Santo Pecado – Texto dos Doutores Nelson Valente e Luis A R Branco

Posted on 31 de Outubro de 2015

4


Assault-in-the-Convent1-694x1024Abafados pelos escândalos políticos, pelo abalo da economia mundial e cumplicidade da própria igreja, os milhares de escândalos de pedofilia e abusos sexuais que ocorreram dentro das igrejas ou por líderes religiosos praticamente desapareceram. Uma vez ou outra ouvimos relatos superficiais sobre a rigidez do atual Papa sobre o tema, mas na verdade a maioria dos perpetradores deste crime seguem suas vidas normalmente e sob o amparo das instituições religiosas. Não irei aqui atirar pedras apenas sobre os telhados da Igreja Romana, mas como protestante, devo reconhecer que o mesmo acontece em nossa igrejas, mas de alguma forma são abafados por nossas lideranças. Há poucos dias foi divulgado no telejornal da TVI24 no Jornal da Tarde uma longa e profunda reportagem sobre os Testemunhas de Jeová e seus abusos. Na reportagem foram apresentados documentos reservados aos anciões deste grupo religioso, onde são instruídos a NUNCA denunciarem às autoridades qualquer tipo de coisas deste género, sob a pena de irem para o inferno e serem expulsos do grupo. Comecei este texto pensando em apresentar uma estatística sobre os abusos sexuais que ocorrem dentro de locais de culto ou por líderes religiosos, mas fui convencido pela belíssima crônica do Dr. Nelson Valente a não destanizar estes eventos tornando-os em meras estatísticas, mas pensar em cada vítima e compactuar com as suas dores. Segue abaixo a crónica do amigo Nelson Valente:

SANTO PECADO

(*)Nelson Valente

Noite fria e chuvosa. O vento é suave como a brisa a entoar nas ramagens e nas frinchas das venezianas, a canção da tristeza e da saudade. É a mística sinfonia da natureza.
A igreja imponente no alto da colina, iluminada pelos relâmpagos, proporcionando lascas e aços espelhados no horizonte sem fim. Dentro da igreja, a amargura: um estupro.
Alguns anos depois…
Amanhece…aí pelas onze, bateu à porta do seminário um rapaz que há tempos andava à cata de emprego. Como não era hábito abrir-se a porta a qualquer, Frei Bonifácio olhou pelo buraquinho. Disse que queria falar ao Diretor (sabia lá o nome do cargo ?) e foi levado à presença do dito cujo, com visível satisfação. Aquele, de comovida aparência, deixou-se beijar os cordões e declarou que realmente lá precisavam de alguém. Na cozinha pelo menos Napoleão, o cozinheiro chefe, queixava-se há bocado do excesso de trabalho.
Indagado, como era praxe, sobre a sua origem, etc…e tal, soube-se que era de parcos recursos, filho mãe solteira, que embora com ela não vivesse, andava saudoso e muito. Como soubera do emprego questionaram, mas a inocência das respostas nada tirou nem acrescentou.
Dia seguinte lá estavam de emprego novo. Feliz, Evandro, nome sonoro, a cara não era de todo má. E Ademias os ares santos do lugar poderiam toma-lo melhor. Tiritando de frio (era inverno grosso), espaventou-se seminário adentro, deixando a vida a correr atrás de si, lá fora, assim que o frade o mandara entrar.
Frequentemente dado a introspecções, não sabia bem porque sua alma, sentia-a dilacerada de uns tempos para cá. Trocava-se as bolas, mal silabava o Pai-Nosso à noitinha arrumava pretextos, dissimulava (será isso ódio? Amor?). Não sabe nem quer saber. Quase nem percebe o blém-blém do sino que o desperta.Ouve uma voz suave tem ciúmes da paz. Era tudo o que esperava. Podia ter ido para outro lugar, mas aquele, não se sabe bem porque, fora o mais indicado.
Uma voz chama-o com êxtase sobe ao patamar, confiando o frade um sorriso empalidecido e ensaia algumas palavras. O que consegue é um bom dia sufocado.
Atravessam os claustros, o céu baixo e cinzento, procura abrigar-se na blusa desgastada que a mãe lhe tecera. Torce-se dentro dela, como os caracóis quando amolados. Alguém desce as escadas do primeiro andar. Sente um frio no cangote, mas o clima cheira a santidade e isto o fortifica. Ademais, a limpeza, o rafiné, o todo no lugar, a resina dos pinheiros excitam-no mais e mais. Tenta outras excitações, mas não resiste à curiosidade de, por instantes, esticar as pestanas até uma janelinha indiscreta que rasga seu esperar uma parede amarelecida.
Mexe com botões e os enche de perguntas, tirando-os e recolocando-os nas casas, e continua a seguir o Frei Bonifácio, que bochechudo mais parece uma moranga madura. Bate uma saudade da horta da mãe.
Na sua dispersão, perdera até o frio, aquecera-se mais, com satisfação observa que chegaram. Entram na cozinha e então, rompendo-lhes as inibições e numa simplicidade familiar, sorri ao cozinheiro chefe.
Ele, os olhos estatelados, corresponde – “Anda, ajudar! A gente precisa se entender. Tem muita coisa pra você já ir fazendo”, disse-lhe Napoleão.
Há qualquer coisa nele de forte que satisfaz Evandro. Fica ali como se protegido, de repente, e cinco minutos depois já descasca os inhames para a sopa.
-Que é que trouxe aqui?
-“A vontade de trabalhar. Talvez o fascínio de um lugar como este. Não sei porque, mas conventos e padres sempre me atraíram. Invejo os frades, sua cara de alienados, sempre de bem com a vida, podem exigir se quiserem o que quiseram, em nome de uma absolvição. Podem ‘beber e comer como abades’ (rindo-se), e não precisam invejar nada o que está lá fora, não acha?
Não é bem assim, creio eu, às vezes, levantam com cabelo repartido do lado errado e de ovo virado. Riram-se os dois e continuaram os afazeres.
Lavada a louça, Evandro perguntou a que horas costumavam jantar os frades. Que às seis, e que hoje, além da sopa, comeriam filé de pescada e medalhão. O rapaz franziu o nariz.
O certo é que a fradaria, aos poucos, já exauria as potencialidades do novo habitante, que afinal tinha vinte e um anos e já trouxera um pouco mais de agitação para o lugar. Ele, por sua vez, não ousava ser inconveniente. Introduzia-se na intimidade do seminário, ora a ensaiar alguma observação mais ousada, ora a arriscar uma gargalhada.
Logo de manhã levava um cafezinho com licor ao Frei Bernardo, o manda chuva, como o chamava; afinal não se trata de convento mendicante! Sobrava lá o que faltava cá fora!
Percebia que ra bem recebido, mas importante não deixar a prudência. Afinal certos atrevimentos se expressos de forma correta, pensava ele, passam a ser lisonja. Por isso, sempre que possível engolia a língua para não vomitar mais asneiras. Talvez o excesso de zelo o reprimisse um pouco, mas antes assim.
Já há vinte dias que lá se encontrava e pela primeira vez fora advertido pelo Frei Teodósio, por ter deixado cair o galheteiro. Como às vezes é necessário que se retraiam emoções faciais, contraiu-se também por dentro e calou-se. Calou-se com cara apoplética, o que provocou risos de outros padres. Percebeu que estava perdoado. Não resistiu também e viu que já se contaminava com aquela frase que diz “padre ri a toa”.
Não que o galheteiro engrossasse as dificuldades do seminário, mas assim que pudesse compraria um outro para substituir o quebrado. Além do mais, pensava Evandro, talvez há muito tempo os habitantes da santidade não tiveram sentido alguma diferença entre o quebrar ou não o galheteiros, uma vez que isso não implicasse ter a barriga agarrada às costas por pança vazia!
Levantaram-se após as orações e, breve aviso de procissão da penitência. Foi nessa procissão que Evandro teve, que indesejavelmente, castigar-se com um jejum obrigatório. O que até agora era cor-de-rosa passou a ser bege.
“-Afinal, nem sempre o semáfaro tem a cor que a gente quer!”, pensou.
Achava demais ter de beber óleo de rícino. De madrugada aproveitou-se do trabalho que seus intestinos lhe deram para arriscar uma visita até a adega – “Imunda! Não via limpeza, sabe-se lá desde quando”. Entrou ingênuo e saiu aguçado. O vinho fazia um efeito celestial! Dormiu como um anjo e sonhou com prazeres da carne. – “Aí que saudade da Ditinha”.Mas seus humores faziam cócegas na hora da procissão. Não entendia nada daquele aparato todo, o que lhe provocava pensamentos estupidamente hereges. Não que fosse rebelde.Mas se dessem por isso, seria certamente castigado por Deus e pelos homens. Deduzia que fosse um dos grandes penitentes, pois fora colocado na cabeça da procissão; mas sentiu-se importante, porque ali ia o regimento principal e todos almejavam a mesma coisa: a salvação das almas. Ele, mais que ninguém! -“Que fedor! É mal daqueles que têm a alma perfumada demais”.
Viu-se interrompido nas conjeturas, quando uma voz apocalíptica mandou que rezasse o “mea culpa, mea culpa, mea máxima culpa”. Todos se ajoelharam. Evandro abalou-se. A mãe ensinara-lhe a rezar a tal oração quando ia pra cama. Dizia que se a gente morresse dormindo, já morria perdoado. Achou que tinha chegado a sua hora. Quase chorou de susto. Não compreendia bem a liturgia, lembrava-se pouco.
Só percebeu que luzia na mão de um dos frades algo redondo e lindo. Era a custódia. Olhou para aquilo e sentiu-se levitar. Quase entrou em alfa como um bocó e quase delirou. Acordou com uma mão cabeluda sacudindo-lhe a cabeça – o “show” terminara, finalmente. Pediu rápido licença para se retirar. A fraqueza atravessava-lhe os ossos, pelo jejum, e tinha vontade de dormir. O corpo exangue e flácido escorregava das bases. Sombras e manchas azuis, verdes, amarelas, quase extintas. Amava aquele lugar. As pálpebras pesadas imploravam por descanso e o céu de chumbo lá fora apagava-se mais uma vez. Olhou para o Cristo na parede e só viu a metade.
Acordou com um torpor inexplicável. Um latinório ouviu-se ao longe. Ruído de paramentos, pigarros do frade mais velho – “Esse já está com um pé na cova e outro na casca de banana”.Uma lufada de vento o entristeceu voluptuosamente. A própria carne estaca e friorenta. Lembrou-se do pacto. Não podia esquecer-se da mãe. Veio-lhe o impulso de fugir. – “Ah! Bons dias de sol, em que jogava bola no adro da igreja. Armar redes, sentar-se à sombra dos arvoredos!”.
Estremeceu. Levantou-se. O ar estagnado cheirava-lhe mal. Tudo caía em cima dele. A voz da mãe desabava. E nem as genuflexões, nem os sinais-da-cruz, as atitudes compenetradas dos padres na capela, o impediram de dirigir-se àquele quarto, onde alguém quase jazia.
-Mea culpa, mea máxima culpa…”.Tinha medo, mas não podia fugir. Chegou, parou , entrou.
-Frei Apolinário!”. (o coração fechara-lhe a razão. Descompreendeu a bondade e a generosidade ).
O Frei curvara-se e parecia murmurar algo.
Num gesto desmedido falou: -“Quem é você e o que quer? Como entrou aqui?”.
-“A farsa acabou. Se Deus pra você sempre significou luz, pra mim a pra minha mãe sempre significou treva. Sou filho de seu estupro e sangue de sua indiferença.”
O sol irrompeu pela porta afora, uma melodia suave no ar. O nevoeiro dissipara-se e Evandro, o pequeno vingador, desapareceu na escola da vida, deixando para trás o rastro da morte.

(*) professor universitário, escritor e jornalista.

Termino aqui este texto com uma breve nota de estímulo a reflexão sobre o tema. Comentários são sempre muito bem vindos.

por Luis A R Branco

Leia o livro “Brasil: o país de plástico” disponíveis nas lojas online abaixo:

bd8ede61-bed9-4e45-b065-137fc9ad3b12

ONDE COMPRAR

[1] “Significado de Anarquismo,” Significados, http://www.significados.com.br/anarquismo/ (accessed September 25, 2015).

Anúncios