A justiça e o estrangeiro

Imagem“Ora, este foi o pecado de sua irmã Sodoma: ela e suas filhas eram arrogantes, tinham fartura de comida e viviam despreocupadas; não ajudavam os pobres e os necessitados” (Ez 16.49).

As Escrituras nos mostram que Deus se preocupa com o estrangeiro. Em Êxodo está escrito: “Não maltratem nem oprimam o estrangeiro, pois vocês foram estrangeiros no Egito” (Êx 22.21).

Vemos, então, que Deus espera que seu povo, não somente o Israel do Antigo Testamento, como o Israel espiritual que é a igreja, possa olhar pelo estrangeiro. O texto é claro na advertência: não maltratar e não oprimir, recusando-se a ajudar com os conselhos ou de outra forma, com ajuda financeira e de suprimentos.

Segundo Barbara Rumscheidt:

Há um tipo de pobreza que eu chamo de “pobreza antropológica”. Consiste em destituir o ser humano não só do que ele tem, mas de tudo o que constitui a sua história e essência – sua identidade, raízes étnicas, língua, cultura, fé, criatividade, dignidade, orgulho, ambições, direito de falar. […] Nós poderíamos continuar indefinidamente (1998, p. 93)

Em uma era cada vez mais globalizada, com estrangeiros a ir e vir a todo instante, não podemos nos esquecer das palavras do Senhor. Quando a exortação sobre o cuidado com o estrangeiro se repete em Levítico, ela é ainda mais enfática:

Quando um estrangeiro viver na terra de vocês, não o maltratem. O estrangeiro residente que viver com vocês deverá ser tratado como o natural da terra. Amem-no como a si mesmos, pois vocês foram estrangeiros no Egito. Eu sou o Senhor, o Deus de vocês (Lv 19.33-34). Neste texto, não só somos apenas exortados a receber os estrangeiros e a cuidar das necessidades deles, mas também a amá-los e a incluí-los na comunidade como um de nós, sem qualquer acepção. O verbo amar utilizado neste texto é o mesmo usado em Deuteronômio: “Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todas as suas forças” (Dt 6.5).

O amor que Deus espera que tenhamos pelo estrangeiro é um amor sincero, sem preconceitos, que inclui, abraça e integra.

Mateus 25.35 e 43 usam a mesma palavra ao compararem Jesus com o estrangeiro. Esse estrangeiro com o qual o Senhor se compara é o imigrante dos nossos dias. Como a igreja tem se preparado para socorrer os imigrantes? A nossa negligência em socorrer o imigrante será imputada contra nós como pecado.

Nossa missão entre os imigrantes deve ser independente de sua situação social, isto é, se ele é ou não é um imigrante documentado. O papel da igreja no mundo é o de receber, acolher, ministrar e apresentar Cristo a qualquer pessoa que chegar até ela. Isso não significa que a igreja apoiará qualquer fluxo imigratório, entretanto, uma vez que o imigrante chegou à igreja, devemos cumprir nosso papel cristão que é amá-lo e recebê-lo como um de nós.

immigrationÉ importante não tomar uma posição meramente moralista e com base em leis humanas que mudam todos os dias. No que diz respeito à conduta cristã, devemos nos voltar para as nossas raízes reformadas e dizer: Sola Scriptura. Como mencionamos, nossa autoridade final, no que diz respeito à fé e à ação, é a Bíblia – e ela é clara sobre nosso papel em acolher o imigrante. Como ensinava Arthur W. Pink: “O amor é a rainha de todas as graças!”.

Infelizmente, grupos cristãos que são guiados por xenofobismo têm a tendência de levantar uma bandeira moralista irreal no que diz respeito ao acolhimento ao imigrante. Como crentes, somos peregrinos nesta terra. De certa forma, todos nós somos imigrantes neste mundo – e seremos moradores no céu, que se tornará nosso lar permanente.

O sofrimento causado pelo holocausto no mundo é incomparável. As leis alemãs contra os judeus eram extremamente rígidas, e a população era encorajada a denunciar todos os judeus na Europa, na época do Nazismo. No entanto, havia algumas pessoas corajosas que arriscavam suas vidas e a de suas famílias para proteger os judeus. Será que nossa postura deve ser diferente? Será que devemos deixar os imigrantes à margem da sociedade atual? Será que devemos nos calar e nos manter passivos diante do sofrimento dos imigrantes?

O imigrante sempre teve parte nos planos de Deus. Em Hebreus 11.9, lemos que Abraão peregrinou em terra alheia, ali viveu e desfrutou as bênçãos do Senhor sobre sua vida. Aquela terra estranha que o acolheu serviu, no futuro, de “lar” para seus filhos. O único pedaço legal de terra que Abraão possuía foi aquele que ele comprou e lhe serviu mais tarde de sepultura (Gn 23.7-20). Mas isto não lhe impediu de ser uma bênção. Em Mateus 1, temos o registro da genealogia de Jesus Cristo; entre os nomes, consta o da prostituta estrangeira Raabe, que foi incluída na família de Deus e veio a fazer parte da genealogia do Salvador. Nem mesmo as prostitutas estrangeiras que hoje vendem seus corpos na Europa estão longe de serem alcançadas com a graça de Deus e de serem incluídas por Deus em seus planos. Certamente outras Raabes poderiam surgir na igreja se fôssemos menos preconceituosos. Na genealogia, consta também o nome de uma moabita chamada Rute, cujo estabelecimento em Israel foi marcado com muito trabalho e dificuldade. Mas ela igualmente foi acolhida e incluída na família de Deus, e veio a ser uma ascendente de Jesus Cristo. As Escrituras não apresentam qualquer tipo de discriminação contra o estrangeiro, e assim deve proceder a igreja.

A igreja deve estar preparada para esta nova forma missionária, levantando sua voz profética para que a justiça não seja negada aos imigrantes. Hoje, na maioria das capitais e das grandes cidades do mundo, existem imigrantes e estrangeiros oriundos dos mais diversos cantos do planeta; que privilégio o Espírito Santo está nos dando para cumprir Mateus 28.19-20 em nossa própria terra.

Rev. Luis A R Branco (Extraído do seu livro Justiça: Uma Perspectiva Bíblica)

Bibliografia:

RUMSCHEIDT, Barbara. No Room For Grace. Michigan: Willian B. Eardmans Publishing Company, 1998.

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