Sócrates: A TEORIA DO CONHECIMENTO, ÉTICA E LÓGICA

Posted on 24 de Fevereiro de 2016

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socratesEscrever sobre Sócrates dá-nos uma dupla sensação, a primeira, uma sensação de incapacidade diante dos obstáculos causados pela escassez de material biográfico, auto-biográfico e literatura escrita. E a segunda, é uma sensação de adentrar nos corredores da história e conhecer, ainda que de forma limitada, sobre a vida e a obra deste grande homem e passar a narrá-lo à terceiros. A vida de um grande homem, especialmente quando ele pertence a uma época remota, nunca poderá ser um mero registro de fato incontestável. No entanto é incontestável que Sócrates realmente existiu e deixou para as gerações futuras um legado de grande sabedoria.

Um dos obstáculos para alguns está na ausência de uma literatura socrática escrita. Entretanto, ao meu ver este obstáculo é ultrapassado quando buscamos um entendimento mais profundo daquilo que vem a ser literatura. Segundo Patrícia Martins em seu Mini Manual de Literatura, “a Literatura teve sua origem mais ou menos paralela ao surgimento da escrita, há milhares de anos atrás, criada pelo homem com o objetivo de conservar a sua história através de epopeias”[1] e lendas, dando origem a narrativa histórica e religiosa dos povos.

Estudiosos e historiadores, descobriram que a literatura é anterior à escrita. Está ideia entra em conflito com nosso entendimento de que literatura e escrita são sinónimos, o que não é a realidade. Certas lendas e canções eram feitas oralmente e, neste caso, não existia um autor específico – a literatura era oral, anônima e coletiva. Somente com o surgimento da escrita é que a literatura tomou forma e ganhou a figura do autor.

Literatura nada mais é do que uma combinação de palavras com uma intenção estética, cujos géneros podem ser classificados em epopeia, poema e teatro. Ao combinarem-se as palavras, alcança-se novos significados (metáforas), sobre os quais o escritor acaba criando sua própria realidade através da imaginação. Portanto, dizemos que a literatura é invenção, e o autor cultiva essa realidade imaginária através de situações básicas da vida, sua visão do mundo, seu talento e sua sensibilidade.[2]

Isto é algo fantástico, pois a literatura torna possível aquilo que na realidade é impossível. O dramaturgo Ariano Suassuna explica isto de uma forma interessante quando fala da sua obra “Auto da Compadecida”, ao referir-se a personagem de Chicó que narra para João Grilo uma de suas aventuras, onde montado numa égua ele teria atravessado cinco estados brasileiros em um determinado número de dias sem parar nem para comer e nem beber. Então, João Grilo pergunta para Chicó se ele não sentiu sede, então, Chicó responde-lhe: “Sede não, mas era uma vontade de fumar danada!”
Suassuna mostra que na literatura não só criamos a realidade daquilo que é irreal, mas na mente do autor e do leitor o texto torna-se realidade, ao fazer com que a impossibilidade narrada na literatura torne-se possível no imaginário.

É pelo contentamento (ou não) com realidade que o autor procura descrever a vida através de uma linguagem pessoal, porém se preocupando com a compreensão do leitor. Então, o autor cria ficção, ao fugir da realidade, mas não da contextualidade. Em sua obra literária, são encontrados os elementos essenciais – conteúdo, que é a mensagem da obra, as ideias que o autor quer transmitir; e forma que é como o autor empregou a palavra para elaborar seu texto.[3]

Desta forma, com uma compreensão mais alargada sobre o que é literatura, podemos afirmar que Sócrates deixou-nos uma literatura, porém, em seu formato ou tradição oral. Desta feita, podemos desenvolver nossa linha de raciocínio sobre o filósofo.
Uma vez que não possuímos registos sobre a data do nascimento de Sócrates, é difícil de afirmar com exatidão quando isto pode ter acontecido. Todavia, temos registros que apontam para o julgamento de Sócrates como um evento ocorrido em 399 a.C., Platão deixou registrado que o julgamento de Sócrates ocorreu quando o mesmo estava com os seus setenta anos de idade, sendo assim, é possível presumir que o filósofo tenha nascido provavelmente em 470 a.C..

Algumas noções básicas sobre Sócrates apenas à título de informação é que Sócrates foi filho de Sofronisco, um escultor, e de Fainarete, uma parteira, uma família simples. Seu nascimento pode ter ocorrido nas planícies de Licabeto, próximo de Atenas. Embora não tenhamos evidencias, acredita-se que Sócrates tenha sido casado com uma mulher chamada Xaântpe, com quem teve dois filhos.

Devido ao grande interesse do filósofo por livros sobre sexologia, acredita-de que o filósofo tenha desenvolvido um romance homosexual com Alcebíades. Está ligação, deve datar da época em que Alcebíades era um mero menino e Sócrates já um homem nos seus trinta anos. Esta relação é descrita por Platão como uma profunda paixão romântica.[4]

Sócrates costumava caminhar descalço, não tinha o hábito de tomar banho e em certas ocasiões, parava o que quer que estivesse fazendo, ficava imóvel por horas, meditando sobre algum problema.[5] Mas o que realmente existia em Sócrates que possa ter justificado a sua morte e que possa ter atraído homens como Platão? Entre outras coisas, foi a concepção da realidade “alma” no homem que impressionou a muitos e que desde então, dominou o pensamento europeu. Criando uma base bastante propícia para estabelecimento do cristianismo na Europa. A influência direta desta filosofia socrática tornou familiar algumas das doutrinas cristãs no mundo greco-romano quando o cristianismo alcançou o território europeu.

Platão foi sem duvida aquele que evitou que Sócrates entrasse pelo túnel escuro do esquecimento da história. A Apologia de Sócrates é uma obra de Platão, onde o mesmo relata a auto-defesa de Sócrates em seu julgamento, o qual foi submetido após ser acusado de corromper os jovens, a não acreditarem nos deuses do Estado, e para colocarem em seus lugares; novas divindades, sob o nome de demónios. Melito foi quem acusou Sócrates destas acusações, mas as alegações não foram as mais graves contra Sócrates, mas as antigas acusações de pessoas que o tinham caluniado por anos e tinham plantado falsos rumores sobre ele.

A vida de Sócrates foi encantadora justamente por ele pensar e propagar uma perspectiva diferente da lógica, da ética e do conhecimento. Fala-se que um dia Sócrates foi levado junto à sua mãe para ajudar em um parto complicado. Vendo sua mãe realizar o trabalho, Sócrates logo “filosofou”: Minha mãe não irá criar o bebé, apenas ajudá-lo-á a nascer e tentará diminuir a dor do parto. Ao mesmo tempo, se ela não tirar o bebê, logo ele irá morrer, e igualmente a mãe morrerá!” Desta forma Sócrates concluiu então que, de certa forma, ele também era um parteiro. O conhecimento está dentro daqueles são capazes de aprender por si mesmos. Sócrates então concluiu que poderia ajudar no nascimento do conhecimento. Sua vocação falou mais alto e ele partiu para estudar filosofia, onde foi discípulo dos filósofos Anaxágoras e Arquelau. Seu talento despertou a atenção de seus mestres, ao ponto de ser chamado pela Pítia (sacerdotisa do templo de Apolo, em Delfos, Antiga Grécia) de o mais sábio de todos os homens.

O que Sócrates fazia para além da filosofia é incerto, é possível que também tenha dedicado-se ao oficio de oleiro tal como o seu pai. Mas sem dúvida que seu mais importante oficio tenha sido o de pensador, ao ponto de ter a sua filosofia chamada de maiêutica, “o parto das ideias.”

Como uma espécie de apóstolo da liberdade moral, tendo por guia apenas o que sua consciência interna dizia-lhe. Era um homem extraordinariamente culto, cujo principal trabalho foi o diálogo com todos os cidadãos. Segundo seu pensamento, conhecer o que é verdadeiro e justo será sempre o objetivo de todos os diálogos. O método socrático define como o objetivo do conhecimento a aquisição de conceitos, tais como os conceitos éticos de justiça, a piedade, sabedoria, coragem e similares. Sócrates pressupõe tacitamente que a verdade está incorporada na definição correta. E a definição precisa de termos considerando o primeiro passo no processo de resolução de problemas.

O método socrático é empírico ou indutivo. Isto significa que as definições propostas são consideradas por referência a exemplos particulares. Sócrates sempre testou suas definições através do recurso a experiência comum para usos gerais.
Outro método utilizado por Sócrates é o método deductivo. Isto significa que uma determinada definição deve ser provada ao expor as suas implicações, deduzindo as suas consequências, o que envolve argumentos conhecidos como silogismo. Um silogismo (do grego antigo συλλογισμός, “conexão de ideias”, “raciocínio”; composto pelos termos σύν “com” e λογισμός “cálculo”) é um termo filosófico com o qual Aristoteles mais tarde designou a argumentação lógica perfeita, constituída de três proposições declarativas que se conectam de tal modo que a partir das duas primeiras, chamadas premissas, é possível deduzir uma conclusão.

O método de definição de Sócrates é uma contribuição real para a lógica da investigação filosófica, que inspirou o método dialético de Platão e exerceu uma influência profunda sobre a lógica de Aristoteles.

Quando ainda era jovem, Sócrates distinguiu-se nas batalha, distinguiu-se por seus atos de bravura. Sócrates exibiu um “daimon” (seu genuis ou demônio) – um sinal ou voz interior que emitia-lhe mensagens de proibição em períodos de dazes (sugestiva de epilepsia). A declaração de Pítia, Oráculo de Delfos sobre a sua sabedoria, levou Sócrates a concluir que esta era a afirmação que indicava que a sua suposta sabedoria era simplesmente o fato de que ele sabia que na realidade ele não era sábio. Daí a sua famosa frase: “ipse se nihil scire id unum sciat” (só sei que nada sei).

Sem dúvida que a maior demonstração do seu caráter foi em seu julgamento e morte. Socrates foi considerado condenado do crime de não reconhecer os deuses reconhecidos pelo Estado e de introduzir divindades novas; ele é ainda culpado de corromper a juventude. A punição pedida para seus crimes foi a morte. Mesmo diante do perigo eminente Sócrates recusou-se a deixar Atenas, pois poderia ter facilmente escapado. Mas a fuga era contrária aos seus princípios morais e seria uma injustiça para com o Estado, o qual tinha por seu pai, educador e doador da lei.

Um tribunal, constituído por 501 cidadãos, o condenou. Mas não a morte, pois sabiam que se o condenassem à morte, milhares de jovens iriam se revoltar. Condenaram-no a se exilar para sempre, ou a lhe ser cortada a língua, impossibilitando-o assim de ensinar aos demais. Caso se negasse, ele seria morto. Ao receber a sentença, Sócrates disse: “- Vocês me deixam a escolha entre duas coisas: uma que eu sei ser horrível, que é viver sem poder passar meus conhecimentos adiante. A outra, que eu não conheço, que é a morte … escolho pois o desconhecido!” E aqui temos mais uma de suas frases famosas, através da qual Sócrates disse: “Mas eis a hora de partir: eu para morte, vós para a vida. Quem de nós segue o melhor rumo ninguém o sabe, exceto os deuses.”

E para concluir este artigo cito Platão, que em seu livro Fédon, onde narrou a morte de Sócrates:

Depois de assim falar, levou a taça aos lábios e com toda a naturalidade, sem vacilar um nada, bebeu até à última gota.
Até esse momento, quase todos tínhamos conseguido reter as lágrimas; porém quando o vimos beber, e que havia bebido tudo, ninguém mais aguentou. Eu também não me contive: chorei à lágrima viva. Cobrindo a cabeça, lastimei o meu infortúnio; sim, não era por desgraça que eu chorava, mas a minha própria sorte, por ver de que espécie de amigo me veria privado. Critão levantou-se antes de mim, por não poder reter as lágrimas. Apolodoro, que desde o começo não havia parado de chorar, pôs se a urrar, comovendo seu pranto e lamentações até o íntimo todos os presentes, com exceção do próprio Sócrates.
– Que é isso, gente incompreensível? Perguntou. Mandei sair as mulheres, para evitar esses exageros. Sempre soube que só se deve morrer com palavras de bom agouro. Acalmai-vos! Sede homens!
Ouvindo-o falar dessa maneira, sentimo-nos envergonhados e paramos de chorar. E ele, sem deixar de andar, ao sentir as pernas pesadas, deitou-se de costas, como recomendara o homem do veneno. Este, a intervalos, apalpava-lhe os pés e as pernas. Depois, apertando com mais força os pés, perguntou se sentia alguma coisa. Respondeu que não. De seguida, sem deixar de comprimir-lhe a perna, do artelho para cima, mostrou-nos que começava a ficar frio e a enrijecer. Apalpando-o mais uma vez, declarou-nos que no momento em que aquilo chegasse ao coração, ele partiria. Já se lhe tinha esfriado quase todo o baixo-ventre, quando, descobrindo o rosto – pois o havia tapado antes – disse, e foram suas últimas palavras:
– Critão (exclamou ele), devemos um galo a Asclépio. Não te esqueças de saldar essa dívida!
“Assim farei!”, respondeu Critão. Vê se queres dizer mais alguma coisa. A essa pergunta, já não respondeu. Decorrido mais algum tempo, deu um estremeção. O homem o descobriu; tinha o olhar parado. Percebendo isso, Critão fechou-lhe os olhos e a boca.
Tal foi o fim do nosso amigo, Equécrates, do homem, podemos afirmá-lo, que entre todos os que nos foi dado conhecer, era o melhor e também o mais sábio e mais justo.”[5]

Prof. Doutor Luis Alexandre Ribeiro Branco
Twitter: @LuisARBranco

[1] Patricia Martins, Mini Manual de Literatura (Em Portuguese Do Brasil) (São Paulo: DCL, 2003).
[2] Idem.
[3] Ibidem.
[4] A E. Taylor, Socrates (Westport, Conn.: Hyperion Press, 1979), 34.
[5] O Desafio Socrático, por prof. Dr. Júlio C. R. de Vasconcelos.
[6] Platão, Diálogos. Volumen III: Fedón, Banquete, Fedro. Páginas 141-142. Biblioteca Clásica Gredos 93. Madrid: Editorial Gredos, 1986 (2004). ISBN 978-84-249-1036-5.

 

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