Goa ao Reverso

Resumo: The purpose of this colloquium is to address the major Portuguese influence in Goan culture, left after 451 years in which Goa was a colony of Portugal. This impact, still alive, can be observed in the architecture, cuisine, language and above all in the Goan way of life. All this while the Goan culture is also influenced by the Indian making the tiny state of Goa is to look more like any other Indian state than with Portugal. One of the goals is to re-read the work of Maria Couto – “Goa, a Daughter’s Story”.

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Palavras chaves: Goa, India, Portugal, Portuguese, Concani

Goa (गोंय) é um dos vinte e oito estados da Índia. Localizado entre Maharashtra, a norte e Karnataka, a leste e sul, na costa do Mar da Arábia e fica a cerca de 400 km a sul de Bombaim. É o menor dos estados indianos em território e quarto menor em população, e o mais rico em PIB per capita da Índia.

A sua língua oficial é o concani, mas ainda existem pessoas que falam o português, devido ao domínio de Portugal na região por mais de 450 anos. As suas principais cidades são Vasco da Gama, Panjim, Margão e Mapuçá.

Goa tem uma paisagem peculiar quando comparada com outras partes da Índia, como bem explicou Maria Aurora Couto, “num dia claro os campos verdes de Goa dissolvem-se no azul do céu” (Couto 2004: xi). Diferente de outras cidades indianas, ao aterrarmos no aeroporto de Dabolim, em Goa, ficamos encantados com a sua vegetação, seus coqueiros e palmeiras. O aeroporto está localizado numa zona calma da cidade de Vasco da Gama e o percurso de trinta quilómetros entre o aeroporto e a capital Panjim é feito por uma belíssima estrada com vegetação de um lado e o Rio Zuari do outro. Seja em um dia de céu claro ou em plena monções, é uma viagem impressionante por sua beleza natural. Em determinados pontos do caminho encontramos alguma vivendas e altares católicos e hindus. A diversidade cultural e religiosa apenas enriquecem a beleza deste pequeno estado.

O processo de transição cultural em Goa foi lento, acelerado apenas após a chegada da administração indiana em Goa. Como explica Maria Couto:

Enquanto os antepassados da minha sogra foram hindus e falantes do concani, o lar em que ela nasceu era católico e assim foi desde os finais do século XVI. Embora seus ancestrais masculinos tivessem recebido uma educação portuguesa desde o século XIX, a língua só começou a ser falada dentro de casa, ao lado do concani, no início do século XX e o inglês entrou em casa apenas em 1927 com a chegada do genro que fora educado na Índia britânica (Couto 2004: xii).

A identidade do goês é formada por algumas particularidades que envolvem sua relação afetiva à sua aldeia, bem como com a casa dos seus ancestrais e também com o simples fato de sentarem-se numa varanda e manterem uma conversação em inglês, português e acima de tudo em concani – é o que Maria Aurora Couto chama de “luxo”.

Tenho deixado escapar propositadamente os aspectos políticos, concentrando-me nos aspectos culturais, religiosos e estéticos. A princípio a chegada dos portugueses em Goa deve tê-los feito relembrar a chegada à Lisboa. O Rio Mandovi é um dos dois principais rios de Goa, junto com o Rio Zuari. Ambos estão unidos pelo canal navegável de Cumbarjua. A entrada dos barcos até Panjim passa por um canal onde de um lado está o miradouro de Dona Paula e do outro o Forte Aguada. O rio relembra a entrada dos barcos em Lisboa pelo Rio Tejo.

O Mandovi tem setenta e sete quilómetros de extensão, enquanto o Tejo tem 1593 km. Apesar da desproporção ambos os rios possuem em sua foz uma similaridade interessante e que certamente impressionou os portugueses que ali chegaram pela primeira vez. Como escreveu Maria Aurora Couto: “Tento imaginar a perspectiva que deve ter impressionado os olhares dos tripulantes das caravelas portuguesas… ao chegarem às nossas costas” (Couto 2004: 8). Um misto de boa receptividade baseado em acordos políticos-comerciais com os dominantes do território como uma constante batalha com aqueles que consideravam a presença dos portugueses uma invasão de seus territórios.

O Forte Aguada é visível de várias partes de Panjim e chegou a ser usado no século XIX e XX como prisão para prisioneiros políticos portugueses até 1946, quando os mesmos foram transferidos para Peniche e outras partes de Portugal.

As regiões de Panjim, Goa Velha e Margão foram muito influenciadas pela forte presença dos jesuítas, enquanto que Mapuça e em especial Ponda mantiveram suas fortes heranças hinduístas. Um dos templos mais importantes dedicados a Shanta Durga e Shiva estão ambos localizados em Ponda, onde existem outros templos. Este é o lugar onde muitas famílias hinduístas visitam de tempo em tempo para adorar os deuses de seus antepassados e buscarem as suas bênçãos. A Cidade de Ponda parece ter-se mantido basicamente intocável pela religiosidade portuguesa ao longo de seus 450 anos de presença em Goa.

Um fator interessante e diferente da colonização britânica da Índia é que os goeses eram cidadãos de Portugal, este argumento foi inclusive utilizado por Salazar quando o direito sobre Goa era discutido entre a Índia e Portugal. Além disto, os ingleses ficaram na Índia por aproximadamente duzentos anos sem conceder os mesmos direitos aos locais, enquanto que os portugueses ficaram quatrocentos e cinquenta anos.

Goa era parte de Portugal, mas deveria sair, como escreveu Maria Aurora Couto: “Os portugueses precisavam sair, por que não sairam de forma pacifica e honrada?” (Couto 2004: 26). Com a liberação de Goa, como dizem os indianos, Maria Aurora Couto descreve o sentimento que havia no coração dos goeses que viviam fora de Goa: “A mudança de Patna para Goa não era bem uma mudança, eu pensava. Nós estamos a ir para casa. Mas, esta não era a realidade” (Couto 2004: 26).

Mesmo com a adoção de vários costumes portugueses, Goa nunca adotou o fado, por exemplo como podemos encontrar o fado no Brasil, ao contrário, os goeses apreciam mais as serenatas. Um outro aspecto interessante é a forma como Maria Aurora Couto descreve duas palavras tipicamente portuguesas, hoje inseridas no concani.

Algumas destas palavras são saudade e sossegado. Em uma paráfrase de um texto de Maria Aurora Couto explico que para o goês: “A palavra saudade, palavra de difícil tradução, é a combinação do sentimento de ausência, de uma lembrança gostosa, de um sentimento de amor, tudo isto junto, combinando com o sentimento de afeição e carinho, usada no plural no final de uma carta à um amigo.

A outra palavra é a palavra sossegado que indica um estado de tranquilidade, um gozo pela paz e pelo prazer da quietude. Diante disto, Goa é um estado mental. É uma vida vivida sem estar circunscrito a um espaço geográfico. O goês não mede a sua vida numa chávena de café. Ele saboreia a vida gole à gole, com gotas que nunca se acabam.”

Um outro fator interessante na formação do goês está a sua exposição desde os tempos mais antigos aos mais diversos tipos de pessoas. Hinduístas, budistas, islâmicos e cristãos contribuíram para aquilo Maria Aurora Coulto chama de “uma sociedade que é cosmopolita desde as suas raízes” (Couto 2004: 74). O arquétipo goês é formado da miscigenação de raças: negritos, proto-australoides, dravídicos, arianos e posteriormente portugueses.

O cristianismo chegou a Índia por volta do ano 52 d.C., segundo a tradição, através do apóstolo Tomé. Um fator interessante é que após os portugueses dominarem Goa, ao escavarem alguns escombros encontraram um crucifixo de metal, que foi retirado do local com todo respeito por Albuquerque que o enviou à Dom Manuel I, rei de Portugal, como sinal de que a fé cristã já havia chegado a Goa muito antes dos portugueses. Portanto, pressupor que o cristianismo é uma religião estrangeira, levada para a Índia pelos europeus é um engano. O cristianismo está em Goa muito antes do islamismo e talvez seja tão antigo quanto o hinduísmo nos moldes em que este se encontra hoje na Índia. A maioria dos cristãos nativos da Índia não precisam de qualquer esforço para defender sua identidade religiosa num país de maioria hinduísta. O cristianismo e o hinduísmo em Goa são religiões co-existentes desde os tempos mais remotos (Couto 2004: 97). Em 1705 o número de sacerdotes católicos em Goa ultrapassava 2500 padres.

Em 1684, os franciscanos conseguiram convencer o Vice-rei de Goa, o Conde de Alvor, para pressionar a população goesa a abandonarem o concani e dedicarem-se no aprendizado do português. Os fransciscanos asseguraram ao Vice-rei que em três anos eles seriam capazes de ensinar o português a toda a gente, desde que o concani fosse proibido. Obviamente que o plano não deu certo e quarenta anos após a liberação de Goa o inglês já era mais falado que o português, e o concani sobrevive mesmo depois de trezentos e trinta e três anos após ter sido banido (Couto 2004: 170). Da mesma forma, mesmo com o esforço dos jesuítas e franciscanos, Shiva sempre foi o deus mais invocado em Goa, desde 1115, quando os reis Kadambas assumiram Shiva como deus oficial da família real.

Os goeses consideram-se um povo distinto dentre todos os povos na Índia. Em 1987 foi feito um referendo sobre a possibilidade de unir o estado de Goa ao estado de Maharastra no entanto os goeses preferiram manter sua identidade e independência. Em 1963 quando Nehru esteve em Goa, fez questão de salientar aquilo que havia de distinto no povo goês, tal como acontecia com os demais estados da Índia. Goa é a Índia, entretanto, Goa foi sem dúvida o mais europeu dentre todos os estados da Índia.

Hoje Goa vive cada vez mais a sua indianização e a adoção dos costumes da Índia. O concani esteve em perigo de desaparecer, pois a progressiva modernização ocidental do subcontinente indiano resultou na maior utilização do inglês entre Católicos, enquanto que diferenças locais levaram à adaptação do marata pelos hindus da costa do Maharashtra. Esta prática foi mudada em 1985 por um movimento “Concani em Goa” que tinha apoio de grupos de ambas as religiões. O concani é agora falado por toda a Goa e é a língua oficial do estado. Desde então, recebeu o estatuto de língua oficial na Constituição Indiana. A língua Concani é escrita, conforme o local, em um dos 5 diferentes alfabetos: Latino, Devanágari, Árabe, Canarês ou Malaiala. São 14 vogais (exceto para escrita Árabe) e 36 consoantes.

O português é ainda falado por uma minoria cada vez mais reduzida e seu desaparecimento em Goa é inevitável. O catolicismo, bem como outros grupos cristãos em Goa permanecerão, como tem acontecido nos últimos dois mil anos. A arquitetura portuguesa será mantida nas vivendas antigas, enquanto as modernas seguem a tendência nacional, com algumas raras excessões. O goês enquanto indivíduo manterá algumas particularidades tipicamente portuguesas, afinal, 450 anos não desaparecem da noite para o dia.

Bibliografia:

Couto, Maria Aurora (2004). Goa: A Daughter’s Story. New Delhi: Penguin Viking.

Goa ao reverso
Luis Alexandre Ribeiro Branco
Universidade de Lisboa – luis-branco@campus.ul.pt

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