É preciso humanizar os bancos

  
Depois de quatro anos sem ir ao Brasil, resolvi atualizar alguns documentos e coisas do tipo. Assim dirigi-me à “minha” agência bancária no @Bradesco. Na verdade, antes de lá chegar, assustei-me já no aeroporto do Rio de Janeiro, quando procurei um caixa automático para tirar uns trocados e descobri que cada cartão é feito exclusivamente para um determinado banco, ou seja, encontrei uma fila grande de caixas automáticos, cada um de um banco diferente, um ao lado do outro. Como o cartão que usaria era de Portugal, fui passando de máquina em máquina até uma aceitar o meu, foi no caixa do @HSBC.

Depois de passar pelo corredor polonês, aliás, pelo corredor dos carregadores de malas e taxistas que queriam a qualquer custo comprar ou vender dólares e euros para mim,  finalmente segui para a casa dos meus sogros. Um dia ouvi falar que o Brasil tem um dos sistemas bancários mais avançados do mundo. Como é que é? Comparado com qual país, Myanmar? Na Europa não importa qual seja o seu banco, pode tirar dinheiro, pegar saldos, mudar senhas, transferir dinheiro, pedir folhas de cheque e mais uma variedade de serviços,  em qualquer caixa automático. 

Uns dias depois dirigi-me a mencionada agência bancária. Já de início quase que nem conseguia passar pela porta, aquelas giratórias, em cada tentativa, frustrado, ia entregando meus pertences ao guarda mal-encarado do outro lado dos vidros blindados. Deixei as chaves, moedas, relógio, telefone, cinto e a maldita porta ainda emperrava. O guarda então gritou: “Passa com calma meu senhor!” Com calma? Como, se quase me despiram? Mais um pouquinho já pareceria uma visita anual ao médico de família para um check-up. Estas portas são um verdadeiro purgatório! Como protestante, não acreditava em purgatório, até ir ao @Bradesco.

Depois de entrar, comecei a pegar minhas coisas, o constrangimento era grande, não estou acostumado com isto. É humilhante! 

Depois de entrar é a hora de tentar entender para onde devo dirigir-me, há caixas para clientes de diferentes categorias, como não ia ao banco há quatro anos, procurei a fila dos intocáveis, mas nem para lá servi. Disseram-me com uma indelicadeza impressionante, a mesma com a qual lidam com as nota-se moedas: “O senhor não tem gerente de conta. Tem que esperar algum livre para lhe atender.” A espera foi longa, num verdadeiro limbo. Mais uma vez minha crença foi confrontada, não é que limbo existe?! Sim, pelo menos no @Bradesco! 

Depois de uma longa espera, finalmente um dos gerentes me chamou. Como era uma mulher, pensei que a gentileza seria algo natural, mais um dolo engano, desta vez do poeta. Quem disse que toda mulher é uma flor nunca teve uma conta bancária na mesma agência que eu! A mulher parecia o Capitão Nascimento do filme Tropa de Elite, para ser sincero nem sei se ela me olhou nos olhos. As perguntas eram ríspidas e com desconfiança. Mesmo pagando aproximadamente R$750,00 por ano em anuidades, mensalidades e tarifas por pouco ou nenhum benefício. Não uso cheques, movimento a conta praticamente toda via internet, com um cartão de crédito, que para além de feio, tinha (pois cancelei) o limite de apenas R$140,00. Na verdade saí dali sem praticamente resolver coisa alguma do que esperava. Só para alterar o endereço passei por este suplico três vezes. A mulher de ferro por trás da mesa só faltou dizer-me: “– Pede pra sair! Pede pra sair!” 

Sem tempo e ânimo para procurar uma alternativa para substituir o @Bradesco, voltei para a Europa frustrado e indignado com um sistema para o qual somos apenas uma sequência de algarismos e o nosso valor pessoal está na cifra encontrada em nossa conta. Já reparou que a primeira coisa que lhe perguntam num banco é: “Qual é o número da sua conta?” E, ao invés de olhar em nossos olhos e tentar compreender o que de fato buscamos, de olho na cifra do computador, deixam com que os números conduzam a tonalidade da voz, a atenção e gentileza. No meu caso, poeta pobre, fui subjetivamente mandado para o inferno, sem que nada se resolvesse, aliás, na terceira tentativa consegui mudar o endereço. 

Acho que todo gerente de banco deve ter a alma doente. Deveriam ler mais poesias, irem ao teatro, tomar um banho frio numa cachoeira, visitar uma casa funerária de vez em quando, tudo com o objetivo de humanizarem-se. São máquinas travestidas de gente, falam, ouvem, olham, mas não sentem. Eu prefiro ser ascensorista de elevador do que gerente de banco. O ascensorista é humano, gentil, disposto a uma boa conversa, é gente. 

Sei que este problema não acontece apenas no @Bradesco, mas em quase todos os bancos no Brasil. Em Portugal, não que queremos parecer melhores, mas nossos bancos têm mais vida, alguns nem porta possuem, guardas praticamente nenhum, e muitas vezes espero pacientemente enquanto o caixa atualiza a conversa banal com o idoso que foi receber a aposentadoria e é tratado pelo nome: “É então Sr. Manuel, como vão as coisas, a esposa já está melhor?” Documentos? O banco vem buscar em nossa casa ou escritório. É sem dúvida um sistema mais humano!

Voltarei ao Brasil em breve, mas estou decidido a não por meus pés nestes inferninhos.

por Luis A R Branco

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8 pensamentos sobre “É preciso humanizar os bancos

  1. E se não encerrar a conta adquirirá uma monstruosa dívida sem precedentes para a consciência humana. Por quê? Porque deveria ter encerrado a conta e não deixá-la desativada jamais.

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