Zé Brasileiro

O dia amanheceu e o Zé Brasileiro tentou levantar da cama para ir trabalhar, como fazia todos os dias, mas não conseguiu, não sabia explicar o que tinha, era um mal-estar, cabeça confusa, curtas perdas de memória, uma sonolência profunda e uma dor que lhe tomava o corpo todo. Logo a mulher estranhou o fato de ele não levantar na hora habitual, perguntou o que tinha acontecido e ficou logo preocupada. A esposa do Zé Brasileiro, uma boa mulher e boa mãe, tratou logo de levantar e despachar os meninos para a escola, pois não podiam perder aula para não correrem o risco de ficarem sem receber o Bolsa Escola, graças à engenhosidade assistencialista do Cristóvão Buarque, recebia R$15,00 por criança e como tinha três filhos na escola eram nada menos que R$45,00 por mês que entrava limpinho no bolso da família que juntando aos R$70,00 do Bolsa Família, dava direitinho para pagar a prestação da televisão nova que a família haviam comprado nas Casas Bahia em 15 prestações de R$115,00 por mês. Do jeito que as coisas andavam não podiam descuidarem-se e correrem o risco de perder este dinheiro, pois além da televisão, tinha a prestação da geladeira nova, outra do jogo de moveis para o quarto do casal e as obras que o Zé Brasileiro tinha resolvido fazer, na verdade um puxadinho, para aquele churrasquinho no final de semana, regado a batida de limão, sob o som de Roberta Miranda que quando cantava “Sol da Minha Vida” colocava bem alto para toda vizinhança ouvir.

Extraído do Google Imagens

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Amélia, nome da mulher de Zé Brasileiro trouxe um café para ver se o homem animava, e nada, bem, o dia de trabalho estava perdido. Os vizinhos que logo perceberam a agitação na casa, pois como moravam numa destas comunidades urbanizadas pela Prefeitura, às antigas favelas, na verdade pouco mudou, se não a luz nas casas e iluminação na rua e água encanada que agora chegava em todas as casas, uma urbanização bem tupiniquim, mas melhor que nada, e Amélia dizia de peito cheio: “É por isso que voto no PT, eles roubam, mas fazem, olha a melhoria que trouxe aqui para a comunidade!” Na verdade ainda faltava muita coisa na favela urbanizada, tratamento de esgoto, calçamento das vias de acessos as casas, escola, centro de saúde, transporte, e sem contar os milicianos que batiam todo mês na porta para buscar “o deles” pela segurança que ofereciam a população, pelo gás e carteiro que agora sob o controle da milícia podiam entrar na comunidade. Mas apesar de uma comunidade humilde o povo era unido, tirando os jovens que por andarem nas drogas, às vezes aparecia um morto por ali. Mas tinha pagode todo sábado à noite para alegrar a moçada. Todo mundo recebia uma ajudinha aqui ou ali do governo, era Bolsa Escola, Bolsa Família, Auxilio Reclusão, que mal ou bem tinham suas casinhas, e algumas até com parabólicas. Telefone tinha um só, um orelhão, mas todo mundo tinha celular para receber chamadas quando precisassem.

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Logo começa um entra e sai na casa de Zé Brasileiro e Amélia, pois a situação do homem piorava e ele já gemia de dor. Mandaram chamar a Dona Teresinha, uma das mais antigas avós da comunidade, negra e de origem africana, sabia umas rezas que diziam curar de tudo. Lá veio a benzedeira, apoiada por duas mãos amigas e trazia junto uns galhos de arruda com os quais benzeu o Zé, contra cobreiro, espinhela caída, quebranto, mal olhado, e por ai vai, mas sem muito resultado. Dentro de pouco tempo o Zé já delirava e era um: “ai, ai, ai, ai!” agonizante, e lá pelas três resolveram levar o Zé na urgência do hospital do Estado, com muito sacrifício o Zé vestiu-se e foi apoiado por uns três ou quatro pela viela da comunidade, no caminho passou na porta de uma Assembleia de Deus e pediu o irmão que estava na porta para incluir seu nome nos pedidos de oração, lá em baixo aguardava o carro, uma Brasília 78, que pertencia ao Sr. João Nortista, como era conhecido na comunidade, e também era dono de um terreiro de umbanda ali perto, e foi logo avisando que para ele aquilo era “trabalho feito”. Com muito esforço e num calor infernal que fazia no Rio de Janeiro, conseguiram chegar ao hospital, com dificuldade o Zé saiu do carro, sentou-se num banco de madeira na recepção enquanto Amélia foi tratar da papelada, depois de quarenta minutos foi finalmente atendida. Mas foi informada que tinha que esperar pois só havia um médico no hospital e os demais não haviam voltado ainda do almoço. Começa então a dolorosa espera do Zé Brasileiro pelo atendimento, foram três horas e meia até aparecer um médico cubano para quem tentavam inutilmente explicar o que se passava, com muito custo finalmente se entenderam e o médico deu o diagnóstico: “ – Señor Jose brasileño, usted está sufriendo de una muy fuerte bacterias, para a qual ainda no hay antibiótico, chama-se “lulismo!” Trata-se de uma bactéria super-resistente, que surgiu no Brasil há doze anos e nunca foi tratada, tornando-se muito resistente e contra a qual antibiótico algum funcionava. Enquanto não se descobre um antibiótico eficaz contra esta molesta desgraçada, teria que levar as coisas devagar, e tomar uns comprimidos anticomunismos que ajudavam aliviar a dor e manter a lucidez. Zé Brasileiro foi informado pelo médico poderia dar entrada no pedido de licença do trabalho no INSS e estaria tudo bem. O médico adiantou a papelada com os laudos médico para facilitar o processo. Quando Zé perguntou: “- E agora doutor?” Que respondeu: “- Ahora siga el hogar, descanse un poco y mira las telenovelas y después de las elecciones, si no passa tiene una enfermedad crónica.” No caminho para casa, Amélia sempre otimista disse: “Nem tudo é mal, viu adoeceu, mas vai aposentar cedo, graças ao Lula!”

por Luis A R Branco

Extraído do Google Imagens

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