele são células mortas, Bem como a poeira que insiste em surgir sobre os móveis quando a casa está fechada. Por mais que eu atrase o relógio, O tempo insiste em ir adiante. Há aqueles que sentem a necessidade de mentir a idade, Minha tia nunca saiu…

Joana

   Dizem que a palavra saudade em seu sentido pleno só existe na língua portuguesa, Não sei se é verdade. Uma coisa sei, este coração Luso-Brasileiro conhece bem a largura, altura e a profundidade desta palavra. Um dia abri a gaiola e a Joana fugiu, não sem antes dar-me uma bicada no dedo que sangrou.…

Pluma branca

   Cansado o corpo logo busca um apoio onde despejar todo o seu peso, Não precisa muito, o corpo é humilde, Contenta-se com uma cadeira velha, Contenta-se com uma pedra para reclinar a cabeça como fez o Patriarca Jacó, Que mesmo servindo-se de uma pedra como travesseiro, Teve sonhos celestiais. Certa vez deram-me um travesseiro…

Caminhar descalço 

   Nem sempre estar vivo é sorte, Às vezes é como uma longa caminhada descalço Sobre pedras pontiagudas. Meus pobres pés, feios e por vezes repugnante, É o pilar sobre o qual sustenta-se toda esta coisa chamada vida. São pés simbólicos, Pois nem todos podem pôr-se em pé, Mas ainda assim caminham sobre as mesmas…

Mãe

Há vinte anos que deixei-te, Mas nunca nos separamos. Não houve distância longa o suficiente, Que silenciasse nossas prosas humoradas. Falavas-me sempre do obituário do nosso rincão, Dizias-me: “Morreu o Sr. José, marido da Dona Clarinha.” E eu ria, não dá fatalidade alheia, mas da tua forma de falar. Não passava por minha mente que…