A missão da igreja na pós-modernidade

Posted on 3 de Junho de 2013

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ImagemVivemos em uma época delicada para igreja, e alguns países, historicamente reconhecidos por suas raízes cristãs, estão cada vez mais afastados do cristianismo bíblico, e alguns destes, em especial no hemisfério norte, caminham a passos largos na direcção de um pós-cristianismo, caracterizados por suas tendências anti-cristãs. Trata-se de uma época em que a igreja é empurrada para a clandestinidade.

Quando pensamos nestes aspectos algumas perguntas nos vêm a mente: Será este momento em que vivemos um ataque satânico contra igreja? Ou será este um momento em que o Deus Eterno executa a sua justiça contra igreja? Sinceramente, não sei dizer precisamente quais dos dois, se calhar, para desgosto de alguns, prefiro crer que se trata de um momento histórico, em que Deus de facto executa a sua justiça no mundo, e na igreja. E na execução do propósito divino, todos os seres espirituais e temporais, serão instrumentos dos designos de Deus para trazer a cabo a sua vontade soberana.

David Macdonald Paton, em seu livro Christian Missions & The Judgment of God escreveu uma frase intrigante: “A nossa tese é que o Julgamento de Deus está sendo executado hoje sobre a sua igreja através dos movimentos políticos que são anti-cristãos.” [1]. Obviamente que é muito mais cómodo para a igreja dizer que o que vai mal é culpa de Satanás, pois reconhecer a soberania de Deus a governar aquilo que entendemos como caos social, exige da igreja uma postura, e o seu comparecer humildemente diante do Senhor e dizer como disse o profeta Daniel:

“Ah! Senhor! Deus grande e tremendo, que guardas a aliança e a misericórdia para com os que te amam e guardam os teus mandamentos; Pecamos, e cometemos iniqüidades, e procedemos impiamente, e fomos rebeldes, apartando-nos dos teus mandamentos e dos teus juízos; E não demos ouvidos aos teus servos, os profetas, que em teu nome falaram aos nossos reis, aos nossos príncipes, e a nossos pais, como também a todo o povo da terra.”

– Daniel 9:4-6

É importante perceber que apenas quando a igreja assumir sua responsabilidade diante de Deus é que poderemos voltar a ter esperança em nossa missão como igreja no mundo. O que acontece é que não há mais distinção entre a igreja e o mundo, dizemos que somos diferentes, mas na verdade, estamos iguais ao mundo. E quando dizemos isto, o que queremos dizer é que a vida dos crentes não têm sido distinta da vida dos não crentes. É importante ter uma visão mais abrangente daquilo que chamamos de valores morais. Hoje, basicamente a igreja reconhece como pecados morais apenas aquilo que é de ordem sexual, adultério, prostituição, fornicação, homossexualidade, etc. No entanto fecha os olhos para o abuso do poder, usurpação de bens, negligencia social, negligencia missionária, etc.

Quando olhamos para a nossa missão no mundo, devemos nos perguntar o que fazer e como fazer para inverter este processo de desvalorização da igreja na sociedade e da vida cristã como um todo. David M. Paton não fala do julgamento de Deus sobre a igreja como uma sina inevitável, mas, ao contrário, ele diz: “Nós vivemos em um mundo, e neste mundo temos uma missão.” [2]. Qual é a nossa missão? Sermos testemunhas de Jesus. E aqui faço questão de utilizar a palavra grega usada por Lucas em Atos 1:8 – μάρτυς (mártir). Ao fazer uso da palavra mártir removemos a ideia da testemunha poderosa, vaidosa, revestida de um pseudo poder, e a substituímos pela imagem da testemunha sofredora, disposta a sacrificar tudo pela causa de Deus. Na história temos o testemunho de duas crentes, Perpétua e Felicidade (Séc. III), presas por sua fé em Cristo, foram executadas como parte das festividades do aniversário do Imperador Geta. Estas duas mulheres, uma delas com um bebé recém nascido, enquanto aguardavam o dia da execução, em vez de demonstrarem medo, ou mesmo ódio por seus executores, impressionaram os guardas com a paz que dominavam seus corações e com a coragem, e espiritualidade com a qual enfrentaram a morte.

O filósofo francês Gilles Lipovitsky escreveu: “Ao contrário do que se verificava no passado, a Igreja já não privilegia as noções de pecado mortal, já não exalta o sacrifício ou a renúncia… De uma religião centrada na salvação no Além, o cristianismo passou a ser uma religião ao serviço da felicidade terrena, colocando a ênfase nos valores da solidariedade e do amor, na harmonia, na paz interior, na realização total da pessoa.” [3].

Na verdade no lado de dentro da igreja enfrentamos duas tendências, uma é aquilo que podemos considerar como uma espécie de humanismo cósmico, onde todas as forças e favores divinos estão voltadas para a satisfação dos caprichos do homem, e, portanto, os que seguem esta tendência tomam posse, decretam, dão ordem, conclamam e expulsam, conforme bem entendem. A outra tendência é a fria ortodoxia, onde tecnicamente tudo acontece como se fazia há dez, vinte, trinta, cinquenta, cem anos atrás. A isto chamam de cristianismo, é até histórico, mais é morto, é feito sem fé, e “sem fé é impossível agradar a Deus” (Hebreus 11:6).

ImagemEstamos diante de grandes desafios, e por mais que eu ame a igreja, por mais que eu esteja disposto a morrer ao seu serviço, a menos que haja uma mudança radical em nossa postura como participantes do reino de Deus, veja bem, não digo a menos que sejamos meramente ‘crentes’, mas sim, a menos que sejamos participantes activos do reino de Deus, a igreja da nossa geração irá passar como tantas outras passaram na história. Hoje em dia já não se é cristão “tal como se respira”, portanto, precisamos de uma reforma individual, e uma reforma institucional. Como diziam nos dias após a Reforma Protestante: “Ecclesia semper reformanda est”.

No Séc. XVIII, o evangelista João Wesley, ia para a entrada das minas no Reino Unido, na hora em que os trabalhadores terminavam o trabalho, então subia numa caixa e ali pregava o evangelho, milhares de pessoas foram atraídas ao evangelho através de João Wesley, no entanto, esta estratégia já não funciona em nossos dias, o homem pós-modernos exige mais que boa oratória, que uma boa visibilidade, e uma boa voz. Necessitamos do mesmo Espírito que capacitou Wesley, mas necessitamos também de estratégias relevantes para este tempo.

O Apóstolo Paulo diz que o evangelho “é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê” (Romanos 1:16). Então precisamos pedir a Deus sabedoria, estratégia e poder para comunicar o seu evangelho em nossa geração.

Luis A R Branco

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Bibliografia:

[1] David MacDonald Paton, Christian Missions and the Judgment of God, 2nd ed. (Grand Rapids, Mich.: Eerdmans Pub Co, 1996), pág. 49.

[2] Idem, pág. 43.

[3] Gilles Lipovetsky, A Felicidade Paradoxal: Ensaio Sobre a Sociedade do Hiperconsumo. Lisboa: Edições 70, 2007, pág. 111-112.

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