Diálogo Inter-religioso

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O diálogo inter-religioso é um clamor constante da sociedade e das comunidades religiosas em sua boa parte, evidentemente que não tenciono generalizar ao assumir a ideia de que este seja um desejo global. Há religiões mais abertas para este tipo de aproximação e outras mais resistentes. Um exemplo de abertura está entre os judeus, visto que o judaísmo é praticamente uma religião consanguínea, ou seja, para ser judeu é preciso ser filho de judeus. Entretanto é sabido que algumas comunidades judaicas estão abertas à prosélitos. Já as religiões que envolvem algum tipo de conversão ou iniciação tendem a serem mais resistentes. Em minha tradição religiosa, protestantismo reformado, a ideia do diálogo nem sempre é vista com bons olhos, isto tem a ver com o receio dos protestantes com aquilo que podemos chamar de ecumenismo.

Esta resistência está fundamentada na ideia de que o diálogo inter-religioso ou o ecumenismo implique necessariamente no reconhecimento e aceitação de que todas as religiões são iguais, todas são verdadeiras ao mesmo tempo que nenhuma é portadora da verdade absoluta. A proposta de Raimon Panikkar sobre este tema inclui “o diálogo neste sentido significa por um lado, que nenhuma pessoa concreta pode possuir toda a verdade e, por outro lado, que a verdade mesma não é uma “coisa” exclusivamente objetiva”[1].

Acredito que o diálogo entre as religiões deve existir, porém, se o pressuposto deste diálogo for para questionar valores doutrinários ou dogmas desnecessários para a promoção da paz e boa convivência, ele não será jamais suficiente para a boa relação, co-existência e mútuo respeito entre as diferentes religiões.
Em Portugal na medida do possível há uma relação respeitosa entre as religiões e vários debates e diálogos têm sido promovidos para este fim. Entretanto, não podemos ignorar que a “Lei de Liberdade Religiosa” só veio a ser implementada em Portugal em 2001. Isto significa que até esta data o Catolicismo Romano gozava plenamente de toda liberdade religiosa, enquanto que as demais religiões, classificadas como seitas, tinham uma liberdade limitada. O diálogo inter-religioso deve ter como foco o tema da liberdade religiosa, muito mais do que a igualdade religiosa. Nós sabemos que as religiões são diferentes, os deuses são diferentes e suas liturgias são diferentes. O pressuposto da igualdade, ao meu ver é uma utopia, abafa aquilo que chama-se diversidade. Portanto, acredito que devemos promover um diálogo inter-religioso dentro do pressuposto da diversidade e diferenças religiosas.

O fato do meu grupo religioso entender que alcançamos uma verdade absoluta, não significa que eu não possa respeitar e dialogar com os demais grupos religiosos. E se os outros acreditam da mesma forma, não é obrigação deste ou daquele grupo religioso desprezar este entendimento. Cada religião buscará as evidências por si mesmas e que validem suas crenças. No cristianismo fundamentamos nossa crença através da historicidade e da fé. Acreditamos e possuímos evidências de que houve um Cristo histórico e acreditamos e possuímos evidências sobre a confiabilidade da Bíblia. Evidentemente que temos que lidar com aquilo que na teologia chamamos de aparentes contradições. Se outras religiões possuem seus pressupostos, estes devem ser suficientes para manter a lealdade de seus fiéis, sem contudo inibir as pessoas de acreditarem naquilo que escolherem acreditar, e, estarmos abertos para o diálogo e cooperação que visa o avanço e o bem-estar da sociedade.

Agostinho da Silva fala em um de seus ensaios sobre “COMPREENSÃO”, tão importante em nossos dias:

A primeira condição para libertar os outros é libertar-se a si próprio; quem apareça manchado de superstição ou de fanatismo ou incapaz de separar e distinguir ou dominado pêlos sentimentos e impulsos, não o tomarei eu como guia do povo; antes de tudo uma clara inteligência, eternamente crítica, senhora do mundo e destruidora das esfinges; banirá do seu campo a histeria e a retórica; e substituirá a musa trágica por Platão e os geómetras.
Hei-de vê-lo depois de despido de egoísmos, atento somente aos motivos gerais; o seu bem será sempre o bem alheio; terá como inferior o que se deleita na alegria pessoal e não põe sobre tudo o serviço dos outros; à sua felicidade nada falta senão a felicidade de todos; esquecido de si, batalhará, enquanto lhe restar um alento, para destruir a ignorância e a miséria que impedem seus irmãos de percorrer a ampla estrada em que ele marcha.
Nenhuma vontade de domínio; mandar é do mundo de aparências, tornar melhor de um sólido universo de verdades; se tiver algum poder somente o veja como um indício de que estão ainda muito baixos os homens que lho dão; incite-o o sentir-se superior a mais nobre e rude esforço para que se esbatam e percam as diferenças; não aproveite para mostrar a sua força a fraqueza dos outros, o bom lutador deseja que o combatam mais rijos lutadores.
Será grato aos contrários, mesmo aos que vêm armados da calúnia e da injúria; compassivo da inferioridade que demonstram fará tudo que puder para melhorarem e se elevem; responderá à mentira com a verdade e ao ódio com o bem; tenazmente se recusará a entrar nos caminhos tortuosos; se o conseguirem abater, tocará com humildade a terra a que o lançaram, descobrirá sempre que do seu lado esteve o erro e de novo terá forças para a luta; e se o aplaudirem pense logo que houve um erro também[2].

[1] Panikkar, Raimon, Peixoto 730, Andreia, Magdalena 080, Enrique Miret, Béthune 080, Pierre-François de, and Borges, Paulo. O Diálogo Indispensável: Paz Entre as Religiões.
[2] Agostinho da Silva, Textos e Ensaios Filosóficos, 1a. Rua Várzea de Manique, 234, 1A, Manique de Baixo 2645-088 Alcabideche., Obras de Agostinho da Silva (Lisboa: Ancora Editora, 1999-), 119-120.

por Luis A R Branco

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