A missão na desesperança

Posted on 13 de Março de 2015

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Em julho de 2015 completaremos vinte anos no campo missionário, parece muito, mas na realidade estes anos representam apenas metade daquilo que é o padrão de permanência no campo para os missionários de carreira Norte Americanos e Europeus, portanto, só chegamos ao meio do caminho comparado com nossos irmãos do hemisfério norte. Quando olhamos para trás o que vemos? Vemos uma longa estrada que já vai perdendo-se no tempo e paulatinamente desaparece no horizonte.

Somos uma família missionária feliz, sim, feliz, pois missionário também conhece a felicidade. Continuamos a acreditar que fazer missões é essencial, continuamos a acreditar que missões faz parte daquilo que chamaríamos de a grande responsabilidade na igreja, continuamos conscientes da realidade de milhares de povos ainda sem uma única igreja estabelecida entre eles, continuamos conscientes sobre os gigantes asiáticos, China e Índia, com seus bilhões de pessoas e da luta pela sobrevivência da igreja nestes países e também dos milhares e milhares de cristãos presos no mundo por causa do evangelho, especialmente os milhares de cristãos mantidos em campos de concentrações na Coréia do Norte. Vamos nos conscientizando cada vez mais do esvaziamento dos campos missionários, do envelhecimento e adoecimento de milhares de nossos colegas de jugo que insistem em permanecer no campo mesmo diante das limitações do corpo que aos poucos vai cedendo para as doenças físicas e emocionais. Vamos nos conscientizando sobre a solidão do campo missionário e do esquecimento daqueles que um dia nos enviaram rejubilantes para a seara do Senhor.

Confesso, ser missionário nunca foi fácil e nem tão romântico como muitos imaginam. Ser missionário é bem como escreveu o salmista: “Sim, por amor de ti, somos mortos todo o dia; somos reputados como ovelhas para o matadouro.” (Salmos 44:22) Nenhum cristão entenderá a força destas palavras até que tenha entregado sem nenhuma reserva toda a sua vida ao seu Criador. Ser missionário é morrer um pouco mais a cada dia, até que ele venha ou chame pelo nosso nome. Não duvido que este parágrafo seja de difícil compreensão para uma igreja demasiadamente envolvida com a conquista individual do nada e com o acumulo daquilo que o ladrão rouba e a traça corrói.

Nestes anos em missões perdemos o contato com noventa e nove porcento dos nossos amigos, apesar de escrever e enviar regularmente notícias nossas. E perdemos praticamente todo o apoio financeiro que recebíamos há vinte anos atrás, com a excessão da nossa igreja e um casal que insistem, assim como nós, em acreditar na missão.

mission4Hoje olho no espelho a procura daquele menino com seus vinte anos e o que encontro é um homem que vai envelhecendo, que vai se consumindo pelas mazelas da vida, que sente nos ombros o peso da responsabilidade da vida pessoal, da obra missionária e da família, mas que se recusa a abandonar o arado e olhar para trás em busca de uma oportunidade menos exigente. Confesso que não é fácil, é a missão na desesperança, mas aguardamos com expectativa o dia em que retornaremos para Deus com nossos feixes nas mãos.

Meu amigo, não leia este texto como um desabafo, nem como lamúria, nem como condenação, nem tenha pena de nós. Se tiver pena, tenha de ti mesmo, olhe para um mapa mundi e busque por um país desconhecido, ore por ele, pelas igrejas, cristãos e obreiros que ali estão. Se possível, pergunte a você mesmo o que você tem feito de forma prática pela causa missionária no mundo.

Enquanto isto, continuaremos aqui, adoecidos, esquecidos, morrendo a cada dia, mas envolvidos num doce e terno amor por aquele que amou o mundo inteiro.

por Luis A R Branco

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