Como confrontar a pós-verdade

hq720…quem escreve sobre teologia.

O número daqueles que escrevem aumentou consideravelmente. Nos Estados Unidos da América o número saltou de 40.930 autores em 2011 para 44.690 em 2016. Destes, uma pequena parte são de autores de livros teológicos escritos sobre os mais variados temas. Mas sobre o que escreve-se? Em aspectos teológicos, qual tem sido conteúdo e teor de verdades bíblicas nestas obras? No meio evangélico os que mais escrevem são aqueles de origem neopentecostal e sabemos o quanto a teologia da fé, da prosperidade e da auto-ajuda são fortes nestes meios.

No meio secular, o número daqueles que escrevem sobre religião também aumentou, não apenas os que escrevem sobre as mais variadas formas religiosas, mas sobre o cristianismo e seus pressupostos, lançando dúvidas e heresias. Obviamente que nem tudo é desgraça e muita coisa boa tem surgido entre os novos autores que contribuem para uma vida cristã mais enriquecida e para a expansão do evangelho.

Desde os tempos mais remotos a igreja se viu obrigada a resistir as mentiras trazidas até ela por diferentes grupos. O Apóstolo Paulo ao instruir o jovem Timóteo sobre estas coisas o exortou a resistir firme aqueles que “…desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas” (2 Timóteo 4:4). Creio que esta premissa paulina continua válida para os nossos dias e talvez devesse ecoar ainda mais forte.

…da modernidade à pós-modernidade.

A modernidade confrontou a teologia de varias formas. Houve o confronto direto com a negativa da existência de Deus como fez Richard Dawkins que dizia: “Eu sou contra a religião porque ela nos ensina a nos satisfazermos ao não entender o mundo.” E ainda Friedrich Nietzsche: “O cristão comum é uma figura deplorável, um ser que não sabe contar até três, e que, justamente por sua incapacidade mental, não mereceria ser punido tão duramente quanto promete o cristianismo”.

No campo da hermenêutica fomos confrontados por figuras como Jean-François Lyotard que embora filho da modernidade, pegou a primeira década da pós-modernidade, o qual dizia: “Não podemos mais recorrer à grande narrativa – não podemos nos apoiar na dialética do espírito nem mesmo na emancipação da humanidade para validar o discurso científico pós-moderno.” Segundo Jean-François Lyotard não há uma meta narrativa, uma história universal, um plano divino que inclua o mundo inteiro, o que temos são pequenas narrativas localizadas. Já o filósofo Stanley Fish dizia que na hermenêutica: “A resposta do leitor não é apenas para o significado, é o significado.”

… a pós-verdade.

David Livingstone Smith em seu livro “Why We Lie: The Evolutionary Roots of Deception and the Unconscious Mind” diz que: “O engano é a Cinderela da natureza humana, é essencial para a nossa humanidade…” Mark Twain diz que: “Mentir é universal — todos nós devemos praticar isto.” Segundo o pensamento de alguns filósofos nós mudamos do Homo Sapiens (Homem Sábio) para Homo Fallax (Homen Enganador). Vivemos num contexto histórico onde mentir não apenas é socialmente apropriado, pois mentir não é apenas tolerável, mas uma exigência. Segundo Ralph Keyes em seu livro: “The Post-Truth Era: Dishonesty and Deception in Contemporary Life” — numa conversa de dez minutos um grupo de jovens têm a tendência a mentir três vezes, uma média uma mentira a cada 3.3 minutos. Socialmente mentir não é apenas uma atitude possível, mas uma atitude preferível. A realidade é que mentir tornou-se uma realidade aceitável na sociedade contemporânea, seja nas relações sociais, seja nas relações familiares, seja na política, seja na teologia. A realidade é que chegamos ao ponto onde a mentira teológica, a mentira que parte do púlpito não é apenas tolerável como preferível em muitos ambientes cristãos.

… uma afronta a Deus.

A mentira não é apenas um pecado, como diz a Bíblia: “Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; Não, não; porque o que passa disto é de procedência maligna.” (Mateus 5:37), mas uma afronta à própria natureza de Deus que é a Verdade: Disse-lhe Jesus: “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.” (João 14:6). Enquanto que muitos pecados são primeiramente horizontal (contra o nosso próximo) a mentira é um pecado na vertical (contra Deus).

A mentira é uma resistência a obra de Cristo em nossas vidas, a Escritura diz: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (João 8:32). Sabemos que o mundo afunda em toda sorte de engano, como escreveu o Profeta Jeremias: “A tua habitação está no meio do engano…” (Jeremias 9:6). Entretanto, somos convidado pela Palavra da Verdade (2 Coríntios 6:7) a resistir o fluxo deste mundo caído.

… mentira e teologia.

Estamos rodeados por igrejas para as quais o que menos importa é uma teologia com base na verdade, não só uma teologia mas toda a praxis religiosa está impregnada de engano teológico. Na realidade, para muitos pouco importa a verdade teológica, o que importa é se aparentemente as coisas estão a dar certo, como por exemplo, se há resultados numéricos ou boa receptividade pelos descrentes.

A realidade é que a verdade já deixou há algum tempo de ser um valor fundamental na prática teológica. Em lugar da verdade, impera o engano. A Palavra de Deus é torcida de maneira a adequar-se aos padrões do mundo ou adequar-se aos interesses escusos daqueles que procuram se beneficiar da fé. Dietrich Bonhoeffer declara que nos encontramos com não mais do que com um ídolo, se através do texto (bíblico) encontramos o que está de acordo connosco mesmo.

… perguntas para reflexão.

Como escritores, como podemos lidar com a concorrência desleal com aquela literatura que promove o engano e a mentira teológica?
Como lidar com a falta de oportunidades para publicações de obras que promovem a verdade?
Devemos entrar no campo apologético e confrontar textos que promovem a mentira e o engano?
Como enfrentar a realidade dos púlpitos que já cederam à mentira, mas que atraem as pessoas, algumas dos quais nossas ovelhas?
Qual o compromisso teológico que devemos assumir ao escrevermos sobre teologia?

por Luis A R Branco

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