O Sexto Sentido da Mulher: mito ou realidade (um olhar da filosofia da religião)

El-sexto-sentidoÉ possível que você em algum instante da vida já tenha deparado-se com a declaração sobre o “sexto sentido da mulher”. E hoje, enquanto lia o livro de Ester, no livro sagrado, esta declaração me veio novamente a mente e resolvi escrever este breve texto sobre o assunto, sendo quem sabe, um pouco satirista. 

Em primeiro lugar devo buscar entender o termo “o sexto sentido da mulher”, algo que ultrapassa os limites da biologia. Os seres humanos são dotados de cinco sentidos fundamentais: audição, olfato, paladar, tato e visão. Estes possibilitam o nosso relacionamento com o ambiente. Com esses sentidos, o nosso corpo percebe o que está ao nosso redor, e isso nos ajuda a sobreviver e integrar com o ambiente em que vivemos. Sendo esta uma realidade biológica inquestionável, somos obrigados a mudar de campo e sair da esfera biológica e entrar na esfera da metafísica e da cosmologia, visto que estas áreas tratam do ser humano de uma forma mais abrangente.

Na busca pelo sexto sentido no campo da metafísica e cosmologia somos redirecionados para a parapsicologia que através de pesquisas efetuadas ao longo dos anos, e que ao meu “crítico” ver não os levou a lugar algum, afirma que a mulher e homossexuais, por questões de “sensibilidade”[1] desenvolvem este sentido intuitivo. Esta posição da parapsicologia me parece muito vaga e suportada por pressupostos meramente comportamentais, como por exemplo a sensibilidade encontrada nas mulheres e homossexuais. Entretanto, ainda no campo da metafísica cosmológica podemos buscar entendimento na espiritualidade como bem explica Ernani Fornari, autor do livro Fogo Sagrado: “A concepção holística do mundo é reforçada, nos anos 1970 e 1980, pelo xamanismo, movimento de resgate da cultura de povos norte e sul-americanos, africanos, siberianos, havaianos, australianos, entre outros. Um de seus principais postulados é a realidade multidimensional do universo, que apresenta a ideia de que os cinco sentidos e a mente racional não são suficientes para o contato com outros níveis de existência. É o sexto sentido que pode abrir as portas para uma vida multidimensional consciente.”[2] Na concepção de Ernani Fornari o sexto sentido, ligado ao xamanismo, não está restrito apenas as mulheres, mas qualquer indivíduo pode desenvolver o seu. Neste conceito nos deparamos com uma questão de empirismo, que afirma que o conhecimento vem apenas ou principalmente, a partir da experiência sensorial.

Em termos filosóficos a forma de concebermos a possibilidade da existência de um sexto sentido seria através do empirismo, que neste caso abriria espaço obviamente para todas as experiências desde a parapsicologia, xamanismo e inclusive a cabala que é um conjunto de elementos esotéricos.

Na Escritura Sagrada, Bíblia, não há qualquer menção ao sexto sentido. Nenhuma mulher na Bíblia, nem mesmo Maria, a mãe do Senhor, foi dotada deste sentido. Como filósofo cristão considero a ideia do sexto sentido heresia, visto que para validar sua existência e possibilidade, teríamos que adentrar pelas portas do sincretismo e empirismo e abandonar o princípio do Sola Scriptura (Somente a Escritura).

Quando olhamos para a Escritura Sagrada nos deparamos com uma realidade bem diferente da postulada por algumas mulheres e homens sobre a ideia da mulher como portadora do sexto sentido. Desde o princípio vemos a mulher sendo enganada, como foi Eva no Éden. O apóstolo Paulo parece não concordar com a existência de um sexto sentido, como podemos observar: “Mas temo que, assim como a serpente enganou Eva com a sua astúcia, assim também seja de alguma sorte corrompida os vossos sentidos, e se apartem da simplicidade que há em Cristo.” (2 Co 11:3).

A doutrina da depravação total também seria outro ponto contra esta possibilidade, pois ainda que tal sentido existisse, como afirmou o apóstolo, nossos sentidos foram corrompidos. A palavra usada por Paulo neste texto e que foi traduzida em algumas versões portuguesas como “sentidos” ou “mente”, νοημα, envolve muito mais que uma capacidade de sentir e pensar, mas inclusive a intuição e tudo aquilo que passa pelo canal do raciocínio e da mente.

Além de Eva, poderíamos explorar uma serie de narrativas bíblicas onde a possibilidade de um sexto sentido nas mulheres é um absurdo da imaginação e crendice popular. Os exemplos bíblicos são muitos, portanto resolvi citar apenas quatro para nossa reflexão e deixar o desafio para que você mesmo, estudante da Escritura vá analisar por si mesmo. O primeiro caso a citar é o de Eva no Éden, enganada pela serpente (Gn 3), bem, se uma serpente foi capaz de enganar uma mulher e levá-la a conduzir toda a humanidade à Queda, o que não faria o ator George Clooney. O segundo exemplo bíblico que desejo mencionar é o da esposa de Jó, cujo sentido era o de que Jó deveria amaldiçoar a Deus (Jó 2:9). O terceiro exemplo é o de Safira, que com todos os seus sentidos não admoestou seu marido quanto a mentira que tramaram para enganar a igreja (At 5:1-2). E por último, e sei que despertarei incômodos aqui, é Maria, mãe de Jesus, repreendida por ele diversas vezes por exceder em seus sentidos, como podemos constatar na narrativa de Mateus 12 quando Maria procurava interromper a pregação de Jesus para tratar de assuntos aparentemente domésticos e familiares, mas Jesus lhe responde: “[…] Quem é minha mãe e quem são meus irmãos? Estendendo a mão para os discípulos, disse: Eis minha mãe e meus irmãos. Porque qualquer que fizer a vontade de meu Pai celeste, esse é meu irmão, irmã e mãe” (Mateus 12:48-50).” “A resposta de Jesus, mais uma vez, visa traçar uma linha clara sobre a sua natureza e missão. Ele não era deste mundo, e por isto, não se envolveria com as coisas desta vida. Ele veio para buscar e salvar o que estava perdido (Lc 19:10), este era o seu foco, portanto, os que o ouviam eram a sua família, a sua mais significativa relação. Se sua mãe e irmão quisessem desfrutar da sua missão, deveriam se envolver com ele junto dos demais. Nada, absolutamente nada, tirava Jesus do foco.”[3]. Como disse, a lista poderia ser grande!

O que desejo com este breve texto não é a diminuição e desprezo da mulher, mas sim, desfazer um mito ilógico e nivelar a mulher a realidade de todas as faculdades e sentidos humanos, no caso dos sentidos temos ambos, homens e mulheres, cinco. A crendice de que o homem deve ceder sempre a intuição da mulher nos mostra que não funciona aos olhos da Escrituras Sagrada, não tem respaldo biológico, nem histórico. Com este texto não pretendo emancipar os homens da responsabilidade de consultar suas esposas em algumas decisões importantes, mas nunca se deixar influenciar por um sentido inexistente. A melhor opção para ambos e a oração e buscar o conselho de Deus que nunca falha: “[…] porque é maravilhoso em conselho […]” (Is 28:29).

 por Luis A R Branco

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Verdade

 

[1] “O sexto sentido – ‘Intuição’ – (Percepção Extra-Sensorial),” PSICENTER, March 10, 2014, accessed March 10, 2014, http://www.psicenter.psc.br/sentidos.htm.

[2] Ernani Fornari, Fogo Sagrado (São Paulo: Editora Vida e Cosciência, 2010), Sexto Sentido.

[3] Luis A R Branco, Maria: a Mãe de Deus (Portuguese Edition) (publication place: CreateSpace Independent Publishing Platform, 2013), 27.

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5 pensamentos sobre “O Sexto Sentido da Mulher: mito ou realidade (um olhar da filosofia da religião)

      • Bem, primeiro que, segundo meus parcos conhecimentos, a estória da maçã com a Eva é folclórica. Qualquer pessoa que estude um pouco da realidade irá acreditar nesse conto.
        Segundo o que vc diz, então Paulo mentiu quando disse que viu Jesus e ficou cego até que se convertesse ao cristianismo?
        Conheço muitos homens, não homossexuais, que tem sim o sexto sentido muito aguçado.
        A ciência vem provando que quem tem o sexto sentido, tem uma certa diferença no cérebro. (segundo a revista Superinteressante).

  1. A mulher é muito intuitiva.E devido sua sensibilidade ser mais aguçada, o que não não lhe falta é intuição.E, a partir daí, surgiu a ideia do “sexto sentido”. Para complementar o texto do nosso competente escritor, Luis A R Branco,que escreve seus pensamentos com muita proficiência,deixo aqui, um fragmento de um texto meu a este respeito: “Viver melodramas, sofrer por antecipação, adivinhar as tramóias do parceiro… é intuição que não acaba e nem termina nunca,na cabeça de uma mulher.Se isso não fosse possível, talvez nem sofrêssemos tanto, o passo a passo de uma relação a dois.Muitas vezes nem precisamos usar tanto a imaginação;quando você termina de pensar no que ele pode estar lhe “aprontando”,,já estar acontecendo o intróito do que você imaginou,com “todas as letras”…(in:Fragmentos Amorosos)

  2. Olivina,
    Obrigado por seu comentário. Se não se importa, pediria que esclarecesse o que você classifica como “folclore” e “realidade”, qual a base da sua proposição? Um fator que me preocula no seu comentário é que segundo você mesma, pelos “parcos conhecimentos”, não deveria procurar uma base mais sólida que uma revista?
    Abraços,
    Luis

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