Dalitis 

Posted on 5 de Maio de 2016

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Não havia muitas pessoas a fazerem o que fazíamos na Índia. Trabalhávamos com um classe paupérrima, sem recursos algum, com pessoas que moravam literalmente em casas feitas com caixas de legumes que conseguiam nas feiras, plástico e folhas de palmeiras. Eram pessoas sem nome, sem registro, sem direitos e completamente ignoradas. Há certamente pobreza em todo lado, no entanto, na Índia, estes eram na sua maioria dalitis, intocáveis, pessoas que até mesmo suas sombras eram impuras.

Nesta ocasião conheci duas pessoas, Anita, uma mulher inglesa já com certa idade, e que numa visita à Índia descobriu que precisava fazer algo por aquela gente. No entanto, nosso trabalho era exaustivo e parecia não mudar nada, éramos pequenas formigas a carregarem pequenos pedaços de folha de uma grande floresta. Lembro-me de sair pelas ruas da aldeia onde vivia e numa oração silenciosa questionar a Deus sobre o que fazer.

A outra pessoa que conheci foi Leslie Dias, um empresário indiano, que havia sofrido um derrame que paralisou parte do seu corpo é que andava pela Índia em busca de um significado. Um dia Leslie foi levado à minha casa, conversamos um pouco e o convidei para ir comigo e a Anita até uma favela. Era uma favela tão grande, a perder de vista, construída literalmente sobre o lixo. Mesmo com sua dificuldade de locomoção Leslie acompanhou-nos, sentou-num caixote e nos observava. Anita reunia as crianças e as mães e falava-lhes sobre higiene, enquanto eu seguia com os curativos. Na verdade não adiantava falar muito sobre higiene, aquele era um povo fatalista, para quem, estar doente era resultado da intervenção dos deuses que punia-os por terem sido pessoas más numa encarnação passada.

Naquele dia trabalhamos até escurecer e os medicamentos acabarem. Leslie voltou comigo para casa, e Anita foi para a sua. Em casa Leslie perguntou-me por que fazíamos aquilo, aquela gente era um problema insolúvel, foi quando respondi ao Leslie que não estávamos ali com grandes expectativas, que conhecíamos a realidade, mas que estávamos ali para mostrar o amor de Cristo, para dizer para aquelas pessoas que Cristo se importava com elas, que ele não estava irado, mas cheio de amor por suas vidas. Naquele dia Leslie compreendeu o grande amor de Cristo e sua busca finalmente chegou ao fim, em Cristo, o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim de todas as coisas.

por Luis A R Branco

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Posted in: Crónica, Curtas