Um conto: Delícia Memorável

Posted on 14 de Janeiro de 2016

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20131219-235932.jpgQuando criança já era fascinado pela leitura, lia tudo o que podia. Na escola tinha uma pequena biblioteca, não devia ter mais que cento e cinquenta livros, mas amava passar o tempo ali com os livros.

Minha mãe foi empregada doméstica, trabalhou numa casa onde havia algumas crianças, não recordo-me de brincarem comigo, acredito que eram orgulhosos demais para isto. Sempre que possível procurava estar ao lado da minha mãe, acho que o patrão dela não gostava, eu deveria ter uns oito anos, lembro-me dele encaminhando-me para fora da cozinha e entregando-me uma vassoura nas mãos para varrer o quintal. Nunca me deu um centavo, de pão-duro que era! Sem poder ir ter com a minha mãe tentava sem jeito varrer aquele quintal. Lembro-me que o chão estava repleto de pêras que caiam das árvores. Com fome, juntava-me aos pássaros e comia uma ou outra pêra no jardim. Como já dizia Paulo Freire ao lembrar sua infância, “no Brasil e na roça não se morre de fome, há sempre uma fruteira por perto.”

Foi ali enquanto varria que encontrei uma porta que dava para o paraíso, uma cave sob a casa, com uma passagem estreita, mas que estava repleta de livros infantis. Ali, na discriminação dos ricos que encontrei meu oásis. Eram livros e mais livros de autores como Monteiro Lobato, Antoine de Saint-Exupéry, Hans Christian Andersen, Rubem Alves e tantos outros. Só de birra, larguei a vassoura e abriguei-me naquela cave onde passei horas e mais horas escondido com os livros. Uma delícia memorável!

Depois descobri que havia uma boa biblioteca na igreja onde cresci, devo ter lido quase todos os livros que ali existiam. E assim cresci, pobre, mas cercado de cultura. Quando completei quinze anos, minha mãe deu-me com muito sacrifício uma linda máquina de escrever Olivetti de cor verde, na qual passei horas e mais horas a escrever não lembro-me o que. Mas recordo-me de escrever cartas para embaixadas de países das personagens que lia nos livros, e quase sempre recebia uma resposta num grande envelope cheios de folhetos e livros sobre aquelas terras distantes.

Ficou a saudade da minha mãe, da cave com seus livros, da minha maquina de escrever, e claro, herdei um pouquinho de cultura.

por Luis A R Branco

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