Lutero: uma hermenêutica centrada no autor

2000fall_martin-luther-the-fearful-philosopher_1920x1080Lutero, embora monge, não havia encontrado o perdão para os seus pecados e vivia atormentado pelos mesmos. De alguma forma o que ele buscava não estava na tradição e nem mesmo na igreja. Foi quando estudava a Bíblia que encontrou no livro de Romanos algo que despertou a sua atenção para o verdadeiro valor do texto bíblico. Em Romanos descobriu que a salvação era uma obra exclusiva da graça de Deus e não do homem. O contexto teológico em que Lutero encontrava-se era o da necessidade da realização das boas obras para se alcançar a salvação pessoal. Entretanto, este contexto era desanimador, pois Lutero por mais que fizesse, sentia-se incapaz e distante da obra salvadora de Cristo. Foi quando leu Romanos 1:17 a expressão paulina “o justo viverá pela fé” que Lutero compreendeu o real sentido da fé em Cristo para a salvação. Esta experiência mudou por completo sua maneira de ver não apenas a obra redentora de Cristo, mas também mudou a sua forma de ver próprio o texto bíblico.

Ao contrário de ver a Escritura como um produto da igreja, portanto, passivo da interpretação da igreja, Lutero passou a ver a igreja como uma criação do evangelho, desta forma, inferior ao evangelho e sujeita ao crivo do próprio evangelho. Este reconhecimento da autoridade do texto bíblico deu origem a um dos cinco “sola” da Reforma Protestante, o Sola Scriptura. Lutero seguiu o caminho da interpretação literal da Bíblia.

Segundo o pensamento de Lutero:

Somente o sentido literal é que deve ser usado na interpretação da Escritura. Rejeitou o quádruplo sentido da Escritura usado pelos intérpretes medievais, como Nicolau de Lira[1]. O sentido literal da Escritura se baseia num conhecimento da gramática, do fundamento histórico (época, circunstâncias e condições), observação do contexto da Escritura, iluminação espiritual e a referencia de toda Escritura a Cristo. Lutero concluiu que os erros não se originaram das palavras simples da Escritura, mas pela negligência das palavras simples. Colocou o sentido quádruplo à margem, como ficção. Declarou que cada passagem tem seu verdadeiro sentido, próprio, claro e definido. Todos os outros sentidos são opiniões incertas[2].

Grant R. Osborne levanta a questão do significado ao escrever: “O processo de descoberta do “significado” de um enunciado escrito possui três focos: o autor, o texto e o leitor.

O autor “produz” um texto enquanto que um leitor “estuda” um texto. Porém, qual dos três é a força primária na determinação de seu significado?”[3]

Lutero valeu-se de quatro princípios no seu processo de interpretação do texto bíblico para chegar a uma conclusão quanto a esta questão:

Primeiro Princípio – Princípio da clareza: A Bíblia é suficientemente clara para apresentar sua significação ao crente. Sendo assim, o crente não precisa de auxílio oficial para o entendimento do texto.

Segundo Princípio – Princípio da responsabilidade individual do crente: Cada cristão é um sacerdote ou ministro, e é responsável em discernir a verdade da Palavra. O sacerdote não possui maior capacidade que um leigo.

Terceiro Princípio – Lutero acreditava que a canonicidade de um livro era determinada pelo fundamento se o livro pregava Cristo ou não. “Desde que Lutero rejeitou o método alegórico da interpretação, frequentemente ele empregava a tipologia para encontrar Cristo nos ensinos do Velho Testamento. Cristo é o “tesouro escondido” e a “pérola de grande preço” no Velho Testamento.”[4]

Quarto Princípio – Princípio da iluminação espiritual: “Visto que a Escritura lida com a vontade de Deus e com o coração do homem, o discernimento espiritual de um santo poderá ser de maior valor que a habilidade de um gramático. O Espírito Santo traz iluminação à mente do homem à medida que Deus fala ao coração do leitor mediante as Sagradas Escrituras.”[5]

Entretanto, “não basta a simples citação bíblica como demonstração da verdade. É preciso argumentar, ver a Bíblia em seu todo e não fraciona-la em pedaços.” Lutero fez com que para a igreja cristã, a Bíblia viesse a “ser mais do que um simples livro de história. É uma escritura a que se atribui qualidade sagrada. Por ela Deus mesmo fala. A Bíblia, pois, é palavra de Deus e, como tal, possui singular autoridade.”[6]

Os princípios adotados por Lutero serviram de base para o estabelecimento de um processo interpretativo que se firmou na igreja reformada. O princípio chamado da hermenêutica centrada no autor. “O propósito da interpretação é a reconstrução da mensagem original do autor.”[7] Uma vez que lidamos com um texto antigo, escrito em línguas diferentes e num contexto socio-cultural diferente, devemos nos aproximar o máximo possível daquilo que o autor pretendia dizer a sua audiência original.

Este processo é possível através de uma métodologia que busca compreender o texto dentro de seu contexto original. Um processo chamado pelos reformadores de processo “histórico-gramatical”. “Lutero afirmava que a Bíblia era compreensível a todos enquanto fosse interpretada histórica e gramaticalmente, sem a interferência da igreja.”[8] O método histórico-gramatical tem por objectivo confiar na infalibilidade da Escritura. Os reformadores acentuavam a necessidade de um exame do texto bíblico mediante ao estudo do contexto histórico e exame gramatical das palavras e frases contidas no texto original. “…se cremos que a bíblia foi verbalmente inspirada, […], então acreditamos que cada palavra nela contida é importante. […] A interpretação gramatical é o único método que respeita integralmente a inspiração verbal das Escrituras.”[9] “O método histórico gramatical tem por objetivo achar o significado de um texto sobre a base do que suas palavras expressam em seu sentido simples, à luz do contexto histórico em que foram escritas.”[10]

O processo histórico-gramatical busca levar o intérprete o mais próximo possível daquilo que era a intenção do autor original para com a sua audiência primária. Obviamente que este processo embora visasse permitir a interpretação do texto bíblico por todo cristão, na prática não é tão simples, pois exige do intérprete um mínimo de conhecimento do contexto no qual o texto está inserido, conhecimento socio-cultural no qual o texto foi escrito, conhecimento da geografia e arqueologia bíblica e ainda o mínimo de conhecimento das línguas originais para a exegese do texto bíblico. É possível concluir que o leitor comum é capaz de compreender os princípios básicos do ensino espiritual do texto bíblico, entretanto, a sua interpretação tende a ser mais exigente.

Lutero lançou novos alicerces para a interpretação do texto bíblico, alicerces que serviram para a reinterpretação das doutrinas e dogmas da igreja. Desde então a doutrina do Sola Scriptura tem sido aplicado pelas igrejas de Fé Reformada onde se diz:

Reafirmamos a Escritura inerrante como fonte única de revelação divina escrita, única para constranger a consciência. A Bíblia sozinha ensina tudo o que é necessário para nossa salvação do pecado, e é o padrão pelo qual todo comportamento cristão deve ser avaliado.

Negamos que qualquer credo, concílio ou indivíduo possa constranger a consciência de um crente, que o Espírito Santo fale independentemente de, ou contrariando, o que está exposto na Bíblia, ou que a experiência pessoal possa ser veículo de revelação.[11]

Entretanto, os tempos tem mudado numa velocidade impressionante. Em certos aspectos as mudanças são boas e necessárias. Na igreja, a parte mais afectada tem sido a hermenêutica da Escritura, que em muitos ambientes cristãos, em especial nos meios neopetecostais e liberais, perdeu seu sentido clássico, cedendo espaço para as novas tendências hermenêuticas.

Com estas mudanças, surgiram no meado do século XX aquilo que conhecemos como a nova hermenêutica. Essa nova hermenêutica se destacou por ter sua visão da Escritura centrada no leitor do texto bíblico, e não na Escritura em si, conferindo ao leitor toda autoridade de interpretar isoladamente o texto bíblico dando a ele o significado que bem entender. Um exemplo disto é o que Robert Crosman escreveu: “O significado (do texto) é exactamente como queremos que ele seja.”[12]

Este pensamento afetou alguns púlpitos das igrejas evangélicas, onde a Bíblia é lida como mero ritual litúrgico, mas a sua interpretação foge totalmente ao crivo interpretativo dos reformadores. Portanto, a nova tendência conferiu ao leitor autoridade para dar significado a Escritura de forma isolada, contrariando os princípios bíblicos adoptados pela reforma. Stanley Fish escreveu que: “A resposta do leitor não é apenas para o significado, é o significado.”[13]

A nova tendência hermenêutica trouxe confusão bíblica para dentro de muitas igrejas protestantes, onde não há mais significado literal para os textos bíblicos, só uma pluralidade de possibilidades de significado que são concretizadas no ato de leitura.

E finalmente, sob a influência da perspectiva da hermenêutica centrada no autor João Calvino escreveu: “É uma audácia próxima ao sacrilégio usar as Escrituras como nos apraz e brincar com elas como se fossem uma bola de ténis, como muitos já fizeram anteriormente… a primeira tarefa de um interprete é deixar que o autor diga aquilo que expressa de fato, em vez de atribuirmos a ele aquilo que achamos que ele quer dizer.”[14]

por Luis A R Branco

Citações:

[1] A letra ensina o que aconteceu, a alegoria em que deves acreditar, a moral aquilo que deves fazer, a anagogia aquilo por onde deves tender.
[2] Weldon E. Viertel, A Interpretação da Bíblia: Estudos Teológicos Programados (Rio de Janeiro: JUERP, 1979) (ADAPTADO).
[3] Grant R. Osborne, Espiral Hermenêutica, A: Uma Nova Abordagem a Interpretação Bíblica (São Paulo: Vida Nova, 2005), 598.
[4] Idem.
[5] Ibidem.
[6] Dr. Gottfried Brakemeier.
[7] Idem, 601.
[8] João Oliveira Ramos Neto, Os problemas e os limites do método histórico-crítico. Revista Theos. Campinas: 6ª Edição, V.5 – Nº2 – Dezembro de 2009, p. 4.
[9] Roy B. Zuck, A interpretação bíblica: meios de descobrir a verdade da bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1994. p.88.
[10] Claiton André Kunz, Método histórico – gramatical. Um estudo descritivo. p. 1.
[11] Declaração de Cambridge.
[12] Crosman, Do Readers Make Meaning, pág. 164.
[13] Stanley Fish, Is There a Text in This Class? The Authority of Interpretive Communities – Cambridge: Harvard University Press, 1980, pág. 3.
[14] Costa, H. (2006). Calvino de A a Z. São Paulo: Editora Vida.

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