O sacerdote chorou

Posted on 23 de Março de 2016

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Estávamos no sul da Índia, no interior do Estado de Karnataka, numa região muito bonita e com uma vasta floresta que cobriam os montes como se fossem regiões nunca habitadas. Os macacos em abundância saltavam de árvore em árvore como se estivessem a nos vigiar. Como outros animais na Índia, o macaco é um animal sagrado, uma representação do deus Maruti, ou Hanuman, cuja aparência física é a de um corpo humano com uma cabeça e rabo de macaco.

Encontramos uma trilha e resolvemos seguir por ela subindo pelo monte, depois de horas de caminhada chegamos ao topo e assim que completamos o final da trilha nos deparamos com uma vasta clareira rodearas por pequenas casas e um templo hindu bem ao meio. Era mais uma das muitas aldeias remotas da Índia.

Assim que avistados fomos cercados por crianças e depois por mulheres e alguns homens. Não entendíamos nada que falavam, mas pareciam estarem felizes com nossa presença ali. Fomos guiados até uma das casas, onde na porta já haviam colocado uma esteira para nos sentarmos. Logo serviram-nos um chá escaldante com leite de cabra e de sabor agradável. Apesar do calor e da longa caminhada o chá parecia refrescar nossos corpos ou seria a receptividade de nossos anfitriões?

Não demorou muito para que de dentro do templo viesse ao nosso encontro um jovem sacerdote hindu, um dos mais jovens que eu já conhecera. Falava connosco numa mistura de hindi e inglês, com um pouco de esforço e boa vontade íamos nos entendendo. Naquela aldeia remota a vida funcionava ao redor do templo, não havia energia elétrica, não havia rádios, não havia escolas e não havia mercados. O templo era o centro daquela comunidade. 

Após o chá fomos convidados para conhecer o templo, sempre seguidos pelos habitantes da aldeia. Em respeito aos nossos anfitriões deixamos para trás nossas sandálias surradas e seguimos o sacerdote que nos levou até uma espécie de gruta onde no meio daquele espaço escuro estava uma pedra desforme, cercadas por oferendas e coberta com óleos aromáticos e lamparinas acesas. O sacerdote logo começou a explicarmos que aquela pedra era a personalização de Vishnu e que há setecentos anos cultos eram celebrados naquele lugar. 

Se desejasse ser politicamente correto não deveria mostrar espanto, mas minha crença num Deus infinito, mas pessoal, transcendente, mas relacional fez com que eu sentisse piedade por aquelas pessoas. Talvez alguns dirão que eu não devesse, mas minha mente racional não me permite o luxo de simplesmente ignorar o que via e ouvia. 

Com toda delicadeza fomos guiados por nosso anfitrião até uma chapada, com uma vista fabulosa de todo o vale e montes ao redor. Foi quando o sacerdote, sentado connosco naquela chapada perguntou-me: “Quem é o seu Deus?” Depois de pensar por um instante fui apontoando para o horizonte, para o vale, para as montanhas, para a floresta bem abaixo de nós, depois para o céu e para a lua que já dava sinal da sua chegada, apontei para as pessoas e por fim para a pedra onde estávamos sentados e disse-lhe: “O meu Deus é aquele que criou todas estas coisas que nossos olhos podem ver, e as criou por amor a nós, para que estas coisas nos atraíssem para ele!” E o sacerdote chorou.

~ Luis A R Branco 

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Posted in: Crónica, Curtas