A Morte

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Na Bíblia Sagrada, em Hebreus 9:27 nós lemos: ”Está determinado que os homens morram uma só vez e que depois sejam julgados por Deus”. É um texto curto, iremos refletir apenas sobre a primeira parte do verso: “Está determinado que os homens morram uma só vez…”.

Na verdade a morte é um assunto sobre o qual nós não desejamos falar. Isto porque a morte é um ponto final na existência, onde tudo termina. É quando as cortinas da vida se fecham de uma vez por todas. Há aqueles que não gostam de falar sobre este assunto por terem vivido de forma traumática a morte de alguém querido. E há ainda aqueles que acham que falar na morte dá azar, portanto, é um assunto que deve ser evitado.

Acredito que todos nós já tenhamos passado pela experiência da dor de perder alguém querido, portanto, sabemos o quanto é doloroso. E quem nunca passou por esta experiência, pode ter a certeza de que ela uma hora chegará. Portanto, refletir sobre este assunto na perspectivas da pessoa que morre e um pouco na perspectiva da pessoa que perde um ente querido é fundamental.

É interessante observar que a pessoa que morre, seja de uma forma ou de outra, parece dar indícios da sua percepção, ainda que muito vaga, sobre a aproximação do momento da morte. É algo inexplicável. Já vi e ouvi diferentes casos sobre pessoas que demonstraram esta percepção de forma muito clara. Lembro-me em especial da minha mãe, quando cheguei em sua casa para acompanhá-la na sua doença, dias que vieram a ser finais para ela, embora achássemos que tratava-se apenas de mais um episódio de doença dentre os vários que ela teve. Quando cheguei em sua casa ela me disse: “Filho, acho que desta vez a mãe não escapa!” E com aquele ímpeto de minimizar seus sentimento de decadência ou para afugentar a sombra terrível da morte eu disse logo: “Mãe para com isso, você tem muito tempo pela frente!” Não, não tinha, a morte estava ali na esquina.

Eu queria poder voltar àquele momento, queria tê-la ouvido em silêncio, quem sabe ter permitido que ela externasse aquilo que estava dentro da sua mente. Quem sabe conversar com ela sobre estas coisas, ser alguém que caminhasse junto com ela por este vale tenebroso. Mas, não foi isto que fiz. Na verdade estamos insensíveis a qualquer sentimento que seja contrário ao nosso. Nossa percepção nega qualquer ideia que seja contrária a nossa.

O que quero encorajar aqui é que possamos desenvolver uma sensibilidade maior com relação as pessoas que nestes momentos críticos da sua existência tenham a liberdade de ser aqueles que eles desejam ser. Que possam ser livres para falar do que lhes toma o pensamento, dos seus medos, dos seus desejos, dos seus sentimentos, etc. Vivi uma experiência destas, quando o Hospital de Stavanger, na Noruega, me chamou para acompanhar um doente terminal nos seus últimos dias de vida. A falta de proximidade parentesca e amistosa com o doente, fez com que a pessoa falasse comigo sobre a morte de uma forma aberta, sem rodeios e sem tabus. No auge do seu sofrimento ele falou comigo sobre a possibilidade do suicídio, o que discutimos de forma honesta e franca. O contato frequente com aquela pessoa fez-me estar ao seu lado até algumas horas antes da sua morte, quando o deixei sozinho no quarto do hospital com seus familiares. Foi uma experiência sem igual.

É uma experiência inexplicável, por isto tão difícil de experimentá-la. O que quero dizer com tudo isto é que devemos permitir que as pessoas possam ser livres para externar suas convicções sobre a morte, seja ela algo próximo ou remoto das suas realidades. Não ajudamos quando dizemos para a pessoa: “Deixe de dizer bobagens!” Mas devemos ouvir, talvez em silêncio, se houver oportunidade dialogar com o outro, mas sem dar o assunto por encerrado.

A história nos conta a experiência de Sócrates, o famoso filósofo grego, condenado a morte por envenenamento e que se recusa a fugir, mas enfrentar a morte com todas as suas faculdades. Os momentos que antecederam a morte de Sócrates foram momentos de um profundo diálogo entre o filósofo e seus discípulos. Sócrates escolhe o momento exato da sua morte e depois de tomar o veneno passa a descrever a sua experiência da morte que ia tomando o seu corpo até que por fim silenciou-se. O mesmo ocorre no livro A Morte de Ivan Ilitch escrita pelo russo Liev Tolstói publicado em 1886. Neste livro a personagem principal, Ivan Ilitch, narra toda a sua trajetória desde a doença até os momentos da sua morte. O livro termina com a seguinte frase: “Aspirou profundamente, deteve-se a meio, inteiricou-se e morreu.”

A realidade é que a morte é uma experiência certa para todos nós. Aliás, de todas as experiências, a mais certa é a morte. Como enfrentar a realidade da sua proximidade é o que faz toda a diferença para nós, os que acompanham a pessoa neste percurso ou para a pessoa que trilha este percurso. Jean Vanier aos escrever sobre o seu percurso ele diz:

“No entanto, tenho a certeza: os desafios do futuro levar-me-ão a uma maior paz interior. Uma felicidade nova ser-me-á danada minha idade avançada. Tenho a esperança de viver nessa felicidade a experiência da minha fragilidade última – ou seja, ao morrer – acolhido nos doces braços de Deus, que me virá buscar e me preencherá como um amigo bem-amado.” (Vanier, 2018).

O SENHOR Jesus viveu esta experiência dos momentos que se aproximavam, o momento da sua paixão e os momentos da sua morte. Seus discípulos não queriam ouvir sobre esta fatalidade, a semelhança dos discípulos de Sócrates esperavam que o SENHOR fugisse, que de alguma forma evitasse a sua morte. Jesus disse: “se um grão de trigo lançado à terra não morrer, não dá fruto. Mas se morrer dá muito fruto”. (Jo 12:24) É importante para nós compreendermos que o passar pela morte é uma necessidade inevitável e que nunca é infrutífera. Em algum lugar, aliás creio que tanto nesta vida como na outra há de frutificar.

E para concluir faço uma citação de Rubem Alves:

“A Morte não é algo que nos espera no fim. É companheira silenciosa que fala com voz branda, sem querer nos aterrorizar, dizendo sempre a verdade e nos convidando à sabedoria de viver. A branda fala da Morte não nos aterroriza por nos falar da Morte. Ela nos aterroriza por nos falar da Vida. Na verdade, a Morte nunca fala sobre si mesma. Ela sempre nos fala sobre aquilo que estamos fazendo com a própria Vida, as perdas, os sonhos que não sonhamos, os riscos que não tomamos (por medo), os suicídios lentos que perpetramos. Embora a gente não saiba, a Morte fala com a voz do poeta. Porque é nele que as duas, a Vida e a Morte, encontram-se reconciliadas, conversam uma com a outra, e desta conversa surge a Beleza… Ela nos convida a contemplar a nossa própria verdade. E o que ela nos diz é simplesmente isto: “Veja a vida. Não há tempo a perder. É preciso viver agora! Não se pode deixar o amor para depois…” (Alves, 2014).

Assim como os rios desaguam no mar e ali tornam-se infinitamente maiores que eles mesmos, assim é a vida do ser humano que desagua na morte tornando-se algo maior que ele mesmo.

por Luis A R Branco

VANIER, Jean. Ouve-se um grito: o mistério da pessoa é o encontro. Prior Velho: 2018. Paulinas Editora.
ALVES, Rubem. Do universo à jabuticaba. São Paulo: 2014. Planeta Brasil.

Um pensamento sobre “A Morte

  1. A morte invade a nossa vida e muitas vezes nos pega de surpresa. E.la leva embora as pessoas que amamos.Ninguém pode impedi – la nem escapar dos estragos que ela causa. Por isso, é natural nos sentir perdidos quando temos que enfrentar a morte e suas consequências. Mas “Não acredito que existe morte em nenhum ponto do Universo”. Pois os mortos são invisíveis, porém não ausentes. No dia que todos compreenderem isso, tanta coisa vai mudar para melhor neste mundo.

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