Verbum Regis, sic! – II

flat,550x550,075,fDia desses, ao interagir no Twitter com o nosso professor gaúcho José Carlos Bortoloti – cujo nome de paz é @profeborto – recebi dele a sugestão para produzir algo mais sobre o COGITO ERGO SUM, dicionário especializado em comentários de expressões latinas, escrito por Orlando de Rudder, objeto do nosso primeiro texto.

Disse-lhe que a ideia era boa. Portanto, eis-me aqui de volta a falar do livro.
Abri-o. Logo no seu preâmbulo, o autor aclara-nos: “Esta obra nasceu do devaneio, do devaneio no sentido etimológico, isto é, do passeio”.

Maravilhado, convenci-me uma vez mais da impossibilidade de não cultivar a amizade com os meus dicionários, pois mesmo que em pensamento o nosso divagar [do latim divagāri, “errar por diferentes pontos”] não seja devagar, ainda assim é sempre bom divagar com o pensamento. Ora, os Dicionários Porto Editora lecionam-nos que devaneio é derivação regressiva de devanear. E devanear o que é? Sem ânimo de exaurir todas as suas aceções, os apaixonados mais comedidos dirão que devanear é sonhar, fantasiar, meditar…

Compulsei-o um pouco até encontrar um marcador de página exatamente no tópico onde eu havia pausado a leitura: Errare humanum est. Cheio de mim, orgulhoso, pretensioso, pensei em passar adiante. Afinal de contas, há muito tempo a minha excelente professora de Latim já nos havia transmitido esse antigo ensinamento romano. Depois, com mais humildade, pus-me a ler o que o autor dizia. E assim uma vez mais quedei-me extasiado.

Para início de conversa, “errare” significa muito mais do que cometer equívocos. Que estudioso da História – a mestra da vida – não se deparou com os povos errantes, nómadas, sem habitação fixa, que se movimentam constantemente de uma parte para outra? São errantes não porque estão permanentemente a cometer desvios de conduta, equívocos, desacertos ou mal-entendidos, mas porque não criam raízes em lugar algum. Num primeiro momento, estão aqui, depois, acolá, mais tarde, alhures. O que dizer de uma estrela errante? Será que se está a falar de um corpo celeste de comportamento reprovável, cheio de falhas, pecador?

O autor diz-nos então que “Qualquer progresso se funda a partir dos erros das novas gerações, ao corrigirem os erros das gerações anteriores”. De facto, destes ajustes constantes é que surge o desenvolvimento, a evolução tecnológica, o avanço científico. Quanto tempo aparentemente inútil não se tem consumido nas investigações farmacêuticas até chegar-se a um novo fármaco com propriedades lenientes para as pessoas enfermas? Quantos erros não foram cometidos até o ser humano conseguir enviar uma nave espacial à lua, ou ele próprio pisar lá? Quem já estudou Química sabe que, dentre outras possibilidades, consegue equilibrar-se uma reação química pelo método da tentativa e erro. O grande inventor Thomas Edison colecionou em média setecentos fracassos até inventar efetivamente a lâmpada de filamentos incandescentes. Quando o provocaram acerca de tantos experimentos infrutíferos, ele replicou que agora tinha seguro conhecimento de “700 coisas que não deram certo!”.

De Rudder explica-nos que no sentido mais denotativo errar tem a ver com a celeridade com que se vai “directo ao ponto visado”. Diz-nos que “Tal noção significou, a princípio, «viajar», ou seja, deslocar-se de um ponto a outro, pôr-se em marcha, ir”. Pontua que “A errância terá sido certamente uma aventura, mas também uma proeza, pelo menos no século XII”. Traz-nos achados curiosos: “Faire bonne erre, em francês, significava «ir depressa»”, ao passo que “De grant erre significou «pronto para a corrida»”.

Nem se pense que o autor faz discurso encomiástico a que as coisas se façam açodadamente. Não! Ele diz, sim, que não percamos tempo com “métodos estéreis” incapazes de nos impulsionarem a novas descobertas. O trabalhar diligentemente e com afinco empurra-nos para a frente, ainda que aqui e além descubramos que precisamos de realizar ajustes em nossas trajetórias. “É por meio de muitos erros e de constantes correcções que se pode chegar a uma certa justeza. O próprio erro em si pode tornar-se um método”.

Em preparação à finalização do seu comentário, o autor formula uma quase oração, coroando-a com o desiderato utópico inspirado na promessa feita pela serpente edénica à mulher no episódio bíblico descrito no Livro de Génesis: “Sonhemos, pois, que um dia se construa uma maiêutica do erro, tão verdadeira e rigorosa quanto os nossos devaneios, se não for menos do que eles. A partir desse momento, seremos «como deuses» [cf. Eritis sicut dii]”.

Apesar de todo esse rico devaneio, eu ainda não desvalorizaria aquela mais modesta e primária noção de que o erro, o equívoco, o mal-entendido, tudo isto é inegavelmente inerente ao ser humano. Entanto, permanecer no erro e/ou dele não extrair lições positivas para a vida, com vistas a não o repetir já seria um pouco de mais. Se pudermos comparar o erro ao limão, que façamos dele uma limonada.

Magno R Andrade
@magnoreisand – siga-me no Twitter

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