Vijaya 

Posted on 22 de Março de 2016

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Era mais uma daquelas tardes quentes no sudeste asiático quando juntamente com outros colegas dirigi-me para a aldeia onde trabalhávamos semanalmente com crianças, evangelismo e o meu trabalho era cuidar daqueles que estavam feridos, com sintomas simples para os quais pudéssemos ser de alguma ajuda, com curativos e coisas do género. Na verdade, mal esticava a esteira sobre o chão de terra e abria minha caixa com alguns remédios, faixas, esparadrapos, etc., que logo formava-se uma fila enorme de pessoas sujas, magras, rosto sofrido, mas com alguma esperança de que poderíamos ser-lhes de alguma ajuda. 

Havia todo tipo de problemas, desde uma simples picadas de insetos a grandes cortes e outras mazelas. Eram pessoas que não tinham acesso aos hospitais, pois pertenciam ao grupo dos shudras, grupo formado por trabalhadores braçais, considerados pelos escritos do Manava Dharmashastra, como “intocáveis” e impuros. Inferiores e pobres era possível que nem fossem vistos por um médico caso dirigissem-se à algum hospital. 

Neste dia observei que Vijaya, uma moça que estava sempre connosco e era moradora da aldeia, caminhava com muita dificuldade até cair onde estávamos. Percebemos logo que o caso era sério e para além da nossa capacidade de ajudar. 
Na aldeia, para além da miséria, Vijaya tinha que suportar a fama de amaldiçoada, pois incapaz de gerar filhos, fora abandonada pelo marido e agora vivia de migalhas na casa dos pais e outras pessoas da aldeia.

Colocamos Vijaya no nosso enorme Jipe Mahindra e fomos de hospital em hospital sem conseguir que alguém a socorresse. Com o pouco do dinheiro que tínhamos a levamos à um médico particular, o mesmo que me atendia nas minhas frequentes enfermidades na Índia. Este, nem por dinheiro quis atende-lá, ao invés disto veio ralhar comigo por perder meu tempo com “aquele tipo de gente”.

Foi assim que pela primeira vez conheci na prática a lei do karma que domina o sistema de castas na Índia. Buscávamos socorro para uma intocável e maldita por força do destino infeliz de ter nascido numa família de shudras, uma esterilidade e abandono. 
Nosso esforço foi sem resultado e Vijaya faleceu sem que sequer soubéssemos a causa. Seu corpo foi queimado numa pira com outros corpos de infelizes iguais a ela sem familiares que pudessem pagar pela madeira. Suas cinzas misturou-se com a dos outros corpos, misturou-se com as cinzas da madeira usada para alimentar o fogo e por fim misturou-se a terra e assim Vijaya deixou a existência e sua memória foi apagada da lembrança daqueles que viviam a sua volta.
Senti-me um derrotado, uma pessoa de mãos atadas numa cultura milenar onde o desgraçado nasce desgraçado sem qualquer hipótese de mudar a sua história.  

Flashes da imagem de Vijaya passavam por minha memória e neles ela sorria. Eram as imagens dos momentos de cânticos e histórias bíblicas que contávamos na aldeia, imagens de quando passávamos o filme com a história de Jesus ou de quando cantávamos alegremente sob a luz de lamparinas canções de louvores a Deus em sua língua materna.
E assim meu coração alegrou-se. O Deus ao qual Vijaya louvou, o Deus para o qual Vijaya sorriu, o Deus cuja história Vijaya ouviu tantas vezes com uma sagrada atenção, certamente não lhe tinha esquecido, sua memória não passou despercebida para aquele que é Eterno. 

Finalmente minha decepção tornou-se em esperança, a esperança de que tornarei a ver Vijaya novamente, mas numa outra realidade, na qual ela é uma princesa.
~ Luis A R Branco

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