Uma classe dirigente desacreditada

Posted on 14 de Março de 2015

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No Brasil há dezenas de partidos políticos, mas nenhum confiável. Precisamente são trinta e um partidos oferecidos à la carte para os 140.646.446 de eleitores brasileiros. Os Estados Unidos da América, atrasados como são, só possuem três partidos e um eleitorado de 216.000.000. Os pobres americanos com suas escassas opções perdem de longe para o Brasil em oferta de candidatos. E ainda temos a vantagem de saber o resultado das eleições primeiro que nossos colegas americanos, graças as nossas tão faladas urnas electrónicas. Nas últimas eleições presidenciais os americanos, coitados, só tinham dois candidatos. Já no Brasil, nas últimas eleições contávamos com nove candidatos a presidência da república. Somos um país extravagante no que diz respeito a política. O TSE, por exemplo, gastou a bagatela de aproximadamente R$480 milhões de reais nas eleições de 2010.

O que há na política brasileira para atrair tanta gente? Apenas para vereador, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral, nas últimas eleições municipais realizadas no ano de 2012, foram registrados em todo o Brasil o total de 449.800 candidatos ao cargo para 57.416 vagas nas câmaras municipais. E poderíamos ir de cargo em cargo e teríamos uma ideia da magnitude do sentimento de dever cívico do brasileiro no que diz respeito a política. Será isto uma virtude? Não sei, soa-me mais como oportunismo, visto os altos salários, regalias, e possibilidades de sempre levar um dinheiro por fora como político brasileiro, até nas coisas mais ridículas, como o famoso mensalinho criado pelo ex-Presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cacalcanti, denunciado por Sebastião Buani, dono de um restaurante da Câmara, que acusou Severino de cobrar-lhe a mensalidade de 10 mil reais sob a ameaça de fechar o restaurante dele. Esta é a qualidade dos nossos políticos. E para voltar a citar o mestre Manuel Laranjeira, resolvi tomar emprestado mais uma de suas frases e parafraseá-la para a realidade brasileira: “O nosso pessimismo quer dizer apenas isto: que no Brasil existe um povo, que é espoliado por uma minoria parasitária e dirigente, uma maioria que sofre porque a não educam e uma minoria que sofre porque a maioria não é educada.”

Nosso povo adquiriu o direito ao voto sem saber exatamente o que isto significa, e manipulado por esta classe dirigente corrupta, se encontra refém da sua própria ignorância. Embora com o poder de mudar o país esteja nas mãos do povo, este continua estagnado na ignorância, e como diz Laranjeira: “…na mesma sofredora passividade.”

A verdade é que no Brasil não existe política, não no sentido clássico de ser. Política é uma arte, uma arte voluntária de pessoas capazes de organizar a cidade, estado ou país e os seus cidadãos. A política como arte é uma definição antiga, e vem sendo defendida como arte desde os gregos até os académicos modernos. No Brasil a política deixou de ser arte e passou a ser Ciência Jurídica. Já contaram quantas CPIs e casos criminais com políticos existem em nosso país nos tribunais? É incrível! O político por definição deveria ser um artesão, mas sua condição de réu em CPIs, polícias e tribunais o transformou em ladrão e criminoso. No Brasil, política deixou de ser arte e passou a ser crime organizado com a garantia do estado para a extração de recursos púbicos para fins pessoais.

É triste mas não existe política Brasil. A palavra “politikós” – “dos cidadãos, pertencente aos cidadãos,” não é um sentimento nacional. Política como arte e político como do povo e para o povo, é uma reforma que vai muito além da reforma política proposta por ai. É preciso tirar todos que lá estão com uma concepção errada de política e entregá-los a justiça e a polícia e começar tudo novamente, com gente nova, de mente progressista e rescrever a história de um povo que até agora só conheceu a escravidão

por Luis A R Branco
Extraído do livro ‘O Pessimismo Nacional”

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