O colonialismo missionário

Posted on 14 de Maio de 2011

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Os países europeus se lançaram à conquista do mundo a partir do século XV. Saíam a navegar pelos mares, conquistando terras para seus impérios, conquistando gentes, tomando posse de riquezas, controlando sociedades. Este é o modelo imperial tão difundido, tão conhecido da história mundial.

Hoje em dia a história continua com novos atores e velhas intenções. Se olharmos para os impérios de hoje podemos ver a mesma história a se repetir, num ciclo que está longe de acabar. Somente podemos perceber diferenças sutis nas formas de conquista dos povos, mas a conquista continua a mesma. Se antes levavam anos para difundir suas ideias numa tentativa de “civilizar” o nativo para torná-lo igual ao colonizador, hoje vemos uma aceleração devido aos modos de conquista e de comunicação: internet, televisão, música e diversos outros instrumentos que diminuíram o tamanho do mundo e aumentaram a velocidade da conquista.

No mundo missionário não é diferente. A Grande Comissão, dada por Jesus à sua igreja em Mateus 28:19-20, marcou o início da missão cristã, embora tenham existido outros mensageiros, tais como os patriarcas, juízes, profetas e até reis no Antigo Testamento, que também foram arautos de Deus na proclamação da sua mensagem ao mundo. Enquanto no início a evangelização tenha tido como foco central a pregação aos judeus, vemos logo o mundo inteiro sendo alvo das boas novas através da obra missionária de Paulo e seus companheiros. Como fruto do esforço missionário dos primeiros cristãos, o evangelho chegou ao coração do império da época: Roma.

Naquela época o mundo era praticamente romano, a cultura romana reinava sobre a maioria dos povos do Ocidente e outras regiões remotas do mundo antigo, portanto, o evangelho não foi levado de um colonizador para uma colónia, mas ao contrário, foi levado da colónia para o colonizador. A cultura romana que imperava sobre os judeus não foi abalada, conquistada, civilizada. Se o evangelho mudou o mundo da época não foi através do imperialismo romano, foi através da mudança de vida das pessoas que entravam em contato com o evangelho, podemos dizer que foi uma mudança de dentro para fora, ou de baixo para cima ou ainda, do menor para o maior. Até que Constantino decidisse tornar o cristianismo como religião oficial, os cristãos conquistavam o mundo, uma pessoa de cada vez.

Então veio a massificação da religião, a religião tornada em Estado e vice-versa. O processo histórico que resultou desta junção é bem conhecido, queremos salientar o ponto em que chegou, nas cruzadas, na tentativa de conquistar o mundo pela força, como faziam, afinal, os grandes impérios. Os cristãos passaram de perseguidos a perseguidores e a partir daí os Estados passaram a usar a desculpa de cristianizar o mundo para fazerem as maiores barbaridades em nome da religião.

Neste ponto o que encontramos? Chegamos aos últimos séculos de nossa era, do século XV ao XX com os grandes impérios europeus a conquistar e a cristianizar as colónias. África, Ásia e Américas foram transformadas pelos impérios português, espanhol e Inglês, para citar os maiores. O cristianismo chegou aos confins da Terra pelas mãos dos colonizadores. A questão é: que tipo de cristianismo?

Primeiro um cristianismo mais interessado nas riquezas que nas almas, em civilizar nativos do que em apresentar o amor de Cristo, mais interessada em satisfazer as vontades dos governantes do que de Deus. Em segundo lugar, já bem próximo de nossa era, um cristianismo interessado em consertar os erros do passado, em chegar verdadeiramente aos confins da Terra, mas que ainda tem muito para caminhar e despir-se de suas velhas roupagens culturais.

Assim como os impérios de antigamente, a intenção civilizatória continua intensa em algumas missões. O que se passa com as missões modernas que querem levar o nome da sua tradição, a bandeira de sua denominação e a cultura de seu país para os campos missionários? Não é esse nosso papel. Nosso ideal de missão, nossa responsabilidade missionária é com o evangelho, não com nossa cultura de origem. Quando vamos deixar de continuar a tentar forçar o processo civilizatório nas “colónias” pelo mundo afora?

O evangelho enquanto foi transmitido de pessoa à pessoa, sem a força do imperialismo romano, foi o evangelho mais sofrido, mas foi o que – se olharmos para as condições da época – chegou mais longe. E se comparmos a velocidade e eficácia deles na Grande Comissão, com a nossa, mesmo com todas as nossas ciências e tecnologias, eles foram muito mais bem sucedidos do que nós. As missões modernas precisam voltar a olhar para os antigos modelos bíblicos.

Escrito por Lidiane Branco (Licenciada em Serviços Sociais pela Universidade Federal Fluminense do Rio de Janeiro e Mestre em Antropologia Cultual e Social pela Universidade de Lisboa).

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