Rescrevendo a memória do nosso povo

  
Há algum tempo escrevi um pequeno comentário entitulado: Escravidão: uma dívida branca impagável. No qual explico que o sistema de quotas para os negros ingressarem na universidade é, ao meu ver, uma medida não só apropriada, mas necessária para tentar cobrir o deficit deixado na sociedade brasileira por de três séculos de escravidão. No antigo texto escrevi:

“As vezes leio nos jornais e nas redes sociais alguns questionamentos e protestos quanto ao sistema de quotas adotado pelo Governo Brasileiro nas universidades. Então, uma pergunta me vem a mente: ‘Qual será o tamanho da dívida moral dos brancos pelos séculos de escravidão dos negros que foram arrancados de suas pátrias e levados para a escravidão no Brasil em condições piores do que a que são levados os frangos e porcos para os matadouros no Brasil de hoje?’

Veja o que diz um anúncio de um classificado de um jornal americano de 1842 diz: “Procura-se uma mulher negra e duas crianças. Poucos dias antes da fuga, eu a queimei com um ferro quente, do lado esquerdo da face, na tentativa de marcar a letra M.” Um outro anúncio dizia: “Cem dólares de recompensa por um negro, chamado Pompoy, de 40 anos de idade. Ele tem marca de ferro quente na mandíbula esquerda”. E no Brasil a situação era ainda mais degradante!

Não podemos imaginar o que sofreram os negros escravizados pelo ocidente. Todo tipo de iniciativa que os governos possam ter para reparar esta vergonha histórica é bem-vinda. Se déssemos todas as vagas nas universidades brasileiras aos negros durante cinquenta anos, ainda assim não seria possível recuperar a grande perda de séculos de gerações inteiras de jovens negros maltratados e exterminados pela força dos braços do homem branco. Não podemos apagar a história, mas podemos escrever outra bem diferente em nossa geração.”

Além da triste história da escravidão dos negros no Brasil, não podemos negar que desde a Lei Áurea pouco foi feito em termos de reparação histórica estabelecendo no país alguns memoriais importantes, capazes de nos fazer reflectir sobre as ações terríveis dos nossos antepassados brancos. Sim, temos alguns memoriais como o antigo mercado negreiro em Salvador, uma estátua em memória ao vulto lendário do Zumbi dos Palmares e talvez umas poucas outras das quais não tenho nenhuma recordação. O certo é que a escravidão acabou, mas sua marca ficou e amalgamou com a história dos pobres e sofredores do nosso país, uma história escrita com mãos tremidas e de forma tão fraca que aos poucos vai se desgastando, apagando a memória, mas não a consequência histórica e social de atos tão bárbaros.

À partir de 1532 em diante, com o início regular do povoamento do Brasil, estabeleceu-se o tráfico negreiro da África direto para o Brasil. Calcula-se em 100 milhões os escravos africanos, trazidos para as colónias europeias nas Américas em três séculos. José Bonifácio orçava em 40 mil o número de escravos introduzidos no Brasil anualmente, portanto, entre 1550 e 1850, em trezentos anos, entraram nos portos brasileiros 12 milhões de homens africanos, isto é, cifra imensamente superior à das entradas de portugueses, que jamais passaram da média de 6 a 8 mil por ano, o que lhes dá, na melhor hipótese, a soma de 2.400.000 no decurso citado. Se erro houver nestas cifras, será em desfavor dos negros, pois muitos autores orçam por mais de 40 mil a média anual das entradas de carga escrava em nossos portos: 60 mil pelo menos.

Estes números são importantes para que possamos compreender a grande influência negra na cultura e na matriz genética do povo brasileiro. O brasileiro, como identidade étnica ainda está em formação, precisaremos ainda de algumas décadas ou séculos para ter uma característica cultural, física e linguística que nos defina e nos possa distinguir como povo. Enquanto isto vai ocorrendo de forma subjectiva e nos panos de fundo da nossa história, precisamos reescrever nossas memórias com elementos verdadeiros e desinibidos, romper barreiras ainda existentes e permitir que nosso povo, de origem tão diversificada, com europeus, negros e índios, possam amalgamar e ressurgir como uma luz no futuro que conduzirá a nossa amada terra à todo potencial que a ela está reservada. Uma transformação além da genética e histórica, mas também social e ética.

por Luis A R Branco

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5 pensamentos sobre “Rescrevendo a memória do nosso povo

  1. A humanidade pecou na distinção de raças, agora no meu entender “as cotas” não são necessárias pois os negros estão em pé de igualdade com os brancos na disputa por uma vaga nas universidades.

    • Se educação é um direito a palavra “disputa” não deveria existir. Se o Gov. Brasileiro, corrupto como é, é igualmente incapaz de fornecer educação para todos, é preciso lutar pela inclusão daqueles que ao longo da história foram vítimas da crueldade do homem branco.

  2. Meu caro amigo e escritor Luis A R Branco.Nos dias atuais vejo tudo que descreveste,com exceção do tráfico,com outro olhar.Hoje em dia,no Brasil,ainda não há uma raça defenida;visto que,em certas regiões já podemos destinguir,não só por conta da miscigenação que a maioria são de caboclos;pois nunca se viu tantos pares de branco com negro quanto nos dias atuais.Chega a ser quase uma redundância se falar em cotas,etc e tal.Ao meu ver,essas imagens de misturas de raças é tão banal quanto se andar descalço na areia da praia.(risos) Sem contar que a maioria dos nossos habitantes é do sexo feminino,as mulheres não estão se importando com tom de pele e,os homens brancos sempre atrelam seus olhares para uma morena,então só resta aguardar o que nos mostrará o tempo sobre tudo isso.

    • Quando falamos em distinguir, temos um tipo que servirá de base para esta distinção. Quando comparamos o brasileiro com outros povos, sua característica é indefinida. Mesmo os negros brasileiros não são como os negros africanos, nem os de origem europeia como os europeus, nem os de origem japonesa como os japoneses. Isto falo não por teoria, mas por conhecer tanto o Brasil como o exterior e observar estes detalhes. Não, não temos ainda o tipo brasileiro, nem física, nem social, nem na fonética. Quanto à questão da inclusão social é um imperativo esta necessidade. Olhe para o Congresso Nacional e Senado, quantos negros existem lá? Quantos negros são juízes? Quantos negros são médicos? E por aí vai. Temos uma dívida sim! E neste contexto, como cristão, faço como Daniel, que mesmo sendo um homem santo tomou sobre si os pecados de seus pais (vide Daniel 9 e 10). Um abraço,
      Luis

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