Torrão

  

A noite é escura,
As horas ligeiras atravessam a madrugada, 
Meus olhos abertos, meus pensamentos dispersos e um sono que não anuncia a sua chegada.

Lembranças diversas,
Uma saudade perversa aperta-me o peito inflado por vozes, rostos, toques e cheiros que jamais voltarão,
Carrasco é a noite que me conduz sem piedade de mãos, pés e boca atados num suplício solitário que mágoa-me imensamente e sem pressa.

Reclamam que minhas poesias retratam por demais a dor,
Mas que escolha tenho eu se assim como Jó tenho não apenas o corpo, mas a alma coberta de chagas para as quais não encontro remédios?
Afasta-te de mim antes que tua alma também padeça por um sofrimento que não é teu.

Já não conto mais os meus mortos,
Já não conto mais as minhas chagas,
Vivo cada dor como se fora única, degustando o fel misturado ao meu cálice de vinho prateado.

Não tenhas pena de mim,
Não me julgue por minhas palavras,
Não me dê conselhos hipócritas na tentativa de amenizar a minha dor.

Cada uma das minhas chagas tem um nome,
Cada noite escura tem uma causa,
No entanto já me secaram as lágrimas, sinto minh’alma ressequida minguante como o gado sedento.

Deste torrão procuro extrair inutilmente alguma esperança,
Esperança, seu pássaro rebelde que abandonou-me em dor,
Nada restou se não meus versos que causam espanto e horror.

E tu, por que julga meus versos se tua alma desconhece a minha dor?
Por que te escandalizas com as minhas palavras, se nunca sentiste seus sabores amargos?
Por que achas que toda dor é efémera, se nunca choraste até te secarem todas as lágrimas?
Ao contrário do que muitos pensam, não busco culpados, não busco razões, não procuro saber o destino daqueles que a vida de mim roubou.

Não busco piedade, não busco palavras adocicadas, não evito o sorriso retido ou desaparecido.
Sou gente que sente, sou gente que chora as lágrimas secas pelo lado de fora da face, mas torrencial pelo lado de dentro.

Só quem amou pelo simples prazer de amar,
Amar gente imperfeita mas de alma desnuda,
Compreenderá a força dos meus versos.

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15 pensamentos sobre “Torrão

  1. Nobre filósofo e amigo do outro lado do Atlântico!

    Como receber premiação por algo que nao conseguimos igualar,
    Nos tornariamos chatos, refetitivos a papagaiar,
    Nada diriamos de tão nobre,
    Que tal como bandeira conseguimos envergar

    Somos, assim, meio pobres em nosso poetizar
    Mas, nao temos como reclamar
    Pois do coração ainda sabemos amar

    Talvez, um dia, apenas talvez, Nobre Poeta
    Possamos chegar ao ardor de tua alma
    E com muita calma
    De certo, alguma coisa deixar

    Para uns é pela dor,
    para outros e pelo amor,
    Mas de um jeito ou outro
    Todos devemos amar.

    Sentiriamo-nos mais pobres, meio atrasados
    Se nao usassemos a alma, assim tão brutal
    Na busca de qualquer amor
    que na maioria das vezes se torna fatal.

    És divinizado e muito iluminado
    Pega as palavras e as coloca de forma
    A trancender o ilimitado que pensamos
    Pois outrora muito superior já amamos

    Com carinho que partilhas teus escritos,
    aqui para teu torrão natal,
    lá de tão longe, de Portugal.
    Receba deste pobre taura,
    Gaucho por natureza
    Um abraço apertado daquels de
    Fazer o coração ficar tocado.

    Com carinho e admração

    ProfeBorto
    Passo Fundo – RS

    • Nobre amigo,
      Sentimentos e palavras misturam-se na mente do poeta até amalgamar e poesia tornar. Obrigado por suas sempre encorajadoras palavras, teus louvores ofereço ao Céu, onde busco a inspiração para meus pobres e sentidos versos.
      Abraços,
      Luis

  2. Parabéns pela sensibilidade expressa em palavras, Luis! Apenas os corajosos são capazes de dizer, apenas os fortes arriscam mostrar suas chagas e os que amaram sabem o nome de cada uma delas.

  3. Como é bela a alma de um poeta. Quem me dera poder expressar meus males. Me aliviaria? Talvez. Nunca saberei.
    Lindo e profundo poema. Parabéns.

  4. Um poema muito belo, a tristeza possui seu caráter estético. Meus parabéns meu nobre poeta. Eu ando um tanto perdido num mundo de números desacertos. Não tenho tido muito tempo para ler ou escrever. Mas sobrou um tempinho e eu vim aqui ler teu poema. Forte abraço.

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