A PROFESSORA DA VIDA

Vivi o tempo em que estudávamos o latim no antigo curso secundário brasileiro. Gostaria de o ter estudado mais, entretanto essa disciplina foi abolida do currículo escolar precisamente no ano em que eu voltaria a estudá-la. Quando muitos pensam que apenas as línguas neolatinas é que vão beber na fonte do latim, temos como certo que, apesar de o idioma inglês ter por base a língua dos anglo-saxões, cerca de sessenta por cento [ou mais] do léxico inglês provêm diretamente do latim, ou deste descendem por via oblíqua mediante o francês.

Foi com muita avidez que estudei o latim. Encantavam-me as explicações da minha mestra, demonstrando-nos a origem do termo ónibus, que tem parentesco direto com o caso dativo plural de “omnis”, i.e., “omnibus”, cujo significado em português é “para todos”. Se forem remexer o inglês, encontrarão lá o “omnibus“, que depois se reduziu para “bus”. Pessoalmente tenho profundo apreço pela variedade europeia do português. Sem desejar, contudo, criar braço-de-ferro entre as duas variedades da língua portuguesa [europeia e brasileira], creio que, neste exemplo, o ónibus brasileiro ultrapassa em etimológica vantagem o autocarro lusitano.

Aprendemos lá no nosso curso de latim como surgiram as formas divergentes e convergentes existentes no português. Aquelas partiram do mesmo étimo e desembarcaram no português com formas diferentes. Exemplo disto é o termo latino “macula”, que, pelo caminho erudito, trouxe ao nosso idioma a palavra mácula, e, pela via semierudita, mágoa; mas não só: há também malha, mancha e mangra. No caso de palavras convergentes, rio é um exemplo; na sua aceção verbal, descende de “rideo”, tomada como substantivo, resulta de “rivu”.

A nossa professora fazia-nos estudar porções dos “Commentarii de Bello Gallico”, um texto escrito pelo vitorioso Júlio César, no qual ele relata as operações militares desenvolvidas nas Guerras da Gália [58 a.C. a 52 a.C.]. Dissecava-os cirurgicamente a fim de retirar deles os conhecimentos essenciais do latim. Usava as máximas ditas em latim pelos pensadores da antiguidade, para assim nos transmitir lições de vida e minúcias do idioma, como, por exemplo, “Historia magistra vitæ est”, isto é, a História é a mestra da vida [Cícero]. No meio desse caldo todo, impregnou-se em meu espírito uma inesquecível e significativa frase latina: 

“Non scholæ, sed vitæ discimus”, que em português significa que nós “não aprendemos para a escola, mas para a vida”.

Com esta visão de que o conhecimento adquirido no meio académico deve ter aplicação finalística na vida, penso ter chegado o momento oportuno para lhes dizer o porquê do título do nosso texto. Ei-lo:

Uma professora habituada a paraninfar turmas de formandos comoveu-se numa solenidade de formatura. No específico caso, tratava-se da colação de grau de uma turma do curso de Letras. Em tais alturas, é previsível que os oradores enalteçam as boas qualidades da pessoa eleita paraninfa, especialmente se se tratar genericamente de um mestre, pois pode não o ser. Com efeito, ao assomar o púlpito, a representante da turma – referida pela professora homenageada como uma mui aplicada e destacada aluna – passou a tributar honras e reconhecimento à mestra madrinha. Esta, à sua vez, estava razoável e emocionalmente preparada para os receber, por ser este um procedimento de praxe.

A professora homenageada estava realmente preparada para ouvir os elogios? Não, não o estava! No máximo, ela nutria a expectativa de ser declarada a “Professora Feliz”, ou talvez a “Professora do Ano”. Entanto, a oradora da turma foi além, bem mais além. A plenos pulmões, declarou que a mestra homenageada era a “Professora da Vida”! 

Para fundamentar tão justo louvor, a representante da turma esclareceu que nos primórdios do curso provocou a querida professora a dar pistas do que seria a felicidade. Em resposta, ouviu que “a felicidade não estaria no estabelecimento de uma posição social, nem mesmo na criação de filhos e muito menos na aquisição de bens ou fortunas, mas na ampla compreensão de outra alma humana. Se entendêssemos o ser humano, nada mais precisaríamos na vida.” 

Lá no seu íntimo, a professora não se continha de emoção. Conjeturo que os seus humedecidos olhos ganharam um brilho especial, em simultaneidade a um invisível laço compressor que se deve ter formado à volta do seu pescoço, deixando escapar tão-somente involuntários e fartos soluços que a deixavam sem voz. Entrementes, uma súbita e crescente alegria invadia-lhe o ser, ao perceber que a estudiosa aluna apreendera o “verdadeiro sentido da vida”, qual seja “a ampla compreensão de outra alma”, que, ao sentir da sensibilizada mestra, era “a mais difícil, porém a mais bela de todas as tarefas.”

Vê-se, portanto, que a lição romana alcançara a jovem oradora, pois, indubitavelmente, em pleno ambiente escolar e mediante a instrumentalidade da capacitada professora, ela absorvera importante ensinamento, cuja repercussão positiva se irradiaria ao longo de toda a sua existência. Por outras palavras, nós “não aprendemos para a escola, mas para a vida.”

No ocaso deste texto, elucido nunca ter tido contacto com aquela ilustre e inteligente oradora. Não a conheço nem tenho a mínima ideia de quem o seja. Quanto à professora, porém, não é difícil encontrá-la entre nós. As interações no ambiente do Twitter renderam a este escrevinhador o privilégio de aceder a essa bela história. Estou concretamente a falar da capacitada professora Zilda Carloni, registada nos meandros do Twitter com o designativo @ProfZi. Ademais, aproveito o ensejo para render-lhe merecida homenagem pela transcorrência do seu aniversário de nascimento, que se comemora no dia 25 de fevereiro.

Embora sem mandato expresso outorgado pelos colegas microcontistas do blogue Umas Linhas – do qual a digna professora é colaboradora – ouso falar em nome de todos eles, para assim expressar à distinta professora aniversariante os nossos votos de vida longa, saúde, paz e felicidade.

Magno R Andrade
@magnoreisand – siga-me no Twitter

3 pensamentos sobre “A PROFESSORA DA VIDA

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