Evangelismo em Tempos Pós-Modernos

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Durante vários anos, fui desafiado pelas noções de pós-modernismo e suas implicações para a fé cristã, particularmente em relação evangelização. Esta questão é bastante vasta, e eu escolhi concentrar meus esforços com a seguinte questão: Em uma época influenciada pelo pós-modernismo, como os cristãos podem continuar envolvidos com o evangelismo no século 21? Apesar das limitações, proponho humildemente introduzir o meu caso nos próximos minutos.

Ao iniciar o desenvolvimento do caso, acredito que é necessário definir o pós-modernismo e descobrir suas implicações para a sociedade, especialmente nas áreas das crenças religiosas. Através de uma extensa leitura e pesquisa, encontrei vários fatores que identificam o pós-modernismo como uma ideologia predominante na atualidade. Acredito que a melhor maneira de começar é reconhecer que a utilização do termo “mundo pós-moderno” é muito amplo para ser definido com facilidade. É possível ainda deduzir que a maioria dos países da Europa Ocidental é mais influenciada por uma visão de mundo pós-moderna do que nações da Europa Oriental, Ásia, África ou América Latina. A situação na América do Norte talvez seja mais parecida com a Europa Ocidental.

Como é quase impossível identificar singularmente uma cosmovisão pós-moderna que aborde todas as culturas, decidi apresentar algumas definições e chegar a uma que, em minha opinião, descreve melhor a cultura particular que pessoalmente experimento na vida cotidiana, a cultura portuguesa. Vivemos no que tem sido chamado de tempos pós-modernos, uma forma de pós-modernismo que rejeita a crença de que há algo que pode ser chamado de verdade objetiva e absoluta. O pós-modernismo como um “tempo” ou “era” em vez de uma “cultura” é um tanto complexo. Dentro deste pensamento, suponho que historicamente cada região e nação sejam expostas a várias experiências temporais de pós-modernidade. Por exemplo, o Brasil fala a mesma língua que Portugal e tem algumas semelhanças culturais, mas os dois países são separados historicamente por mais de quinhentos anos de história. Entretanto, a cultura portuguesa tem sido influenciada por mais transições históricas e filosóficas que o Brasil. O Brasil, por outro lado, vive essas transições muito mais como observadores que buscam adaptar às suas próprias experiências culturais as influências que recebe do velho mundo.

No que diz respeito ao cristianismo, a noção de pós-modernismo é invocada como veneno e cura dentro da igreja contemporânea. Para alguns, a pós-modernidade é a ruína da fé cristã, o novo inimigo assumindo o papel do humanismo secular como objeto de medo e alvo primário da demonização. Outros, no entanto, vêem o pós-modernismo como um novo vento do Espírito enviado para revitalizar os ossos secos da igreja. Isso é particularmente verdadeiro no movimento da “igreja emergente”, que critica a modernidade, o evangelicalismo pragmático e procura readaptar o testemunho da igreja para um mundo pós-moderno. Em ambos os casos, no entanto, o pós-modernismo continua sendo um conceito nebuloso. O pós-modernismo tende a ser um camaleão assumindo quaisquer características que desejemos: se for visto como inimigo, o pós-modernismo será definido como monstruoso; se for visto como salvador, o pós-modernismo será definido como redentor. Essa ambiguidade tende a nos tornar um tanto quanto céticos sobre: O que é o pós-modernismo?

A resposta a esta pergunta é às vezes oferecida como uma tese histórica: o pós-modernismo tem sido descrito como um tipo de condição pós-moderna e às vezes está ligado a eventos históricos particulares, como os tumultos dos estudantes em 1968, a queda do Muro de Berlim, ou, para ser mais específico, às 15:32h de 15 de julho de 1972, quando a arquitetura moderna do famoso bloco de edifícios Pruitt-Igoe em St. Louis, Missouri, foram demolidos. Cada candidato ao advento do pós-modernismo se baseia em um relato do suposto colapso da modernidade. Tentar identificar o advento da condição pós-moderna ligando-a a uma época histórica, evento particular ou mesmo uma esfera cultural particular (arquitetura, literatura, música, artes visuais) parece contraproducente, dado o desacordo generalizado sobre tais afirmações históricas. Além disso, parece ingênuo pensar que o pós-modernismo poderia ser gerado por um único evento.

Em vez de tentar identificar sua origem ou essência histórica, uma suposição plausível e que a maioria dos comentaristas sobre o tema da pós-modernidade parece compartilhar é que: o pós-modernismo, seja monstro ou salvador, é algo que veio de Paris.

A suposição cristã do pós-modernismo tende a ser ou muito negativa ou muito positiva, fornecendo um espectro histórico do desenvolvimento do pós-modernismo, traçando suas origens com a filosofia francesa; incluindo citações relevantes como: “Não há nada fora do texto”, e a pós-modernidade é a “incredulidade em relação às metanarrativas” e “Poder é conhecimento”.

Ao examinar estes pressupostos sobre o pós-modernismo e sua relevância para a fé cristã somos levados a considerar os seguintes argumentos: 1. “Não há nada fora do texto”. Essa noção rejeita o preceito cristão de “sola scriptura”, que é o princípio fundamental do cristianismo, da erudição bíblica e da interpretação. 2. “Incredulidade às metanarrativas”. Nega o caráter narrativo da crença religiosa judaico-cristã que ultrapassa o tempo e o espaço. O cristianismo crê e anuncia uma única história para toda humanidade em todas as eras. 3. “Poder é conhecimento”. Representa o poder enriquecedor da formação e da disciplina e, portanto, a necessidade da igreja de encenar a contra-formação, em outras palavras, é necessário considerar cada disciplina como uma estrutura fundamental que precisa de uma direção apropriada.

É possivel dizer que a presente geração enfrenta uma crise que afeta todas as áreas da vida e da erudição, incluindo os campos da psicologia, antropologia, sociologia, filosofia e teologia. Questões que antes eram claramente definidas voltaram a ser discutidas nessa geração, trazendo um misto de perplexidade e indiferença. Os debates atuais têm desafiado o status quo de questões morais como a homossexualidade, o aborto, a eutanásia, o racismo, a pobreza a espiritualidade, o debate inter-religioso, etc.

Ao observarmos os movimentos atuais percebemos que o pós-modernismo é sem dúvida difícil de se definir, mas também é difícil de se defender e de se atacar. É mais um resultado da mentalidade do homem desta geração em descobrir novas maneiras de viver, interagir e experimentar novos conceitos num clima relativisado. Hoje invoca-se um tipo de iluminação espiritual privada e a liberdade de compartilhar esta experiência sem ser acusado de heresia, fanatismo ou loucura.

A crise de valores não é apenas uma questão em relação à religião, particularmente do cristianismo, é uma crise que enfrenta toda a humanidade. Essa incerteza ideológica é uma das marcas do pós-modernismo. O pós-modernismo rejeita todas as formas de verdade absoluta, criando um universo relativo, em que a verdade é individual e aquilo que é verdadeiro para uma pessoa pode não ser para outra, tornando a ação evangelizadora da igreja extremamente complexa.

Como o povo de Deus, um povo comprometido com a verdade objetiva, alcança uma comunidade em nome de Jesus quando essa comunidade é cética quanto ao próprio conceito de objetividade religiosa? Seria bom se os evangelistas modernos pudessem simplesmente deixar de responder à questão à luz da esperança de que o pós-modernismo esteja desaparecendo. Infelizmente não é. Os cristãos precisam de uma resposta. Eles precisam de direção. Eles precisam de alguém que passou anos pesquisando esse mesmo problema para fornecer a eles alguma forma de abordar essa preocupação. Um verdadeiro trabalho evangelistico da igreja no presente século requer mais atenção dos investigadores cristãos para que seja possível compreender e responder a presente geração.

Minha conclusão é simplesmente que devemos agir dentro e fora da igreja, defendendo e compartilhando as boas novas de Cristo para esta sociedade pós-moderna. Entretanto, isto deve ser feito com compreensão e amor, sem contudo, comprometer a verdade absoluta do Evangelho. É preciso encontrar maneiras de compartilhar as boas novas de forma relevante para os homens e mulheres pós-modernos de hoje. Não tenho certeza sobre quais são exatamente estas maneiras de compartilhar o evangelho sem comprometer os princípios relevantes da fé cristã; no entanto, sei que isso deve ser alcançado de forma fiel, de acordo com os princípios de um Deus amoroso e que está interessado em atrair para si mesmo homens e mulheres de todas as culturas e caminhadas de vida.

Professor Doutor Luis Alexandre Ribeiro Branco – Email: luis-branco@campus.ul.pt

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