A Doutrina do Perfeccionismo

Posted on 21 de Setembro de 2013

0


NitpickingO objectivo deste artigo é argumentar sobre a Doutrina do Perfeccionismo defendida por inúmeros cristãos e que sutilmente entra nos arraias cristãos em forma de uma nova descoberta espiritual, em comparação com a doutrina bíblica cristã.

O perfeccionismo ensina que existe uma classe de cristãos que alcançarão a perfeição moral e espiritual ainda nesta vida, isto é, viverão sem pecado. E que o cristão já desfruta de todos os privilégios da salvação, além de um estado perfeito, não possui necessidade espiritual alguma, pois já vive em seu estado glorificado. Nesta doutrina, o Espírito Santo trabalha como o agente que traz a vitória total sobre o pecado e qualifica o cristão para viver neste presente estado toda a plenitude de vida que há em Cristo Jesus. O perfeccionismo é carregado do positivismo de que o cristão tem todo o poder necessário para responder aos mais elevados ideais da fé. Um dos textos preferidos dos promotores destas doutrina está em Mateus 5:48: “Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste.”

Na história da igreja encontramos Pelágio da Bretanha como um dos ensinadores desta doutrina, inclusive alegou que a igreja havia se tornado moralmente corrupta depois que abandonou os ideais bíblicos da perfeição. No entanto, Agostinho de Hipona renunciou esta possibilidade da perfeição humana nesta vida devido a contínua influência da queda original na humanidade. Inclusive os reformadores como Lutero e Calvino também renunciaram esta possibilidade da perfeição nesta vida, considerando que o pecado sempre permaneceu uma realidade com a qual os cristãos terão de lidar até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo (Ef 4:13). Em seu comentário sobre Efésios João Calvino explica que os ensinos de Paulo nos mostram que devemos perseverar neste curso da vida cristã até que todas as nossas deficiências sejam vencidas e que devemos progredir continuamente até a morte, sob o ensinamento de Cristo.

Com frequência o cristão enquanto nesta vida cometerá pecados. O texto bíblico nos diz claramente: “Pois todos pecaram (ἡμαρτήκαμεν)” – ou seja, cometeram atos de pecado (ἁμαρτίας) manifestando a força e a atividade do princípio pecaminoso (ἡ ἁμαρτία) em nossas almas [1] – e carecem da glória de Deus.” (Rm 3:23).

Nisto, no entanto, há motivos para desespero. O simples reconhecimento de que somos pecadores não é o remédio, o perdão e a purificação com o sangue de Jesus Cristo é a única forma de se obter perdão dos pecados. O autor de Hebreus escreveu: “Tendo, pois, irmãos, intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou pelo véu, isto é, pela sua carne, e tendo grande sacerdote sobre a casa de Deus, aproximemos-nos, com sincero coração, em plena certeza de fé, tendo o coração purificado de má consciência e lavado o corpo com água pura.” (Hb 10:19-22). Como escreveu David Smith: “A paz não se conquista negando a nossa pecaminosidade e os nossos pecados, mas em honestamente confessá-los, continuamente e repetidamente, obtendo assim o remédio gracioso. ‘Ai daquela alma que pressupõe que ele pode se aproximar de Deus de qualquer outra forma do que como um pecador pedindo a sua misericórdia. Reconheça o seu pecado, e Deus vai envolvê-lo no manto da Sua bondade’ (Juan de Avila). ‘A remissão dos pecados não pode ser separada da penitência, nem a paz de Deus pertence a consciência, onde o temor de Deus não reina’ (Calvino).” [2]

No entanto, no Séc. XVIII, João Wesley começou a ensinar sobre a perfeição cristã, pois acreditava que os cristãos, depois de experimentarem um encontro com Deus em Cristo, começavam a crescer na graça e no amor, e, eventualmente, chegariam num estágio quando a obra do Espírito Santo os tornariam perfeitos em amor. No entanto, mesmo para Wesley este era um processo possível de ser alcançados apenas por uma pequena  minoria de cristãos e o próprio João Wesley nunca professou ter alcançado este nível. E numa das suas revistas publicadas sobre o assunto, Wesley confessou não ser absolutista neste assunto e falou sobre a necessidade do crescimento através da graça de Deus.

No entanto, mesmo diante da renúncia do absolutismo da Doutrina do Perfeccionismo, o Metodismo, passou a ser um dos maiores promotores deste movimento. Em 1839, Timothy Merrett (1775-1845) lançou um guia intitulado Guide to Christian Perfection, que gradualmente conquistou seu espaço entre os metodistas, e por volta de 1880, o movimento se tornou um fenómeno nos Estados Unidos. A busca pela perfeição criou uma espécie de classes dentro da igreja o que veio terminar na saída de de diversos grupos de dentro da igreja metodista e a formação de outros grupos com os Nazarenos, Wesleyanos, Exército da Salvação e a Igreja de Deus. E no início do Séc. XX, este movimento serviu de base para o nascimento de algumas igreja pentecostais. Alguns psicólogos e críticos afirmam que os ideais perfeccionistas deste movimento é uma das causas da ênfase americana no sucesso material. Eles consideram o perfeccionismo um estado patológico no qual o indivíduo tenta alcançar as metas excessivamente altas e irrealistas.

John MacArthur, em seu livro “Sociedade sem Pecado”, publicado pela Editora Cultura Cristã. No capítulo em que critica a forte tendência existente em alguns grupos religiosos de defender a perfeição espiritual como algo atingível pelos cristãos ao longo da vida, MacArthur lembra que a história da Igreja está manchada com exemplos de seitas e facções que ensinam várias versões do perfeccionismo cristão. Quase todos esses grupos ou naufragaram completamente na fé ou foram forçados a modificar seu perfeccionismo para se acomodar à imperfeição humana.

O Reverendo Vivaldo Silva Melo em seu artigo sobre “O Perigo do Perfeccionismo” esclarece:

“Todo perfeccionista, inevitavelmente, encara a clara e empírica evidência que os vestígios do pecado permanecem na carne e nos problemas, até nos cristãos mais espirituais, por toda a vida. Afim de persistir na doutrina do perfeccionismo, tiveram de redefinir o pecado ou baixar o padrão de santidade. Freqüentemente, fazem isso à custa de suas próprias consciências”, escreve MacArthur.

Num dos trechos mais relevantes da abordagem cita uma declaração de H. A. Ironside, último pastor da Igreja Moody em Chicago, que escreveu um livro sobre a sua luta contra a doutrina do perfeccionismo, quando era um jovem oficial do Exército da Salvação. No final das contas, Ironside deixou a organização e abandonou sua crença no perfeccionismo, descrevendo-o como uma doutrina que destrói a consciência.

“O ensino da santidade na carne (perfeccionismo) tende a endurecer a consciência e faz que aquele que a professe abaixe o padrão até sua pobre experiência. Qualquer pessoa que conviva com aqueles que professam essa doutrina logo começará a perceber como essas condições descritas são predominantes. Os mestres deste ensino são freqüentemente sarcásticos, cheios de censura, severos, rudes no julgamento de outros (…). Contudo, “eles têm todas as pequenas peculiaridades desagradáveis que tanto julgam em muitos de nós: eles não são mais livres da avareza, da tagarelice, da maledicência, do egoísmo e das fraquezas familiares de seus vizinhos”, registra Ironside.

MacArthur lembra que todo o perfeccionismo é, em essência, um mal-entendido desastroso quanto à maneira de Deus trabalhar a santificação. A santificação é um processo pelo qual Deus – trabalhando nos crentes por meio do Espírito Santo – gradualmente os transforma à semelhança de Cristo (2 Co 3.18). O processo de santificação afia a consciência do crente. Mas, a transformação é gradual, não instantânea – e nunca será completa durante esta vida – isto é confirmado por vários versos das Escrituras.

A Bíblia ensina que, nesta vida, os cristãos nunca alcançarão a perfeição de não pecar mais. “Quem pode dizer: purifiquei o meu coração, limpo estou do meu pecado?” (Pv 20,9). “Porque todos tropeçamos em muitas coisas” (Tg 3.2).  “Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós” (I Jo 1.8). Portanto, a santificação nunca será completa em nossa vida. [3]

D.A. Carson [5] explica que os defensores desta doutrina sustentam que a santificação, a perfeição e a uma vida sem pecado é possível aqui e agora, e que nós não temos que esperar pela glorificação quando todos o povo de Deus desfrutará da parousia, ela já está disponível a cristão.

Dallas Willard escreveu: “Na tradição cristã, a “formação espiritual” é um processo pelo qual esses traços de caráter nos controlam e permeiam cada vez mais à medida que caminhamos sob o jugo suave do discipulado, tendo Jesus como mestre. A partir do caráter interior, os atos de amor fluem de forma natural — porém sobrenatural — e transparente. É evidente que sempre haverá algo a ser melhorado, de modo que não corremos o risco de nos tornarmos perfeitos — pelo menos por um bom tempo. Nosso objetivo é sermos inteiramente controlados por Jesus ao andarmos constantemente em sua companhia. Como nosso irmão Paulo, para obter “conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, […] uma coisa faço: […] prossigo para o alvo” (Fp 3:8,13-14).” [5]

A Doutrina Perfeccionista é anti-bíblica e seu perigo é que ela distorce seriamente a mente humana. Imagine as contorções através do qual devemos nos colocar a iludir-nos a pensar que temos de fato alcançado um estado perfeito. Um amor perfeito renderia perfeita obediência. O único amor perfeito que este mundo viu foi o amor de Cristo, que exibiu perfeita obediência ao Pai. Jesus amou ao Pai perfeitamente e por isto Ele nunca pecou, seja intencionalmente ou por ignorância.

Luis A R Branco

 

Notas de rodapé:

[1] Grifo meu e que não consta no texto bíblico.

[2] David Smith, “As Epístolas de João”, do Expositor Testamento grego: Comentário (New York: George H. Doran Company, nd), 172.

[3] “Igreja Presbiteriana da Castanheira,” July 08, 2013, accessed July 8, 2013, http://www.ipbcast.com.br/single.php?id=810.

[4] CARSON, D.A. Themelios 35.1(2010): 1-3 (Editorial – Perfectionism)

[5] WILLARD, Dallas. A Grande Omissão. São Paulo: Ed. Mundo Cristão, 2008 (versão digital), página 13.

 

Bíbliografia:

AGOSTINHO, Santo. Patrística. Ed. Paulus (edição digital).

CARSON, D.A. Themelios 35.1(2010): 1-3 (Editorial – Perfectionism).

WILLARD, Dallas. A Grande Omissão. São Paulo: Ed. Mundo Cristão, 2008 (versão digital).

SMITH, David. As Epístolas de João, do Expositor Testamento grego: Comentário. New York: George H. Doran Company.

Anúncios
Tagged:
Posted in: Apologética