Entrevista com o Economista Antônio Figueiredo

Já há algum tempo que tenho sido um seguidor e um leitor assíduo do economista Antônio Figueiredo. Seus textos levam o leitor a refletir sobre os assuntos de forma indutiva e em diferentes perspectivas. É uma honra poder publicar esta entrevista e tenho certeza que ela será de grande valia para aqueles que a lerem.

Prof. Dr. Luis A R Branco

Como economista, como é viver e trabalhar num país que trocou a sua moeda oito vezes desde 1942? É possível com tantas mudanças alcançar o equilíbrio financeiro? Por que tantas mudanças? Será que uma nova moeda poderia salvar o Brasil da crise?

Todas alterações anteriores, simplesmente cortaram “três zeros”, ou seja o valor foi dividido por mil e isto ocorria para evitar se ter bilhetes de dinheiro de valores muito altos, como na Itália por exemplo. Apenas no PLANO REAL que se adotou a fator de conversão da URV da velha moeda (Cruzeiro) para a nova moeda (Real), (Cr$ 2.750,00 = R$ 1,00, na prática 1 REAL = 1 US$) e isso quebrou todas as referências. Para vc ter uma ideia toda minha contribuição previdenciária anterior a Junho 1994, (20 anos e em média sobre 20 Salários Mínimos) foi desprezada e recentemente só me aposentei baseado nas contribuições posteriores de 1 Salário Mínimo. O maior problema dessas mudanças monetárias foi a “quebra da segurança jurídica” com a criação de uma quantidade de “moedas podres” (títulos emitidos nas antigas moedas). Não creio seja necessária uma mudança monetária, pois o Real passada esta “crise” voltará a emparelhar-se competitivamente

O Brasil tem uma economia maior do que a de alguns países da América do Sul, no entanto, o reflexo do tamanho da economia brasileira não se reflete em mudanças sociais significativas, como observamos, por exemplo, no Chile e Uruguai, que mesmo menores, possuem uma condição social e um IDH acima da atual condição social brasileira. Qual é o problema do Brasil neste aspecto?

O Brasil tem a maior economia de toda a América Latina e chegou a ser o 7ª maior PIB do mundo. Contudo a área do seu território também corresponde à área de todos os restantes países latino-americanos. O problema do IDH no Brasil está muito mais concentrado no fracasso em determinar um modelo econômico de crescimento sustentado harmônico entre suas diferentes regiões. O Assistencialismo tem sido uma causa importante, pois em vez de oferecer emprego, renda, educação e saúde acabou por privilegiar “programas de renda mínima”, o que não traz progresso. Apenas minimiza a miséria, que com a inflação atual praticamente cresce novamente, anulando todos os ditos “ganhos sociais” dos últimos 10 anos.

Quando ouvimos falar dos vários casos de corrupção no Brasil, envolvendo quantias absurdas de dinheiro, num país ainda pobre como o Brasil, que ocupa o 74° lugar no IDH da ONU, é possível haver tanto dinheiro assim no Brasil? Se sim, qual a dificuldade em combater a corrupção e elevar o IDH do país?

Já dizia Caminha em sua Carta do Descobrimento, na qual já pedia uma “boquinha” para um parente seu ao Rei Dom Manuel: “Em se plantando tudo dá”. Além disso a riqueza mineral e do solo, que fará com que o Brasil num futuro próximo supere os USA como produtor de alimentos, é efetivamente muito grande e a atividade econômica, como disse a 7ª do mundo, provê essa quantidade de fluxo financeiro. Mas o que tem assustado muito é que o Governo tem “sacado sobre o futuro” o endividamento cresceu 100% nos últimos 13 anos.

Infelizmente a corrupção deve-se à “formação política histórica” do Brasil baseada no “patrimonialismo” e nas “velhas associações oligárquicas do capital com as da política” desde os tempos coloniais. Essa é a razão da nossa batalha pelo Voto Distrital, que mudaria o sistema de representação. Na realidade se reduzida a corrupção a “níveis controlados” como nas sociedades mais evoluídas, certamente o benefício às classes mais desprotegidas redundaria em melhoria dos indicadores de emprego, saúde, educação, transporte e segurança pública.

A impressão que temos aqui do exterior é que a sociedade brasileira está dividida ou perdida (dispersa) ante a tantos escândalos, como intelectual, como você descreveria a real posição da sociedade brasileira?

Na realidade a sociedade brasileira sempre foi da filosofia de “ver a banda passar”. Não tivemos que lutar por nossa Independência, que foi um acordo de “pai e filho”. (Antes que algum aventureiro lance mão dela, toma a coroa para ti, Pedro, disse Dom João VI na escada do navio antes de voltar a Portugal). Não lutamos pela República. A esperança e a sociedade vem dando crescente demonstração de insatisfação e desejo de mudança, é que “lutemos agora contra a roubalheira”.

Há alguns dias você e eu conversávamos sobre o impacto da economia norte-americana no Brasil e no mundo, como você avalia este impacto e o que podemos esperar pela frente?

O Governo Lula infelizmente optou por outras alianças políticas do que a ALCA ou um Acordo com a Zona do Euro e mais recentemente com o Acordo do Pacífico. O Brasil terá de rever tudo isso e voltar a participar dos grandes acordos de comércio nos quais os USA, ainda que sejam 25% do Mercado Consumidor Mundial, não são mais o mesmo de 4 décadas atrás, assim como a própria Europa e China. A globalização veio para mudar muita coisa e beneficiar quem tiver melhor “jogo de cintura” para enfrentar esses novíssimos desafios.

Infelizmente a Dívida Externa Americana é um “garrote” para o livre fluxo financeiro nos mercados de todo o mundo e a sociedade americana terá que abrir mão do “desperdício”, para que todo o mundo tenha chance de participar de um “welfare state” mundial.

Como você avalia todas estas denúncias, investigações, julgamento e condenações envolvendo o PT? Será que o PT sobreviverá a tudo isto?

Bem, é mais que notório que tudo isso é parte de um “projeto de poder” do PT. Mas sempre disse que o PT duraria exatamente o que duraram outros partidos no Brasil, que são 30 anos. Isso porque partidos no Brasil se organizam em redor de pessoas e estas tem o “mal hábito de morrer” e com isso morrem os partidos. Foi assim com Getúlio Vargas, Jânio Quadros e agora Luiz Inácio Lula da Silva, (que ainda não morreu, mas está politicamente sepultado pelos últimos acontecimentos).

Creio que o Brasil está encerrando a “fase do populismo” e a razão como se diz: é a Economia, estúpido.

AiOjG5dFAntônio Figueiredo, Economista, Ex Líder Estudantil anos 70, Especialista em Comércio Internacional e Logística, Cronista e Escritor.
Clique aqui e conheça mais sobre Antônio Figueiredo.
Siga no Twitter: @ToniFigo1945

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