Uma história surpreendente de uma família devastada por um banco brasileiro

Posted on 9 de Novembro de 2015

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Nunca fomos milionários. Nem exatamente ricos. No máximo, uma classe média bem-sucedida quando isso era uma possibilidade em nosso país.

Mesmo assim, quando abri minha primeira conta bancaria no Banco do Brasil, que era o banco onde a empresa do meu pai tinha conta, fui muitíssimo bem recebida.

Lembro que ganhei de cara um talão de cheque “ouro”, um limite de conta-corrente bem bacana e pelo menos, dois bons cartões de crédito. Eu tinha recém-saído da faculdade, e tudo isso era mais do que eu merecia e precisava.

Com o tempo, nossa empresa foi crescendo e fomos nos envolvendo mais e mais com o banco. Acho que chegamos a ter quase todos os produtos que um banco oferece: previdência privada, poupança, seguros de vida, de automóveis e de casa, títulos de capitalização, e etc..

Não precisava deixar meus metais na entrada, não precisa tirar uma senha ou ficar em uma fila para ser atendida. Sabia de cor o conteúdo do frigobar do gerente e podia usufruí-lo se quisesse. Ganhava também entradas para shows e peças patrocinadas pelo banco e era convidada para confraternizações de final de ano e datas especiais.

Infelizmente, naquela época, não imaginava que este procedimento não fosse o padrão e o natural para todos. Sabia que era bem tratada mas não imaginava o quanto as demais pessoas, não eram.

Cerca de uns vinte anos depois, nossa empresa sofreu um inesperado golpe de mercado e de um dia para outro, perdemos 50% do nosso faturamento.

Precisamos cortar gastos, dispensar e indenizar pelo menos 7 pessoas e, reestruturar tudo.

Nossa maior preocupação era que tínhamos comprado tantos produtos do banco justamente porque o banco também tinha nos emprestado muito dinheiro. Aliás, isso é o que se chama de “venda casada” e é incentivada pelo banco como uma estratégia normal de vendas: se você precisa de um giro rápido, compra um título de capitalização, ou qual for a meta do teu gerente naquele mês, ele (a) autoriza o empréstimo na hora e todo o mundo fica feliz.

Talvez eu possa atribuir esta atitude à juventude, à inexperiência e à ideia de que o que acontece com os outros, nunca acontece conosco mas hoje, prefiro chamar friamente de burrice.

Eu nunca “ganhei” nada do banco. Nem eu e nem ninguém.

Bastante abalada com a perda de faturamento e a necessidade de reestruturação, procurei minha gerente, com toda a documentação pertinente, e insisti para que fizéssemos uma renegociação do valor emprestado, pois dali para frente, minha prioridade seria sobrevivência e as parcelas estavam muito altas para meu novo padrão.

Cobri os limites de conta e pedi que fossem cortados a fim de não gerar novas dívidas com juros altos, mas sobretudo, pedi uma orientação pessoal e particular à ela, que eu considerava uma mentora financeira.

Ela não fez nada do que pedi e ainda usou gasolina para apagar o incêndio.

Graças à sua orientação, não apenas eu, pessoa física e jurídica, mas toda a minha família, perdemos todo e qualquer valor que mantínhamos em reservas no banco e conseguimos apenas aumentar a dívida a patamares nunca imaginados, perniciosos, injustos e, consequentemente impagáveis.

A partir de então, eu também precisei ficar nua antes de passar pela porta giratória. Pegar senhas, enfrentar filas.

Cafezinho? Nem pensar!

Nunca mais fui convidada para nada e nem teria um calendário do banco em cima da minha mesa.

Isso não me faria falta, são apenas mimos.

O que faz falta é o respeito, a educação, a atenção que se deixa de ter – o mínimo que qualquer cidadão deve ter.

Deste momento em diante, minha gerente sempre estava convenientemente trabalhando em outro setor e quem me atendia, não sabia sequer o meu nome.

Eu não era mais merecedora de um sorriso.

Quem me conhecia, fazia de conta que não me via na fila do caixa e virava o rosto para não precisar cumprimentar.

Eu estava com uma doença contagiosa que ninguém queria pegar: tinha perdido dinheiro.

Quando você perde dinheiro, você perde muitas outras coisas, principalmente, pessoas.

Evidentemente, gente que não vale muito a pena, mas, mesmo assim, é dolorido.

A decepção de não ter com quem contar ou de ter contado com quem nunca se preocupou em te ajudar, é grande.

Então, eu aprendi que:

O gerente do banco trabalha para o banco – não para você! E que isso fique claro.

Propagandas que dizem “o seu” gerente deveriam ser processadas pelo Procon como enganosas. Ninguém tem um gerente dentro do banco; o banco tem gerentes para atender o público e fazer com que o banco fique cada vez mais rico e lucrativo.

O negócio de um banco é dinheiro, não pessoas.

Tua vida não importa nem um pouco para o gerente do banco ou qualquer outro funcionário lá dentro. Eles não lembram de você e nem se preocupam com os teus problemas, afinal, cada um tem os seus.

Teu gerente não é pago para te dar bons conselhos e jamais vai fazê-lo de graça.

O gerente do banco não é e jamais será teu amigo. Sequer teu conhecido.

Acredito que ele não o queira mal mas também não está nem um pouco preocupado se você está bem.

Dentro do sistema bancário, você é um número e quanto maior for este número convertido em valores monetários, melhor você é.

Mas o mais preocupante e que este modus operandi não é exclusivo dos bancos.

Encontra-se este tipo de tratamento em escolas, em hospitais, nas ruas, nas lojas, em restaurantes …

E correndo o risco de cometer um erro linguagem, diria que precisamos humanizar não somente os bancos:

Precisamos humanizar os humanos.

j9VdLKLb_400x400por Carla Jansson
Leitora, Ghost Writer dos amigos, Escritora nas horas de inspiração. Exagerada pela própria natureza.

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