Hipócrates – onde estão os loucos?

200px-Hippocrates_pushkin02Aquilo que nos é possível conhecer sobre a vida de Hipócrates de Cós está relatado nos escritos de Sorano de Éfeso. Nascido por volta do ano 460 a.C. veio a falecer possivelmente no ano 370 a.C. Hipócrates é considerado como o pai da medicina e ainda hoje os formados nesta área fazem o famoso “Juramento de Hipócrates”, que trata-se de um ato solene de juramento feito tradicionalmente por ocasião da graduação, onde os médicos juram praticar a medicina de forma honesta.

Oriundo da família dos Asclepíades, acredita-se que Hipócrates era descendente do herói Asclépio. Amante da medicina, Hipócrates viveu em locais como Tasos, Abdera, Cizico, Melibeia e Atenas, com o propósito especializar-se nesta ciência. “Em Atenas, Hipócrates teria não só ensinado e praticado medicina, mas também estudado retórica (com Górgias de Leontino), filosofia (com Demócrito de Abdera) e ginástica (com Heródico de Selimbria). Depois de retornar a Cós, deu novo impulso à medicina e lecionou na escola do templo de Esculápio” [1].

O trabalho de Hipócrates como médico encerra o período da medicina místico-teúrgica e o início de uma nova era onde os fatos científicos e clínicos passam a ser observados como prioridade pela medicina. “Seus escritos foram reunidos no que se convencionou chamar Corpus Hippocraticum, vasta e heterogênea compilação que inclui textos de vários autores, incluindo alunos de Hipócrates. Ao todo, o Corpus Hippocraticum é composto de 53 tratados, expostos em 72 livros. Emile Littré (1801-1881), quem primeiro os traduziu, considera autênticos, isto é, escritos por Hipócrates, apenas 12. Dentre estes, dois são os mais famosos: Aforismas (súmula da doutrina de Hipócrates) e Juramentos (que resume a ética de Hipócrates, até hoje pronunciada, com modificações, nas cerimônias de colação de grau dos médicos ocidentais). Já na opinião de Paul Harvey, em seu Dicionário Oxford de Literatura Clássica, apenas seis tratados foram escritos pelo médico grego”[2].

Hipócrates afirmava que o conhecimento do corpo seria impossível sem o conhecimento do homem como um todo. Um conceito possivelmente importado das medicinas babilônica e egípcia. “O corpo não é só um conjunto de órgãos, mas uma unidade viva, que a “natureza” de cada um regula e harmoniza. Dessas ideias decorre a importância que Hipócrates dava ao ambiente e à hereditariedade, salientando a prioridade do prognóstico sobre o diagnóstico (que, para os hipocráticos, sempre foi fragmentário e dominado pela sintomatologia). Ainda segundo Hipócrates, as doenças provêm do desequilíbrio dos “humores” (sangue, fleugma, bile e atrabile) que determinam os temperamentos (sanguíneo, fleugmático, bilioso e atrabiliário). Todo corpo tem, em si mesmo, os elementos para recuperar-se. É só a própria natureza que cura, devendo o médico limitar-se a segui-la”[3].

Mesmo hoje, com todos os avanços da medicina, há correntes médicas que defendem um retorno às ideias hipocráticas mais importantes, “como o conceito de força curativa da natureza e a patologia humoral”[4].

O livro “Do Riso e da Loucura”, creditado à Hipócrates, é na verdade uma coletânea de sete cartas enviadas por Hipócrates, tendo como assunto principal a doença de Demócrito, que segundo os escritos tratava-se loucura e uma espécie de melancolia, o que fazia com que Demócrito esquecesse de tudo, inclusive de si próprio, “permanece agora acordado noite e dia, descobrindo em qualquer coisa grande ou pequena motivo para rir, e julgando que a vida não tem qualquer valor”. “Levanta-se frequentemente à noite, e sozinho parece cantar suavemente”[5].

Diante do estado de Demócrito, o senado da cidade de Ardera pede a ajuda do renomado médico Hipócrates. Havia um temor nos moradores de Abdera que algo de pior pudesse acontecer a Demócrito ou que sua doença espalhasse-se pela cidade levando os abderitas à insanidade mental. Após avaliar os relatórios recebidos sobre o estado de Demócrito, Hipócrates começa a pensar se a doença de Demócrito não tratava-se de um exagero por parte dos abderitas, e se na verdade aquilo que era considerado doença e loucura não fosse de fato uma espécie de “excesso de virtude nada tem de pernicioso”[6].

Hipócrates levanta a hipótese dos adberitas estarem loucos sem saberem, ao ponto de considerarem a possibilidade da insanidade no sábio Demócrito. Esta reflexão de Hipócrates serve de um alerta para o mundo atual, que cego por sua própria loucura, preocupa-se com a insanidade de alguns poucos. Um exemplo interessante foi o convite que recebi para participar de uma tertúlia ecuménica organizada por alguns académicos ligados à determinada universidade. Lá estavam presentes líderes de verias religiões, intelectuais e membros do governo. O tema era liberdade religiosa e segurança nacional. Foi quando notei que os intelectuais presentes jogavam a culpa das guerras e assassinatos em massa sobre os ombros da religião, e aqui englobo todas as religiões. Neste momento do debate eu pedi a palavra e disse algo simples como: “No século XX mais de 150 milhões de pessoas foram assassinadas no mundo, sem incluir os que foram mortos pelo nazismo, por causa de ideologias que surgiram dentro das universidades, nos círculos intelectuais e artísticos. Este número é muito superior ao numero de mortes resultantes de todas as guerras religiosas durante toda a história da humanidade. E o que os intelectuais e a academia tem feito para impedir que isto repita-se?”

Naquele momento foi como a virada de Hipócrates, quem está louco a academia ou a religião? O mesmo podemos pensar em relação a diferentes assuntos, como por exemplo a política. A atual situação do Brasil é uma situação a considerar, pois, por treze anos a maioria da população chamou de loucos alguns poucos que ousavam falar contra as atrocidades deste governo petista, hoje vê-se que a loucura estava do outro lado, numa multidão que por três vezes consecutivas colocou a direção da nação nas mãos de outros igualmente loucos.

por Luis A R Branco
__________________
[1] Houaiss, António. 1979. Enciclopédia Mirador Internacional. São Paulo Rio de Janeiro: Enciclopédia Britânica do Brasil.
[2] Idem.
[3] Ibidem.
[4] Ibidem.
[5] Hipócrates. 2014. Do Riso E Da Loucura. Lisboa: Padrões Culturais Editora. (Orig. pub. Sur le Rire et la Folie).
[6] Idem.

por Luis A R Branco

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3 pensamentos sobre “Hipócrates – onde estão os loucos?

  1. Não sei se a religião tem futuro, e não sei se você está desiludido com a religião se estiver não é o único, pois em muitos países, o número de pessoas que se consideram não religiosos está cada vez mais aumentando.Assim paraece -me que o futuro das organizações religiosas é incerto, sei muito bem que as pessoas estão ficando cada vez mais desiludidos com a religião por diversos motivos, que incluem atos violentos e terroristas cometidos em nome da religão e o envolvimento de líderes regiosos em escândalos sexuais.Talvez seja por isso que a religião esteja sendo abandonada.
    “Loucos” Existem em quaisquer lugares sem contar com as Ideologias Partidárias que presenciando todos os dias e há anos.

    • Meu Caro,
      Não ando desiludido com a fé, pelo contrário, mais firme que nunca em minhas convicções.
      Como investigador na área da Filosofia da Religião, devo informá-lo, para sua surpresa, que o número de teístas cresce a cada dia.
      Outro fato a salientar, é que esta história das religiões inventarem as guerras é incorreta. Se pegarmos todas as guerras religiosas de todas as religiões nos últimos 2000 anos, o número de pessoas mortas é muitíssimo inferior ao número de pessoas assassinadas no mundo apenas no século XX. Foram mais de 200 milhões de mortos, sem contar os mortos nas duas grandes guerras.
      Abraços!
      Luis

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