Reformados e pensionistas

CMM

Extraído do Google Imagens

Na tarde de um desses dias, fiquei por algum tempo na entrada de um banco, enquanto lá dentro uma pessoa da família providenciava umas coisas. Observando o intenso vaivém das pessoas, percebi como, ao adentrarem o edifício, todas elas esboçavam o semblante carrancudo, contraído, revelando assim a tensão e a preocupação que lhes corroíam o interior. Ao contrário, os que saíam do edifício demonstravam o relaxamento a denunciar o estado de espírito só alcançado depois de vencidas as longas filas condicionantes ao atendimento pessoal pretendido.

Em meio a esse entrar e sair de pessoas ávidas dos serviços bancários, um fato bem especial chamou-me a atenção. Refiro às pessoas reformadas de idade avançada, ou mesmo demasiado avançada, obrigadas a comparecer anualmente ao banco credenciado pela seguridade social, com o fim específico de cumprir o ritual de comprovar que estão vivas.

Em princípio, a exigência legal tem razão de ser. Embora não seja o desejável, a realidade é que, à medida que avançamos em idade, mais perto da morte estamos. Para prevenir que sucessores inescrupulosos levantem os proventos após o falecimento das pessoas titulares dos benefícios previdenciários, o ordenamento jurídico nacional estabelece friamente que quem tiver jus ao benefício da seguridade social deve periodicamente comprovar que ainda vive.

Apesar dessas medidas preventivas voltadas à proteção dos recursos públicos, o espetáculo por mim presenciado à porta do banco deixou-me extremamente penalizado. Vi pessoas quase mortas sendo duplamente amparadas por parentes ou terceiros, caminhando lentamente passo a passo, parando de quando em vez para respirarem, tão-somente  para cumprirem o calvário que lhes impõe a lei. Vi uma débil velhota de vastas cãs a empurrar com as mãos um equipamento provido de rodinhas, cuja barra superior lhe dava apoio ao caminhar. Vi assim pessoas submetidas ao cruel martírio de se deslocarem ao banco para responderem burocraticamente ao chamado da lei. Vi algumas tentando manejar as canadianas, flagrantemente cansadas e sem equilíbrio a deambularem a passos vacilantes.

Dados oficiais do IBGE apontam que em 2007 havia no Brasil 17,4 milhões de pessoas com idade igual ou superior a sessenta anos. O censo seguinte demonstrou que em 2017 esse número saltou para 26 milhões. Projeta-se para o ano de 2027 uma população de 37,9 milhões de indivíduos nessas consideradas condições etárias. Nesses universos a quantidade de pessoas reformadas é assaz apreciável. E são elas que irão enfrentar a via dolorosa nos bancos.

À toda evidência, algo precisa de ser feito. Algum mecanismo deve ser inventado, evitando-se que às pessoas de provecta idade seja imposto tão vexatório constrangimento físico e moral.

Que fazer, então? Onde está a solução? Reflitamos numa ilustração:

Numa Base da Força Aérea nacional, o rancho estava cada vez pior. Os soldados curtiam a insatisfação pela comida que se lhes davam. Para sorte da tropa, o comandante – que gostava dos soldados – tomou conhecimento da situação. Sem aviso, compareceu ao restaurante e disse que queria comer a mesma comida servida aos soldados. Foi um deus-nos-acuda! Como dar ao comandante aquela péssima comida? A solução foi providenciarem “comida de soldado” para o comandante. Num passe de mágica, a comida dos soldados melhorou.

Voltando ao nosso tema inicial, o que fazer em relação aos nossos idosos?
Fácil! É só auscultarmos o presidente da República, os presidentes das duas Casas Legislativas Federais, o ministro da Seguridade Social, o presidente do Instituto Nacional do Seguro Social, procurando extrair deles o que é que fazem quando são os seus pais ou avós que são coagidos a irem cadastrar-se na rede bancária.

O problema é que os nossos velhotes não têm a mesma sorte que os soldados da Base Aérea tiveram.

Magno R Andrade
@magnoreisand – siga-me no Twitter

2 pensamentos sobre “Reformados e pensionistas

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s