Com a internet: diminuição trágica de informações

Posted on 6 de Novembro de 2015

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Extraído do Google Imagens

por Nelson Valente

O cerne da questão está no fato de que o volume de informação não garante a qualidade. Por outro lado, a fragilidade da notícia pode ocorrer também por determinação da linha editorial da empresa jornalística ou por deficiência na formação do jornalista, que não consegue articular o processo de produção da notícia e suas implicações no cenário político nacional ou internacional.

A fragmentação da informação termina, então, por comprometer a notícia, dificultando a compreensão e a percepção crítica dos leitores, ou melhor, da opinião pública.

No mundo midiático, digital, instantâneo, a informação é cada vez mais estilizada, pasteurizada, e os fatos recortados da realidade sem nexo, sem contexto, sem passado, sem história, sem memória, numa destruição clara da temporalidade, como se o mundo fosse um eterno videoclipe. Dessa forma, mais confunde do que esclarece e mais deforma do que forma.

Com o uso da internet, o volume de informação dificulta a compreensão num mundo caleidoscópico, que se apresenta em forma de mosaico sem nexo, que vive transfigurando e refigurando o espetáculo da vida como se o confundisse com um reality show.

Com a internet não temos mais informações, e sim menos. Em megalivrarias localizadas em shopping centers tem-se menos informação do que numa pequena livraria nas imediações da USP. Temos menos informação depois que a televisão multiplicou o número de canais. E quando peço na internet uma bibliografia e recebo uma lista com 10 mil títulos e não tenho nenhum ganho de informação com isso. Com a internet, temos uma diminuição trágica de informações. Corremos o risco de nos tornar autodidatas.

O autodidata é aquele que absorve uma enorme quantidade de informações, muito mais certamente do que um professor universitário, mas não sabe filtrá-las. A memória é um mecanismo que permite não somente conservar, mas também filtrar. Caso contrário, seríamos com Funes, el Memorioso, o personagem de Jorge Luis Borges que se lembrava de todas as folhas que havia visto durante 30 anos e ficou louco.

No ano passado fui a Blumenau (SC). Passei muito tempo dentro de táxis, mas só me lembro de um deles: o que tentou me roubar. Minha memória, felizmente, fez uma seleção, ou ficaria com a cabeça cheia de motoristas blumenauenses.

Com o uso da internet, o volume de informação dificulta a compreensão num mundo caleidoscópico, que se apresenta em forma de mosaico sem nexo, que vive transfigurando e refigurando o espetáculo da vida como se o confundisse com um reality show. Se deixarmos de ser “zumbis” culturais e aprendermos a ler o mundo, enquanto linguagem, aprenderemos a pesquisar, aprenderemos a aprender o essencial no mundo moderno.

As mudanças impulsionadas pelas novas tecnologias digitais colocaram na tela da TV e na internet a informação massificada, onde está tudo disponível, de fácil acesso, condensado, daí a dúvida: será o fim do livro? As pessoas vão deixar de ler? Apesar de tudo isso, a escrita triunfou, e voltamos à civilização da escrita.

O computador teria obrigado McLuhan a reescrever A galáxia de Gutenberg. Vivemos incontestavelmente o retorno da escrita. Nas nossas telas lemos os textos que imprimimos. Nunca se publicaram tantos livros, construíram catedrais aos livros, como essas imensas livrarias. Portanto, quando eu ouço os escritores dizerem que o livro está prestes a desaparecer não consigo me conformar com tamanha má-fé.

Sempre construímos a imagem do amanhã pensando no estudante da periferia. Hoje, o modelo é o internauta obcecado que se pluga e não lê mais? Isso não se aplica à maior parte das pessoas. A resposta é não. A leitura, com o tempo e a prática vira êxtase, é semelhante a um transe. Ler é participar de uma das mais extraordinárias invenções e revoluções tecnológicas de todos os tempos, que são os sistemas de escrita. Nós não teríamos a Internet hoje, sem os códigos da escrita.
Na leitura crítica da mídia, a linguagem, constituída a partir de um “mundo” editado, passa por inúmeros “filtros” – pela observação dos fatos e pelo relato da declaração do outro – na construção da notícia. É preciso ficar atento à ideologia presente em cada fala, porque todo discurso é ideológico e reflete a realidade que a retrata.

Estes são alguns dos elementos responsáveis pelo fascínio exercido pela rede mundial de computadores – a Internet. Entretanto ela não está isolada, mas faz parte de um conjunto de outras mídias já consolidadas como o rádio, a TV, o cinema e todas as formas impressas, que continuam a exercer o seu papel como fontes importantes de informações, que devem ser consideradas. Obviamente, grandes benefícios são trazidos à humanidade pela facilidade de acesso à informação.

Há menos de duas décadas, as crianças e jovens tinham um acesso limitado às informações e os pais podiam, de algum modo, selecionar aquelas que possuíam um conteúdo condizente com cada idade e capacidade de compreensão, direcionando os interesses para boas fontes como livros clássicos da literatura infantil, bons filmes,etc.
As tecnologias atuais, em particular a Internet, mudaram toda essa perspectiva. O acesso a Internet dissemina-se aceleradamente e hoje a maioria das crianças e jovens, mesmo aquelas de classe menos favorecidas, conseguem ter contato com ela. Se não possui um computador em casa, a escola disponibiliza ou um amigo tem. E quando a telinha do computador se abre, o portal do mundo está aberto. Entretanto, permeando tais informações, há uma grande quantidade de “lixo informacional” invadindo nossos lares todos os dias. O cerne da questão está no fato de que o volume de informação não garante a qualidade.

Na leitura crítica da mídia, a linguagem, constituída a partir de um “mundo” editado, passa por inúmeros “filtros” pela observação dos fatos e pelo relato da declaração do outro na construção da notícia.
É preciso ficar atento à ideologia presente em cada fala, porque todo discurso é ideológico e reflete a realidade que a retrata. Embora o discurso jornalístico pretenda descrever o real, não existe neutralidade na informação, que passa pela óptica do redator. O ponto de partida é compreender que, na mídia, o fato relatado é uma versão do fato observado e também um recorte da frágil e distorcida realidade.

O grande desafio das faculdades de Jornalismo é persuadir o estudante a aprender a pensar, e não repetir mecanicamente a informação apreendida, optando pela informação discutida, contextualizada, repensada, reelaborada, reconstruída na produção do conhecimento dentro e fora da sala de aula, fazendo sua própria história.
No imaginário popular, o que importa é como a mídia descreve, que interpreta, fotografa e divulga o mundo. Se não saiu na mídia não aconteceu. A mídia pauta o mundo e forma ou deforma mentalidades.

nelsonvalente

Dr. Nelson Valente é jornalista, professor universitário e escritor. Pesquisador nas áreas de psicanálise, comunicação, educação e semiótica. É mestre em Comunicação e Mercado e doutor em Comunicação e Artes. O autor também é especialista em Legislação Educacional, Psicanálise,Teoria da Comunicação e Tecnologia Educacional e já publicou 23 livros sobre o ex-presidente Jânio Quadros e outros sobre educação, parapsicologia, psicanálise e semiótica, no total de 88 livros e alguns no prelo. Ex-presidente da Academia Blumenauense de Letras/ALB, Acadêmico. Membro da Sociedade dos Escritores de Blumenau/SEB.

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