Ter e Ser

img_1083-1Nós amamos porque ele nos amou primeiro. – 1 Jo 4:19

Vivemos numa sociedade onde somos medidos por aquilo que somos e por aquilo que temos. Se somos alguma coisa, se chegamos há algum cargo importante, então recebemos a aceitação dos que nos rodeiam. Se possuímos dinheiro, uma boa casa, um bom carro, boas roupas, jóias, então somos aceitos pela saciedade. Isto reduz a nossa existência àquilo que temos e somos segundo os padrões deste mundo.

Viver segundo os padrões que nos são impostos coloca sobre nós um peso para além daquilo que podemos suportar. Nunca estaremos a altura de respondermos às expectativas que nos são impostas. Este é o grande drama da sociedade onde vivemos, as pessoas vivem numa tentativa constante de satisfazer as expectativas que lhes são impostas. Expectativas de serem os melhores atores e atrizes, expectativas de serem os melhores cantores, os melhores advogados ou médicos e até mesmo de serem melhores pais, filhos ou alunos. Uma expectativa de alcançarem o topo. E por não conseguirem, vivem uma vida cheia de altos e baixo emocionalmente.

O mesmo o corre com o ter, o possuir. Nós vemos em Lucas 12:19 esta expectativa do possuir na vida daquele agricultor mencionado por Jesus em sua parábola. A Bíblia diz que este homem chegou ao topo da riqueza e então disse: “Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga.” A parábola nos deixa perceber que ele trabalhou a vida toda para chegar a este ponto. No entanto o que ele não considerou foi a brevidade da vida. Quando alcançou o topo foi dito ao seu respeito: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? (Lucas 12:20)

Talvez ao olharmos ao redor para alguns indivíduos possamos até invejar as suas vidas. Isto porque nós apenas vemos onde eles conseguiram chegar e o que conseguiram acumular. Nossos olhos são atraídos apenas para o que podemos ter ou ser. O zig-zag da vida, os altos e baixos, os sentimentos de incompletude, a insegurança para tentar manter a aceitação dos outros, a vigilância para manter e aumentar o que já se conseguiu faz com que tais pessoas passem por este processo de altos e baixos.

A vida é uma fina e curta linha no tempo. Alguns vivem um pouco mais e outros um pouco menos, mas no fundo a verdade é que a vida é uma fina e curta linha no tempo que logo se esvanecerá com um breve suspiro. A pensar sobre estes assuntos relativos a vida escrevi o seguinte poema:

Brevidade

Quanto tempo dura a vida?
Dura até a morte chegar!
Quando chega a morte?
Quando Deus do céu mandar.
Quanto tempo dura o luto?
O tempo que a saudade ficar.
Quanto tempo fica a saudade?
O tempo que Deus do céu deixar.
A morte não tem prediletos e nem velhos amores,
Leva aquele que nem sempre estamos a esperar.
A morte é cruel, sem coração nem piedade,
Ceifa vida e deixa órfãos, viúvos e amantes de todas as idades.
As poesias póstumas não são populares,
Será que pensam que dá azar ou não gosta da dor lembrar?
Escolhi ser poeta eclético, falarei de tudo o que na vida passar,
Seja alegria, seja dor, seja vida seja morte,
Como poeta não posso calar.
Não enfeitarei velórios com flores mortas, seria muita morte num só lugar,
Enfeitarei com palavras, lembranças, lágrimas e até sorriso por aquele que foi e não voltará.
Se pudesse eternizava todos quanto amo, para sempre com eles ficar,
Mas não tenho este poder, então só me resta chorar.
Não, na minha dor falarei como o poeta:
“Nuvem alta, nuvem alta,
Porque é que tão alta vais?
Se tens o amor que me falta,
Desce um pouco, desce mais!”
A circunstância não mudará devido a meras palavras,
Mas eu mudei, quero viver a cada instante que nos resta intensamente,
É a todo momento e a toda gente valorizar.

Na verdade o que importa é a percepção que temos da vida, da sua brevidade, da sua volatilidade e daquilo que realmente importa, o amor de Deus por nós. Toda a nossa busca pelo ser e pelo ter esta relacionada com a falta de entendimento do amor de Deus por nós. Pensamos que para ser aceitos precisamos deste ter e deste ser. O amor de Deus não trata-se de um amor qualquer, mais do primeiro amor: Nós amamos porque ele nos amou primeiro. – 1 Jo 4:19 – Primeiro quando? Desde sempre! Conforme a Escritura nos diz: “Eleitos segundo a presciência de Deus Pai…” (1 Pedro 1:2) – Portanto, o desejo de Deus é que possamos abandonar esta busca pelo ser e pelo ter e que possamos nos voltar para ele, voltar para o seu primeiro amor. Isto não significa que devemos abandonar nossas aspirações na vida, mas que nunca devemos fazer delas uma prioridade. Nossa prioridade deve ser amar a Deus, glorificá-lo, e gozar dele para todo o sempre.

Nossa cura na verdade depende disto, depende do nosso retorno para Cristo e para o seu amor. Seu amor é estável. Ele nos ama hoje o mesmo que nos amou ontem, e nos amará amanhã o mesmo que nos ama hoje. Portanto, pouco importa a nossa fina e curta existência neste mundo, o que importa é que sou amado por Deus, que aceitei ser amado por ele, aceitei responder ao seu amor. Como diz a Escritura: “Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu…” (Cânticos 6:3).

por Luis A R Branco

2 pensamentos sobre “Ter e Ser

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