“Levanta-te, faze-nos deuses, que vão adiante de nós…”

Posted on 3 de Maio de 2012

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“Levanta-te, faze-nos deuses, que vão adiante de nós…” (Êxodo 32:1)

O capítulo trinta e dois de Êxodo tinha tudo para ser a narrativa de um grande facto na história da humanidade, mas a idolatria ofuscou este grande momento. O texto narra a descida de Moisés do Monte Sinai com as tábuas da lei nas suas mãos.

Há alguns detalhes especiais nesta narrativa: Uma é o facto desta ser a primeira vez na história da humanidade, da qual temos conhecimento, que a Palavra de Deus deixava o ambiente da sua tradição oral para o ambiente da tradição escrita. Outro facto muito importante, é que estas tábuas escritas não eram tábuas qualquer, eram escrituras da própria mão de Deus (v.15-16). Entre todas as coisas que Deus criou, apenas duas ele criou com suas próprias mãos, o homem (Gn 2:7) e as tábuas da lei (Ex 31:18).

O que torna este momento especial é a junção destes dois factos, a tradição escrita da Escritura Sagrada toma sua forma com os próprios dedos de Deus. No entanto, o povo estava tão acostumado aos ídolos que, ao invés de aguardar com expectativa, temor e alegria pelo retorno de Moisés, se entregam aos seus próprios caprichos e buscam para si um deus segundo os seus próprios ideais.

O mundo actual quer uma espiritualidade instantânea, capaz de ser fabricada em minutos. No entanto, espiritualidade não se fabrica se desenvolve num exigente processo de relacionamento com Deus. O povo de Israel não tinha tempo para esperar, queria um deus o qual eles pudessem por onde desejassem, um deus que eles pudessem construir com suas próprias mãos, um deus o qual pudessem agregar valor e quando se fartassem dele, fundí-lo com outro ou descartá-lo se assim desejassem.

Eles não queriam um Deus Santo, um Deus que se afirmasse no universo como “único” – echad (Dt 6:4) – Deus. A força desta afirmação da singularidade de Deus no universo era considerada uma completa arrogância no mundo totalmente politeísta daqueles dias. A verdade é que os seres humanos gostam de ídolos, e por isso pediram a Arão: “Levanta-te, faze-nos deuses, que vão adiante de nós…” (Êxodo 32:1).

Eis aqui um dos grandes desafios ministeriais destes dias: “as pessoas esperam que sejamos fabricantes de deuses”. Tal como naqueles dias, não estão interessados no que a Escritura diz, querem uma espiritualidade qualquer que produza um efeito imediato em suas almas vazias de Deus e da sua Palavra. A ênfase destes dias está totalmente na experiência, no que eu acho, no que eu quero acreditar, e na escolha de textos isolados da Bíblia torcidos a bel-prazer para justificar as aberrações desesperadas da alma idolatra.

A idolatria é um pseudo atalho para se chegar a Deus, mas para se chegar a Deus não há atalhos possíveis, há um caminho. Em João 14:6 vemos Jesus se levantando em meio a este mundo idolatra com sua gloriosa afirmação: “…ninguém vem ao Pai, senão por mim.” Este Jesus é o Logos (Palavra) de Deus (Jo 1:1). Assim como nos dias de Moisés os homens rejeitaram a Palavra Escrita devido seu envolvimento com a idolatria, nos dias atuais, rejeitam a Palavra Encarnada pelos mesmos motivos. No entanto, os dias mudaram, evoluíram, se assim podemos dizer. Hoje não é a imagem de um bezerro que atrai as pessoas, o humanismo colocou o homem no centro da sua própria adoração, numa espécie de “autolatria”. No entanto, esta autolatria toma forma através do projectar nos outros aquilo que eu desejo ser, mas que de alguma forma não consigo. É assim que acontece na igreja, as pessoas projectam em pastores, músicos, etc. aquilo que desejariam ser, mas não são. São ídolos, que iguais aos bezerros de ouro, são passíveis de manipulação.

Tal como nos dias de Êxodo 32, vivemos um momento singular na história, um momento que o escritor aos Hebreus descreveu de maneira majestosa: “Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho.” (Hebreus 1:1). O Filho de Deus é o Logos de Deus, a Palavra Encarnada, mas igualmente nos dias de Moisés as pessoas estão distraídas demais com seus ídolos para se aperceberem da grandiosa riqueza que é adorar a Jesus, crer nele e serví-lo de todo coração, e a ele somente!

Soli Deo Gloria!

Re. Luis A R Branco

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Posted in: Apologética