A Mirta e a Problemática da Missão

Posted on 28 de Junho de 2010

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Ontem à noite enquanto arrazoava com meus botões sobre a problemática missionária, me veio uma saudosa lembrança de uma irmãzinha conhecida como “irmã Mirta”. Não sei porque meus pensamentos foram parar em um passado tão distante. Talvez devesse ocupar meus pensamento com outras figuras mais proeminentes na problemática missionária, quem sabe David Bosh, Timóteo Carriker ou Patrick Johnstone, mas ao contrário, foi a Mirta que ocupou meus pensamentos.

A Mirta era uma irmã por volta de seus 45 anos, muito envolvida com sua igreja local, uma igrejinha estabelecida numa cidade pequena nos arredores de Belo Horizonte. A igreja da Mirta era realmente pequena, mas os cultos estavam sempre cheios. Nos fundos da igreja morava o pastor e a família, a imagem que tenho dele é a de um guerreiro que lutava para conduzir aquelas pessoas simples à pessoa de Cristo. O que não faltava naquele lugar era necessidade e trabalho, e a Mirta era uma fiel cooperadora. Conheci esta igreja nos meus estágios nos fins-de-semana, quando estava em Belo Horizonte me preparando para o ministério.

O que me encantava na Mirta era a sua paixão missionária. Ela sonhava com missões e desejava muito servir a Deus no campo missionário, mas devido às responsabilidades familiares, era mãe de um punhado de filhas e seu esposo era funcionário público, não tinha como ir, mas isto não a impedia de fazer missões.

Toda a sua família era envolvida com a causa missionária, tal como a pequena igreja, devido a influência da Mirta. Sua casa era uma verdadeira “base missionária”, havia sempre alguns missionários por lá, chegando, saindo ou simplesmente indo comer seu delicioso feijão tropeiro e outros quitutes. Mirta e sua família marcaram a vida de todos os missionários que passaram por lá, que tal como eu, nunca mais esquecerão seu carinho, seu encorajamento, seus choros e sorrisos e sua paixão por missões. A Mirta não era só envolvida, mas preparada, havia feito vários cursos de caráter missiológico, era uma verdadeira missionária.

Enquanto arrazoava, me dei conta que missões pode vir a ser mera falácia, tema de conferências, simpósios, seminários e conversas. Me impressiona o número de movimentos em torno de missões, pessoas que vivem nos corredores da causa missionária e tudo não sai disto. Missões não está institucionalizada, limitada a boa-vontade da igreja e organizações. Nem mesmo está presa aos congressos, conferências e salas de aula. Missões não é luxo das igrejas que dispõe de algum recurso, aliás é bom dizer que nem sempre o dar é fazer missões. O importante não é quanto dinheiro é dado para missões, mas o quanto ele produz de resultado prático na expansão do evangelho. Missões também não está presa aos caprichos das lideranças eclesiásticas. Missões não é prerrogativa de alguns que se dispuseram a ir, aliás é bom dizer que nem todo “ir” é fazer missões. O importante não são quantos missionários são enviados, mas quantos povos não alcançados recebem o evangelho. Missões nem tão pouco está presa aos círculos acadêmicos de Lausanne, AMTB e outros. Missões deve ser uma iniciativa individual, um envolvimento consciente e responsável de cada crente com a obra missionária.

Hoje não é só a igreja que precisa ouvir falar de missões, mas até mesmo as agências, e inclusive missionários precisam ser despertados para uma conscientização responsável para com a problemática missionária. É ridículo ver que algo como missões tem servido de trampolim para a auto-promoção de pessoas que no fundo nada fazem. Missões não é simplesmente levantar um determinado valor em dinheiro por ano e mandar para outros fazerem missões por nós. Missões é uma tarefa pessoal intransferível e impagável. É a tomada da responsabilidade, é o envolver-se de forma comprometedora, é o chorar e rir com os que vão, é o ir, mas o também ficar e sustentar, é o estar também na beira do caminho daqueles que já foram e proporcionar algum encorajamento, é o dar, mas também o receber, é não só encorajar nossas igrejas a irem, mas encorajar nossos próprios filhos, tal como fizeram os morávios. É o preparar os outros para irem, mas também ser preparado. Missões não pode simplesmente ser realizada na “boa-vontade”. É preciso paixão, mas também preparo.

Quando a coisa é feita de qualquer maneira as conseqüências surgem mais cedo ou mais tarde. Se missões não for uma questão individual, uma responsabilidade que todos devemos assumir, continuaremos a passear pelos corredores das conferências, dos seminários, dos cultos missionários, sem resultado algum.

 

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