Deus odeia o pecado, mas ama o pecador?

Posted on 16 de Novembro de 2013

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Esta é uma frase usada com frequência nos círculos evangélicos, no entanto, não se encontra na Escritura. É uma das muitas frases que surgem ao longo da história e que de tanto serem usadas acabam por fazer parte do vocabulário cristão. No entanto, o simples fato de uma frase não se encontrar na Bíblia não a torna inverdade. O que ela não pode ser é anti-bíblica. Existem outras palavras, termos e frases que fazem parte do vocabulário cristão e que são partes importantes na teologia cristã, tais como “Santíssima Trindade”, “Depravação Total”, e até mesmo os “Cinco Solas”.

Meu cuidado em trazer esta breve nota é para corrigir o pensamento de que a frase “Deus odeia o pecado, mas ama o pecado” é anti-bíblica.

Vejamos a base textual em que está ideia se baseia: “Os loucos não pararão à tua vista; odeias a todos os que praticam a maldade.” (Salmos 5:5 – ‘grifo meu’).

Este verso deve ser observado tendo em vista duas dinâmicas de observação. A primeira dinâmica é a “dinâmica particular”, nesta se enquadram aqueles aos quais o autor original tinha em mente ao escrever este Salmo. Quem eram estes que o autor tinha em mente? Este salmo provavelmente foi escrito por Davi durante a rebelião relatada em 2 Samuel 20, quando dez das tribos de Israel, seguindo os passos do rebelde Absalão, e neste caso em particular, motivadas por um tal Seba, deliberadamente se levantam contra Davi, o rei de Israel. O texto de 2 Samuel 20:1 chama este Seba de “desordeiro” ou “rebelde”.

Seba não teve sucesso em sua rebelião, foi perseguido pelas tropas de Davi e encurralado em Abel-Bete-Maaca, e seus habitantes, para não ver a cidade invadida e destruída, resolveram decapitar Seba e entregar sua cabeça aos soldados do rei.

O salmo é uma oração de Davi ao Senhor, onde pede o favor de Deus por sua vida e sua ira contra aqueles que na companhia de Seba se levantavam contra ele. Como rei escolhido por Deus, Davi sabia que aquele acto de rebeldia não prosperaria e que o pecado da rebelião é como o pecado de feitiçaria, e o porfiar é como iniquidade e idolatria (1 Samuel 15:23). Portanto, os pecadores ou praticantes da iniquidade que o autor original tinha em mente, estavam envolvidos numa iniquidade que visava contrariar a vontade de Deus e remover do trono aquele a quem Deus mesmo tinha levantado. Neste contexto, compreendo que Deus odeia aquele que deliberadamente se opõe contra a sua vontade e contra ela planeiam o mal, e não aquele pecador que “não sabem discernir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda” (Jonas 4:11).

A segunda dinâmica em que podemos observar o Salmo 5:5, é a “dinâmica geral”, tendo em vista a aplicação deste salmo em um contexto mais abrangente. Neste sentido, o princípio interpretativo do salmo deverá condizer com o princípio doutrinário-teológico que envolve toda a Escritura no que diz respeito a esta questão da relação de Deus com o pecador.

Nesta relação de Deus com o pecador, devemos considerar que nossa natureza, mesmo depois de crentes em Jesus, continua pecadora. A diferença está no facto de que hoje, como crentes em Jesus Cristo, nos fiamos não na nossa capacidade de não pecar, mas nas misericórdias do SENHOR, como diz o texto bíblico: “As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos…” (Lamentações 3:22). Portanto, a diferença é que hoje, em Cristo, somos “pecadores salvos”, ao invés de “pecadores perdidos”. O facto de sermos crentes não nos livra definitivamente da influência do pecado. Isto porque enquanto vivermos, estamos sujeitos a possibilidade do pecado, como diz a Escritura: “… o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mateus 26.41). Vejamos ainda o que escreveu João: “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça. Se dissermos que não pecamos, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós.” (1 João 1:8-10).

Na “dinâmica geral”, se concordarmos com a ideia de que Deus “odeia o pecador”, somos igualmente com o mundo odiados por Deus, pois não podemos seguir uma regra hermenêutica no processo interpretativo e alterá-la quando nos for conveniente.

Numa perspectiva geral observamos o seguinte nas Escrituras:

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.”
João 3:16

Deus amou o mundo inteiro, sua criação, homens, mulheres, crianças, todos, sem distinção alguma. Amou inclusive a todos os pecadores do mundo! É um amor tão complexo que Paulo escreveu que orava pelos efésios, para que eles pudessem “…conhecer o amor de Cristo, que excede todo o entendimento…” (Efésios 3:19).

“Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores.”
Romanos 5:8

Deus não nos salva para então nos amar, ele nos ama para então nos salvar. É este amor de Cristo que constrange o pecador (2 Coríntios 5:14), pois não éramos merecedores de tamanho amor.

“Nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou a nós, e enviou seu Filho para propiciação pelos nossos pecados.”
1 João 4:10

João descreve nossa incapacidade de amar a Deus primeiro, ou de mudar nossos passos sem que ele nos tivesse amado sendo nós ainda pecadores, e só então, movidos por seu amor e seu Santo Espírito, temos condições de responder ao seu amor.

Portanto, sim, Deus odeia o pecado, mas ama o pecador. E é este amor de Deus que nos alcançou e é este amor de Deus que faz com que nós possamos nos oferecer a ele obedientemente, para a pregação das boas novas do amor de Cristo ao mundo que sem ele está perdido. Sim, a frase não está na Escritura, mas a Escritura está nela de forma implícita, pois Deus é amor (1 João 4:8).

No entanto, o amor de Deus e sua ira são complexos demais para serem compreendidos com meros argumentos humanos. Na verdade poderíamos entrar num debate sem fim neste sentido, sem chegar a alguma conclusão satisfatória. De certa forma, podemos conceber a ideia de que Deus odeia o pecador que deliberadamente peca contra ele e atenta contra a sua vontade. O Salmo 5:5 diz: “…praticam a maldade.” Em outras palavras, aqueles que “trabalham o mal”.

Como bem esclarece John Gill, Deus odeia o pecador, mas “não a todos os que têm pecado ou praticam o pecado, pois não há ninguém sem pecado, mas a tais que se entregam ao trabalho da maldade, que tornam o pecado o negócio de suas vidas, e dele são escravos, vivendo-o em uma série continuada no curso da impiedade.”

A Teologia Reformada, ao longo da sua história, através de seus precursores, tais como Boston Thomas, John Brown, Andrew Fuller, Shedd WGT, Dabney RL, Warfield BB, John Murray, Kuiper RB, e muitos outros, tem afirmado que Deus ama não só o eleito, mas também os não eleitos. João Calvino escreveu a respeito de João 3:16, “[Dois] pontos são claramente afirmado para nós: a saber, que a fé em Cristo traz vida a todos, e que Cristo trouxe a vida, porque o Pai ama a raça humana, e deseja que eles não pereça “. Calvino continua a explicar o equilíbrio bíblico que tanto o convite do evangelho e “o mundo” que Deus ama não são de forma limitada para a eleição sozinho. Ao mesmo tempo em que ele também reconheceu que eleição, e o amor salvívico de Deus é unicamente concedido a seus escolhidos.

Louvemos a Deus por seu grande amor, e oremos em favor do mundo perdido. Não devemos deixar de olhar o homem perdido como alvo do amor de Deus e com quem devemos compartilhar o evangelho.

Luis A R Branco

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Posted in: Apologética