Aquele Que Salvou Uma Vida, Salvou o Mundo Inteiro

Posted on 1 de Dezembro de 2010

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O Talmud (Mishnah Sanhedrin) diz que “aquele que salvou uma vida, salvou o mundo inteiro”. Esta é uma bela frase para descrever a realidade missionária, não apenas pela ênfase na importância da “salvação”, como também pela ênfase na importância do “um”. Na atualidade, tanto a “salvação”, quanto o “um”, perderam sua importância nas nossas igrejas e consequentemente, na obra missionária.

Já há muito tempo que a salvação anda desgastada em nosso meio. Reduzimos todas as implicações da salvação em dois atos, fazer a oração do pecador[1] e ter o nome no rol de membros da igreja. As demais implicações, tais como convicção do pecado, contrição pelo pecado, confissão do pecado, conversão genuína e confissão da fé em Cristo diante do mundo foram substituídas por estes dois atos. Os apelos de hoje são voltados para o “aceitar a Jesus como Salvador”, e não para o “Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados, e venham assim os tempos do refrigério pela presença do Senhor” (At 3:19). Não é de se admirar que nossas igrejas estejam cheias de pessoas que carecem de salvação.

Mas não é apenas a igreja que precisa restaurar o significado da salvação, ela também anda desgastada no campo missionário. Substituímos a ênfase na salvação, pela ênfase nas boas obras e outros projetos que pouco se relaciona com a salvação do pecador. Sabemos que as obras são importantes, que as necessidades são muitas, e que as obras até podem vir a ser uma forma pela qual podemos mostrar o amor de Deus, mas os reformadores já nos mostraram com clareza na Palavra de Deus, que a salvação pela fé em Cristo deve ser a nossa mensagem central. O que acontece é que as obras muitas vezes tem servido até de desculpa para muitos que fogem de uma apresentação clara da mensagem da cruz, evitando assim o confronto e as exigências que a apresentação desta mensagem exige. O resultado desta atitude é um grande número de “crentes” não salvos. Lembro-me do livro “Brincando nos Campos do Senhor”, escrito por Peter Matthiessen, que descreve um indigena, considerado pela missão como um dos convertidos mais firmes na fé, mas que na realidade era o assassino de um dos missionários que tinha ido trabalhar entre os índios na floresta. A falta de uma mensagem salvadora bíblica tem produzido um tipo de cristão estranho, e longe de um verdadeiro encontro com o Cristo cruscificado. É necessário rever nossa mensagem e voltar a dar a importância devida a mensagem da salvação.

A frase do Talmud também fala da importância do “um”. O número um talvez seja o mais desprezado, mais desprezado que ele, só o zero à esquerda. Nós gostamos de números maiores, de preferência números com vários algarismos. No entanto, a Bíblia fala muito de números singulares. Os números singulares são os de maior importância na Bíblia, por exemplo, “um” é o número de Deus[2]; “dois” é o par perfeito, Noé é instruído a salvar dois animais (pares) da mesma espécie[3]; “três” é o número da Santíssima Trindade[4]; “quatro” foram os Evangelhos[5]; “cinco” foram os livros da Lei que formam o Pentateuco; e por ai vai… O número um recebe também um destaque em Romanos, onde é mencionado cento e sete vezes. O Apóstolo Paulo fala da importância de “cada um”[6], e também nos mostra que todo o pecado do mundo teve origem em “um só”[7] homem, e que por intermédio de “um só”[8] homem recebemos a abundância da graça e o dom da justiça. Portanto, não precisamos temer os pequenos números.

É importante que o número um volte a ser relevante na causa missionária. O obreiro não precisa se intimidar e muito menos se envergonhar do número um, pois aquele que salvou uma vida, salvou o mundo inteiro. Esta não é uma chamada ao conformismo e a estagnação, mas um chamado para a valorização de cada uma das pessoas que Deus coloca no nosso caminho. Muitos missionários, intimidados pela pressão que recebem de suas igrejas, esfomeadas por números de vários algarismos, deixaram de investir e valorizar os pequenos eventos e a singularidade das pessoas que cruzam seus caminhos. Na realidade as coisas estão meio bagunçadas mesmo, o importante hoje não é salvar “uma alma”, mas plantar igrejas. Não há nada de errado com o plantar igrejas, desde que não nos esqueçamos que a igreja é a pessoa. O negócio é que quando falamos que estamos plantando igrejas ao invés de salvar almas, damos aos nossos mantenedores um gostinho de números com vários algarismos. Se o missionário ceder a esta pressão adoecerá na sua alma e perderá a essência da sua mensagem.

Lembro-me de uma vez que visitei uma grande igreja num pequeno, mas populoso país muçulmano do sul da Ásia, esta igreja já havia plantado algumas dezenas de igrejas no país, fruto do trabalho de um obreiro nacional. No entanto, o missionário que ganhou este obreiro para Cristo, serviu naquele país por quase vinte anos sem nunca ter ganhado mais ninguém para Cristo ou estabelecido uma única igreja. Após quase vinte anos de exaustiva insistência, foi levado de volta para seu país de origem, deixando ali um único convertido, genuínamente convertido. O resultado do investimento na vida deste único convertido, foram milhares de vidas salvas e dezenas de igrejas estabelecidas em vários cantos do país. Nunca seremos capazes de presumir o impacto do “um” marcado pela mensagem da cruz de Cristo.

Vou terminar por aqui, com uma oração de agradecimento pelos “uns” que encontrei pelo caminho, na jornada missionária. Lembro-me com saudade das conversas com “um” imam na escada de uma pequena e pobre mesquita na Índia onde falávamos com ternura sobre Jesus, lembro-me com saudade dos muitos cultos em que minha esposa e eu celebramos com “uma” convertida indiana em nossa casa, lembro-me com saudade das longas viagens de lambreta, durante meses e meses, com chuva ou sol, para levar o evangelho a um único homem numa aldeia distante da Índia. Poderia escrever aqui dezenas relatos marcantes envolvendo “um” ou “uma”, mas não há tempo. Na realidade, quando olho para trás, depois de anos e anos no campo, foi justamente “cada um” daqueles que cruzaram nossos caminhos, que deixaram uma marca profunda na nossa vida e nos fazem pensar que vale à pena servir a Deus!

Até que “cada um” tenha ouvido o evangelho,

[1] A oração do pecador é uma oração feita por um pastor evangélico e repetida pela pessoa que se converte, no instante da sua conversão, e que é utilizada em muitas igrejas evangélicas.

[2] Dt 6:4; Zc 14:9.

[3] Gn 7:2.

[4] Is 6:3; Ap 4:8.

[5] Mateus, Marcos, Lucas e João.

[6] Rm 2:6; 14:12.

[7] Rm 5:17.

[8] Rm 5:17.

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