BONHOEFFER: A MORALIDADE E A JUSTIFICAÇÃO MORAL NA PERSPECTIVA DA FÉ REFORMADA

Bundesarchiv_Bild_146-1987-074-16,_Dietrich_BonhoefferNo dia 9 de Abril de 2017 completaram-se 62 anos da morte de Dietriech Bonhoeffer. Minha intenção é apresentar uma breve biografia de Bonhoeffer com o objetivo de melhor compreender a importância da sua via e obra. Nascido em Breslau em 4 de Fevereiro 1906, foi filho de um psiquiatra de classe média alta. Quando jovem decidiu-se por seguir uma carreira de sacerdote religioso e teólogo na Igreja Luterana da Alemanha, doutorou-se em teologia na Universidade de Berlim e fez um ano de estudos no Union Theological Seminary em Nova York. Retornando para a Alemanha em 1931. Impactado com a segregação racial que movia os Estados Unidos da América nesta ocasião e com a pobreza intelectual, pelo menos onde estava envolvido academicamente, escreveu:

Não há teologia por aqui. Embora eu esteja basicamente a ter aulas e participado de conferências sobre dogmática e filosofia da religião, a impressão é esmagadoramente negativa. Eles falam sobre fatos sem a menor fundação substantiva e sem nenhuma evidência de qualquer critério. Os alunos – com idade média de vinte e cinco a trinta anos – são completamente sem noção.”[1]

Obviamente que Bonhoeffer era por demais exigente em termos académicos, pois fora criado com todo o rigor de uma família de classe média e que prezava pela intelectualidade. Foi um dos mentores e signatários da Declaração de Bremen, quando em 1934 diversos teólogos reformados, formaram a Bekennende Kirche, rejeitando desafiadoramente o nazismo: “Jesus Cristo, e não homem algum ou o Estado, é o nosso único Salvador.” Isto num contexto em que Hitler literalmente assumia um papel cada vez mais importante na Alemanha.

O movimento dos reformados foi considerado ilegal e em Abril de 1943 Bonhoeffer foi preso por ajudar judeus a fugirem para a Suíça e por fazer parte de uma conspiração para assassinar Hitler. Levado de uma prisão para outra, em 9 de Abril de 1945, três semanas antes das tropas aliadas libertarem o campo de prisioneiros em que se encontrava, foi enforcado, junto com seu irmão Klaus, e cunhados Hans von Dohnanyi e Rüdiger Schleicher.

Sua obra mais famosa, escrita no período de ascensão do nazismo foi “O Preço do Discipulado” (Nachfolge) na qual desenvolve a polêmica acerca da teologia da graça, fundamento da obra de Martinho Lutero. O livro opõe-se a ênfase dada à “justificação pela graça sem obras”, afirmando que:

A graça barata é inimiga mortal de nossa Igreja. A nossa luta trava-se hoje em torno da graça preciosa que é um tesouro oculto no campo, por amor do qual o homem sai e vende tudo que tem (…) recebe o chamado de Jesus Cristo o qual o discípulo ao ouvir larga suas redes e segue (…) o dom pelo qual se tem que orar, a porta a qual se tem que bater.”[2]

Bonhoeffer alertou diversas vezes a igreja alemã sobre a aproximação do momento em que precisariam decidir sobre a quem seguir, Hitler ou Jesus, praticar o bem ou praticar o mal, salvar vidas ou entregá-las aos seus algozes.

Quando já estava sendo perseguido pelo nazismo, Bonhoeffer escreveu um tratado considerado por muitos como uma das mais importantes obras primas do protestantismo, que denominou simplesmente “Ética”. É nesta obra que ele justifica, em parte, seu engajamento na resistência alemã anti-nazista e seu envolvimento na luta contra Adolf Hitler, dizendo que: “É melhor fazer um mal do que ser mau”. Confrontado com o horror dos crimes da Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial, Bonhoeffer abandonou seu pacifismo e juntou-se a uma conspiração para matar Hitler, inclusive, Bonhoeffer ressaltou que estava disposto a matar Hitler, se necessário pessoalmente. Ele modelou assim o tipo de tomada de decisão responsável, livre dos escrúpulos literalistas, que é o ponto de partida para a tradição da guerra justa, dando novos contornos a ética cristã.

Para Bonhoeffer, a autoridade política não deriva “de baixo”, mas “de cima”. A ascensão de Hitler ao poder simbolizou o que Bonhoeffer chamou de “populista” ou “democracia vulgar” em que o individualismo e coletivismo estão combinados para produzir um niilismo político. A decisão de Bonhoeffer de se juntar à resistência, como a de seus companheiros conspiradores, não foi motivado por um desejo de restaurar a democracia liberal[…], mas surgiu de uma consciência combinada com um profundo sentimento de lealdade à pátria; isso foi elitista, patriótico e nacional em ethos, em vez de liberal e democrático.[3]

Este ponto na vida de Bonhoeffer é importante, pois traz uma nova luz para a ética cristã diante da maldade. Não é suficiente discordar ou condenar atitudes contra a vida de inocentes, mas é preciso agir, ainda que de forma extrema, para salvar o que mais sofre e sofre inocentemente.

Sua missão ostensiva era espionar para a inteligência dos Aliados através de suas “visitas pastorais” e seus contatos ecumênicos. Sua verdadeira e principal missão era conseguir com os Aliados os termos da rendição, caso o plano contra Hitler fosse bem-sucedido. O ponto alto dessas negociações foi em uma reunião secreta com o Bispo Bell, em Sigtuna – Suíça, em maio de 1942. Bonhoeffer convenceu Bell a acreditar que os conspiradores venceriam o governo nazista, restaurariam a democracia na Alemanha e fariam reparações de guerra. Bell levou estas informações ao Secretário Britânico para Assuntos Exteriores, Anthony Eden, mas os Aliados responderam que para a Alemanha só havia uma condição, a “rendição incondicional”.

Bonhoeffer foi bloqueado em seus esforços para mobilizar a oposição da igreja contra Hitler. E percebeu que a igreja olhava apenas os seus próprios interesses. Em alguns casos Hitler assumiu um papel messiânico para algumas destas igrejas. Faltava-lhes o sentimento para assuntos mais urgentes: como contra-atacar o abuso e negação dos direitos civis na Alemanha. Ele censurou publicamente a falta de sensibilidade da igreja para com a situação difícil dos sacerdotes aprisionados por suas dissidências.

Se os líderes da igreja levantassem suas vozes em favor dos judeus, Bonhoeffer teria como avaliar o sucesso ou o fracasso do sínodo (liderança) da igreja. “Onde está seu irmão Abel?” – ele perguntava. Os seus ensaios e palestras deste período exibiam sua indignação contra a covardia dos bispos. Ele frequentemente citava Provérbios 31.8 – “Erga a voz em favor dos que não podem se defender”, para explicar o motivo de ser a voz de defesa dos judeus na Alemanha nazista.

Em junho de 1938, o Sexto Sínodo da Igreja Luterana reuniu-se para resolver a última crise da igreja. O Dr. Friedrich Werner, comissário do governo, responsável pela Igreja da Prússia, havia ameaçado expulsar qualquer pastor que se recusasse a fazer, como um “presente de aniversário” a Hitler, o juramento de lealdade civil. Ao invés de lutar pela liberdade da igreja, o sínodo transferiu o peso da decisão para cada pastor individualmente. Este resultado caiu nas mãos da Gestapo, que pôde facilmente identificar os poucos desleais que ousaram recusar-se a fazer o juramento. Enfurecido com os bispos, Bonhoeffer questionava, “Será que a Igreja Luterana nunca irá aprender que, em questões de consciência, a decisão majoritária mata o espírito?”[4]

Suas cartas da prisão são um exemplo de martírio e também um tesouro para a Teologia Cristã. Escreveu um médico do campo de prisioneiros onde estava Bonhoeffer sobre os seus momentos finais:

Na manhã do dia 9 de abril de 1945, entre as 5 e as 6 horas, os prisioneiros […] foram retirados de suas células e o julgamento do tribunal de guerra lhes foi comunicado. Pela porta entreaberta de um quarto, no acampamento, eu vi, antes que os condenados fossem despidos, o pastor Bonhoeffer de joelhos diante de seu Deus em uma intensa oração. A maneira perfeitamente submissa e certa de ser atendida com que esse homem extraordinariamente simpático orava me emocionou profundamente. No local da execução, ele orou novamente e depois subiu corajosamente os degraus do patíbulo. A sua morte ocorreu em alguns segundos. Em cinqüenta anos de prática, jamais vi um homem morrer tão completamente nas mãos de Deus.[5]

A relevância de Bonhoeffer nos dias atuais consiste em abrir caminhos para a discussão da responsabilidade ética ante a banalização da violência, da guerra injusta, da defesa do inocente e do sofredor, entre outros aspectos que envolvem a ética em nossa sociedade. Bonhoeffer desenvolveu sua perspectiva ética a partir da sua teologia, uma teologia cristocêntrica, mas não menos humanista, da qual não abria mão.

por Luis A R Branco

 

Bibliografia:

[1] Clifford J. Green and Guy Christopher Carter, Interpreting Bonhoeffer: Historical Perspectives, Emerging Issues (Minneapolis: Fortress Press, 2013), 155, accessed May 29, 2017, http://muse.jhu.edu/books/9781451469646/.
[2] Dietrich Bonhoeffer, The Cost of Discipleship (New York: Touchstone, 1995).
[3] Idem, 38.
[4] Marco Teixeira, “Dietrich Bonhoeffer,” O Poder da Ressurreição, accessed May 23, 2017, https://ressurreicao.com/index.php?option=com_content&view=article&id=485:dietrich-bonhoeffer-&catid=45:historia-da-igreja&Itemid=103.
[5] Testemunho do médico do campo de concentração nazista Flossenburg, citado em D. Rance. Un siècle de temóins. Paris: Fayard-Le Sarment, 2000.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s