Onde andará o César?

Posted on 21 de Novembro de 2016

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foice-e-marteloNa década de 60, quando cursava o antigo segundo ciclo do segundo grau, o então chamado curso científico, eu tive entre os meus colegas de turma um que se destacava por ser extremamente politizado. Numa altura em que o mundo assistia à Guerra Fria, iniciada logo após a Segunda Guerra Mundial e persistente até ao desmoronamento da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas [URSS], e no Brasil vivíamos a época dos governos militares, esse colega de nome César, ou Antonio César, discorria com desenvoltura acerca das maravilhas do marxismo, do leninismo e da outrora União Soviética, sempre em contraponto à política externa dos gananciosos “imperialistas” estadunidenses.

Em passos rápidos, quase a marchar, caminhava cabisbaixo a ruminar introspectivamente as suas ideias, ávido de partilhá-las bravamente com algum eventual interlocutor visível ou invisível que fosse. Por outras palavras, por vezes ele era visto sozinho a gesticular teatralmente num imaginário monólogo, a aduzir calorosas argumentações de si para consigo mesmo. Não nos passava à cabeça se ele era portador de alguma insanidade mental.

Estas recordações remontam ao tempo anterior à deterioração do ensino estatal, e, particularmente, o estabelecimento em que estudávamos era um dos melhores e mais exigentes da capital baiana. Nesse ambiente de excelência, o ex-colega César ressaía-se pelo bom rendimento escolar. Era efetivamente muito inteligente e estudioso. Tanto quanto possível, ele se ocupava sectariamente em difundir os seus conceitos, canalizados num discurso monotemático de exaltação aos soviéticos.

Enquanto deambulava a pregar a sua doutrina, punha-se a avançar e a aspergir certeiros borrifos salivares sobre os seus ouvintes, ao passo que estes, às defensivas arrécuas, mantinham-se instintivamente a uma distância estratégica para com ele conversar. Alguns até diziam jocosamente que para se dialogar com César era necessário munir-se de um bom chapéu de chuva. Tendo contra si tão repelente fama, era-lhe difícil integrar-se a algum grupo de amigos. Aliás, ele não tinha mesmo pendor algum para construir amizades. Em compensação, por não ser capaz de fazer mal a pessoa alguma, também não cultivava inimigos.
Depois que nos dispersámos para a vida, passei quase trinta anos sem o encontrar. Quando o vi, estava ele em lamentável situação. Estava irreconhecivelmente instalado num passeio próximo a um poste de iluminação pública, em meio a uns pneumáticos velhos de automóvel. O aspecto curioso é que, ao tempo em que éramos colegas, César era muito bem acolhido pela família, que me parecia de razoável nível socioeconômico.

Desde que descobri o sítio em que costumava ficar, comecei a passar por lá para dar-lhe algum alimento. A minha filha mais velha, de mui saudosa memória, não mo deixava esquecer. Eu aproximava-me dele, chamava-o pelo seu nome e entregava-lhe o que lhe tinha trazido. Impassível e com indiferença, ele o recebia silenciosamente. Um dia, inexplicavelmente o recusou. Numa especial noite de frio, calhou-me passar por onde ele costumava estar. Desvesti-me da minha jaqueta nova de dupla face, uma delas azul, a outra, encarnada, e dei-a a César. Quiçá coagido pela premente necessidade, ele estendeu-me a mão para a receber, rigorosamente silente, sem dizer uma palavra sequer. Sem a eloquência do passado, assumia cada vez mais um comportamento arredio. Às vezes sumia para então reaparecer no mesmo lugar.

Num dia em que eu estava num súper a fazer compras, encontrei-me casualmente com um ex-colega coetâneo a mim e ao César. Lá, parámos um pouco para uma boa conversa de uns quarenta minutos. Soube, assim, que este ex-colega comum seguira profissionalmente a carreira policial militar, e já se havia reformado no posto de tenente-coronel. No capítulo em que abordámos a história do inditoso César, ele disse-me que ainda no serviço ativo a ocupar o posto de capitão, ou major, ele o recolhera da rua por mais de uma vez. Levava-o às instalações militares, providenciava-lhe banho e substituía-lhe os sujos andrajos por roupas limpas. Na sequência, ele o alimentava e mantinha contato com os familiares dele, com vistas a reintegrá-lo ao convívio doméstico. No entanto, não sabia decifrar um enigma: o teimoso César sempre voltava às ruas, a dar seguimento ao terrível círculo vicioso.

Triste do César! Nunca mais o vi. Que lhe terá ocorrido? Que expectativas ou esperanças ter-lhe-ão restado das suas profundas convicções marxistas?

Magno R Andrade
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