Minha mãe, o médico e o porteiro

Posted on 11 de Dezembro de 2015

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IMG_0016Minha mãe faleceu há seis meses, a dor é aquela mais profunda, que apenas aqueles que já passaram por isto sabe como dói. Estes dias tive um sonho, sonhei que corria ao redor do seu túmulo como criança e gritava pelo seu nome durante um tempo que em meu sonho parecia uma eternidade, mas voz nenhuma ouvia, era apenas o silêncio do outro lado que dilacerava meu coração de menino com meus quase quarenta e dois anos de idade.

Quando entramos num hospital não encontramos apenas doentes, mas vidas à beira da morte, amores à beira da separação eterna, filhos à serem deixados órfãos ou pais à serem desfilhados. Em cada cama há uma história, história esta que deve ser respeitada. Não é apenas o corpo que merece o respeito e tratamento, mas também cada história que ali naquele hospital de desdobrará para a felicidade ou para a infelicidade da partida. O Código Penal Brasileiro contempla o crime de vilipêndio a cadáver no Art. 212. E vilipendiar cadáver ou suas cinzas pode render uma pena de 1 (um) a 3 (três) anos de detenção, e multa. No entanto nada fala sobre vilipendiar a história dos que vão morrendo. E é aqui que entra minha mãe, o médico e o porteiro.

Quando recebi a notícia de que a saúde da minha mãe ia mal, fui logo para o Brasil e desfrutei de quinze dias da sua companhia antes da sua morte. Ela ficou internada num hospital público, Hospital Municipal Nélson de Sá Earp. Neste hospital minha mãe sofreu algumas das suas últimas agonias, enquanto meus irmãos e eu tentávamos distraí-la do sofrimento e da morte que aproximava-se impiedosa.

Minha mãe sempre foi uma mulher alegre, brincalhona, conhecia todo mundo, amada pelos mais miseráveis como pelos mais ricos com quem conviveu durante toda a sua vida. Eu poderia contar horas e horas de histórias envolvendo minha mãe, mas meu propósito aqui é outro, é falar dela, do médico e do porteiro do hospital.

Logo que minha mãe entrou no hospital, fez amizade com as enfermeiras, alguns estagiários e com o porteiro. Dois dias depois o porteiro já lhe chamava de mãe, percebendo muito mais que os médicos sobre seu fim iminente, ou talvez, mais sensibilizado com seu sofrimento tornou-se quase um membro da família, e, graças a ele pude gastar todo o tempo do mundo com a minha mãe. Devido a sua simplicidade, acredito que o porteiro nem sequer saiba o que é vilipendiar, muito menos o que proponho nesta crónica, uma pena, pelo menos moral, contra o vilipendiar da história das pessoas no leito da morte.

O médico que cuidava da minha mãe era um jovem, rodeado de estagiarias e estagiários bonitos e obedientes, andava entre os leitos como se fosse um dançarino de uma ópera funesta, e que, com toda sinceridade, não demonstrava simpatia nem respeito por quem estava ali diante dele, doente e familiares. Será que alguma vez ele considerou a hipótese de que algumas daquelas pessoas, que podiam não saber nada de anatomia, biologia, química e outras coisas que os médicos estudam e que por vezes os deixam insensíveis, mas que eram mestres em muitas áreas da vida? Um dia fui conversar com o tal médico, precisava ver algo sobre a situação da minha mãe, os estagiários me disseram onde encontrá-lo, uma enfermeira guiou-me até onde ele estava, e claro, o porteiro abriu a porta. A estagiária que estava dentro convidou-me à entrar, tão logo entrei, o médico literalmente enxotou-me dali com uma brutalidade típica dos idiotas armados a espertos. Calado, sofrendo com meu vilipendiar histórico, saí da sala e aguardei Sua Alteza Real resolver sair e dirigir-se a mim. O porteiro, a enfermeira e os estagiários calados, sentiram comigo a dor, talvez já acostumada com aquela besta de bata branca e diploma na parede, mas não sabe o que é vilipendiar as emoções dos que morrem e dos que os perdem.

No final, gastou comigo cinco minutos e não disse nada que realmente ajudasse-me de alguma forma. Agora eu sofria com os coices da morte eminente da minha mãezinha e da besta de bata. Eu não o disse, guardar só para mim mesmo foi mais prazeroso, mas o médico, talvez julgando-me por minha calça jeans, tennis, camiseta e por usar um hospital público considerou-me mais um entre as suas vítimas de vilipêndio, e de fato não era em nada melhor do que os que ali sofriam. Mas com certeza que ele nunca imaginou que com a sua idade, entre vinte e cinco e trinta anos de idade, eu já havia dado a volta ao mundo, conhecia de perto tanto os países mais pobres do mundo, como os mais ricos. Não deve ter passado por sua cabeça que eu possuía dois doutorados e quase quarenta livros publicados. Não passou-lhe pela cabeça a possibilidade de estar junto de um poeta, um ministro religioso ou um membro de várias academias e associações de intelectuais. Certamente que ele não imaginava que dias antes de entrar na sua sala, desfrutei de um delicioso vinho do Porto na humilde companhia de um duque, um conde, um marquês e outros intelectuais. Naquela hora eu era apenas mais um parente chato a perturbar a sua dança magistral. Minha mãe morreu sem saber quase nada destas coisas que envolvem a minha vida, para o porteiro eu era apenas mais um sofredor que precisava de um pouquinho mais de flexibilidade no ir e vir e também nada soube sobre mim, nem os estagiários, nem o médico. Não sei da sua história, que se calhar é mais interessante que a minha, mas para mim ele foi apenas um parvo, que cheio de si mesmo vilipendiou minhas últimas memórias com a minha querida mãezinha.

por Luis A R Branco

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