A generosidade sem palavras

Posted on 25 de Março de 2016

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Era o mês de Julho, período das monções na Índia. Havia apenas cinco meses que eu estava no país e precisava fazer uma longa viagem desde a cidade de Panjim até a cidade de Calcutá. Uma viagem de comboio (trem) que levariam alguns dias. Era a minha primeira viagem pelo país e eu não fazia a mínima ideia de como seria e o que iria encontrar. 

Inexperiente, comprei uma passagem na pior classe do comboio, havia apenas uma estrutura suficiente para a longa viagem, que há vinte anos atrás era uma lenta é sufocante viagem. Cada vagão levava aproximadamente noventa pessoas, e em cada compartimento haviam seis camas, três de cada lado, uma por cima da outra, com um espaço de apenas sessenta centímetros entre uma cama e outra. Não havia lugar para as malas, e mesmo que houvesse não seria seguro deixá-las sem vigiar. A maioria das pessoas acorrentavam as malas aos ferros da cama ou ao próprio corpo para poderem dormir em segurança. Como eu não havia levado corrente alguma, usava minha mochila como travesseiro durante a noite. 
Não havia levado comida, pois falaram-me que vendiam os alimentos no comboio. Assim que atravessamos a divisa com Maharastra e a medida em que os passageiros eram apanhados nas estações pelo caminho eu já não compreendia nada do que era falado. Como único branco naquele compartimento, tornei-me uma espécie de atração turísticas, o qual os pais traziam seu filhos para ver. 
Logo passou um homem, que pelo uniforme percebi que era um funcionário e que estava ali para saber quem iria querer almoço, pago a parte. Sem ter a mínima ideia do que haveria de comer fiz sinal positivo com a cabeça dando a entender que desejava almoçar. Um uniforme sujo e surrado deixava claro que não deveria ser uma boa refeição. Depôs de algumas horas volta o mesmo funcionário com uma cesta com o almoço. Arroz com açafrão embrulhado num pedaço de jornal, um pão indiano e um caril indistinguível num saquinho de plástico transparente. Sem talheres, com o corpo curvado na cama abri o jornal e com a mão misturava o caril no arroz e apanhava pequenas porções com o pão. O picante (pimenta) era tanta que mal conseguia comer, com o calor o suor escorria-me pelo rosto, numa mistura de calor e picante.
Comi o que pude, horas depois estava a passar mal do estômago possivelmente pela falta de higiene na preparação e na forma como a comida era servida. Não conseguia comer mais nada, a barriga apertava e o tempo demorava a passar. Foi uma noite agonizante. No dia seguinte não comi nada, apenas bebia água para evitar uma desidratação. Com o tempo a fome apertava, mas preferia a fome do que passar mais uma noite em agonia. Quando o funcionário passava eu simplesmente acenava que não desejava nada. 
Sem perceber, era observado por um homem uns dez anos mais velho que eu, bem vestido que sem dizer uma palavra com uma sacola nas mãos subiu na minha cama, o que a princípio foi confuso para mim. Este fez sinal para que chegasse para trás, o que fiz sem compreender nada. Foi quando ele abriu a bolsa tirou uma toalha, estendeu-a entre nós e tirou duas bananas, uma para ele e outra para mim, num pequeno prato de metal colocou um pão indiano, um pouco de arroz branco e um pouco de caril. O sabor era outro, agradável cheirava bem, e a banana foi das mais saborosas que provei até hoje. Ao terminarmos ele recolheu tudo e sem dizer uma palavra meteu dentro da bolsa e voltou para o seu lugar. Logo sentia-me fortalecido.
Na hora do jantar a mesma cena se repetiu, meu amigo desconhecido e silencioso veio dividir sua refeição comigo. E assim aconteceu no dia seguinte, era nossa última refeição antes de chegarmos a Calcutá. Tentei expressar minha gratidão que ele parecia ignorar. Com esforço consegui perceber que era hindu. Ele recolheu as coisas e desceu da cama voltando para o seu assento, adormeci e quando acordei meu amigo desconhecido já havia deixado o comboio. 
Absorvido em meus pensamentos e grato pelos cuidados de Deus entendi que as virtudes humanas ou a bondade não estão restritas aos cristãos, mas Deus usa quem quer e onde quer para cuidar de um filho seu. A imagem bondosa daquele homem continua nítida em minha mente e sua generosidade sem palavras em meu coração.
~ Luis A R Branco 

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