Entre os islâmicos 

Posted on 2 de Maio de 2016

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Não muito longe de onde nós vivíamos na Índia havia uma das maiores aldeias da região. A aldeia era dividida em duas grandes áreas separados por um espaço vazio mais ou menos do tamanho de dois ou três campos de futebol. A parte baixa da aldeia era reservada aos hindus, onde havia um templo, se não estou enganado, dedicado ao deus Maruti (o deus com corpo de homem e cabeça e rabo de macaco). Era comum passarmos pelas vielas e nos depararmos com macacos nas janelas, portas e varanda das casas.

A parte alta da aldeia era reservada aos muçulmanos, e no topo da colina havia uma mesquita. Esta era a área mais populosa da aldeia.

Nosso trabalho missionário sempre foi restrito a parte baixa da aldeia, entre os hindus, que por serem panteístas eram mais tolerantes com os cristãos.
Entretanto, num certo dia resolvi pegar minha caixa com medicamentos de primeiro socorros, coloquei-os na minha lambreta e dirigi-me até a parte alta desta aldeia. Esta zona era considerada uma área proibida para os cristãos. Quando cheguei, desci da lambreta com minhas coisas sentei-me numa pedra e esperei que alguém aparecesse, logo surgiu uma criança que já me conhecia pelos trabalhos realizados na parte baixa da aldeia. Trocamos umas poucas palavras na língua Konkani e onde expliquei que esta ali para fazer curativos nos que precisassem. Ele espalhou a notícia e logo tínhamos um grupo de mulheres e crianças em fila para serem atendidos.

Na verdade eu tinha muito pouco ou quase nada para oferecer, nem em recursos e nem em conhecimentos, mas para aquela gente era o que tinham. Sem saber como, apenas com um cursinho de primeiros socorros, tentava ajudar no que podia. Aparecia todo tipo de problemas, em especial nas crianças. Cortes, queimaduras, perfurações, coceiras, gripe, inflamações, etc. Muitos dos problemas relacionados com a falta de higiene. Os remédios, gazes, ataduras, pomadas, entre outros eu conseguia por um preço mais baixo numa velha farmácia, daquelas ao estilo bem antigo.

Nesta minha primeira visita à parte islâmica da aldeia atraiu os necessitados, mas também os irados. Logo apareceu um grupo de homens que gritavam e gesticulavam em minha direção, aproximaram-se de mim e começaram a revirar as minhas coisas e acharam uma bolsa onde eu carregava folhetos na língua urdu, língua de boa parte dos islâmicos na Índia, da qual eu não percebia nada. Depois de alguns empurrões e retirarem tudo o que eu tinha, arrastaram-me e jogaram-me numa vala larga e funda. Em cima falavam uns com os outros sobre o que parecia, o que fazer comigo. Era comum naquela região partirem as pernas e os braços dos cristãos que ousassem pregar entre os muçulmanos. Calado, observava tudo sem saber como escapar dali. Atiraram para dentro da vala a bolsa com os folhetos e a caixa com os remédios. 
Foi quando um menino con uns seis anos desceu até a vala com um corte profundo nas mãos, chorava e pedia ajuda. Peguei algumas das coisas que estavam espalhadas pelo chão e comecei a fazer um curativo no menino. De repente um silêncio, todos observavam, logo desceu outra criança é mais outra, até que os homens chamaram-me e levaram-me à uma espécie de calçada, junto às escadarias da mesquita e mandaram-me sentar, trouxeram minhas coisas e autorizaram-me a ir sempre à aldeia, sentar-me naquele lugar e fazer ali os curativos. E assim seguia partilhando o evangelho.

por Luis A R Branco

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Posted in: Crónica, Curtas