Experimentando Deus no Cotidiano

Posted on 21 de Junho de 2010

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O grande desafio da vida cristã é o cotidiano. Levantar cedo, preparar o desjejum, levar os filhos para escola, trabalhar, dar atenção à família, pagar as contas, regar as plantas, fazer compras, deitar o lixo fora e arrumar a casa são apenas algumas das muitas atividades que temos que cumprir diariamente. E como crentes, acrescentamos a estas atividades a oração, leitura bíblica e de livros cristãos, além de termos que ir a igreja uma ou duas vezes na semana. Como encontrar condições para uma vida espiritual que envolva todo cotidiano? Certamente que é muito mais fácil relacionarmo-nos com Cristo na igreja e nos momentos devocionais privados. Mas fora estes momentos tidos “espirituais”, como fazer? Será possível que Deus esteja de fato interessado em um relacionamento tão intenso conosco ao ponto de envolver toda a vida? Será possível viver tamanha vida espiritual e mesmo assim dar seguimento a todas as minhas responsabilidades diárias?

Certamente que estas são perguntas que sempre surgem na nossa mente quando somos desafiados em nossa vida espiritual. Como ministros do evangelho, certamente que nesta área temos algum privilégio sobre as demais pessoas na igreja, mas posso garantir que a vantagem não é assim tão grande. Somos igualmente presos ao tempo. Levanto-me todos os dias cedo, faço minha higiene pessoal, levo minha filha para a escola, volto para casa e faço meus desjejum com minha esposa e filha menor, se necessário faço alguma atividade doméstica que depende de mim, depois sigo para o escritório na igreja. Quando chego ao escritório há inúmeras atividades que me aguardam, cartas e e-mails para responder, exames e trabalhos dos alunos do curso bíblico para corrigir, telefonemas a fazer, decisões a tomar, etc. Tenho ainda pessoas para receber, outras para visitar, mensagens e estudos bíblicos para preparar. Contas para pagar e compras para fazer. Tenho que buscar minha filha na escola, almoçar e preparar-me para alguma reunião no início da noite. E como todos os demais crentes mortais, preciso de tempo para oração e leituras. Confesso que não é fácil!

Nesta nossa vida ocupada tudo funciona como uma engrenagem, um evento nos leva ao outro até que tenhamos concluído todas as tarefas do dia, ao final deitamos na cama e soltamos um longo suspiro. E quando algum incidente acontece e atrapalha o programa, sentimos o peso da sobrecarga, o cansaço aumenta, o temperamento e o humor são afetado, nos aborrecemos com facilidade com os filhos e cônjuges, dizemos palavras sem pensar e acabamos por ofender alguém, e chegamos ao final do dia terríveis. Confesso que quando meu dia é assim, não consigo ir direto para cama, preciso ordenar meus pensamentos, refletir sobre minhas ações e palavras, e muitas vezes lamento profundamente certos comportamentos e percebo o quão distante estive de Cristo naqueles momentos.

Não estou aqui sentado no meu computador, como alguém que já superou todos os seus desafios do cotidiano. Enquanto escrevo esta linha dou uma ligeira olhada pela janela, vejo as árvores, olho ao redor e vejo meus livros sobre a mesa organizados sem que as mãos pequeninas das minhas filhas estejam a folheá-los em busca de alguma figura interessante, há um silêncio gostoso, uma serenidade no meu coração, sinto-me rodeado pela doce presença de Cristo que coroa este ambiente maravilhoso. No entanto, o cotidiano não é sempre assim. Imagino que o seu também não será sempre assim. Mas percebo que Deus não deseja estar fora dos momentos que compõe o nosso dia. A pergunta é como? Como viver a beleza da fé e do relacionamento com Deus fora de um ambiente como este que encontro no meu escritório nesta hora?

Em primeiro lugar é preciso lembrar que a maioria dos eventos bíblicos aconteceram no cotidiano de pessoas comuns que amavam a Deus. Ao passar pelas páginas da Bíblia vemos ver que foram homens e mulheres a viverem suas vidas, uns lavravam a terra, outros faziam negócios, outros pescavam, outros pastoreavam ovelhas, outros governavam, outros construíam, outros patrulhavam, outros guerreavam, outros visitavam alguém, outros dormiam, e obviamente alguns oravam, liam e pregavam. Mas todos os eventos bíblicos aconteceram no cotidiano de pessoas comum. Um olhar pelas páginas da Bíblia nos ajuda a descobrir que é possível ouvir a voz de Deus enquanto se cuida de ovelhas, que é possível ter o curso da nossa vida mudado enquanto se cumpre o trabalho de pescador ou coletor de impostos. Observamos também que é possível ter o coração aquecido enquanto viajamos de uma cidade para outra, e também que a simples visita a uma parente grávida pode resultar em uma experiência inesquecível como aconteceu com Maria e Isabel. Mesmo deitado exausto na cama, depois de um dia atarefado é possível ouvir a voz de Deus a nos chamar pelo nome, e ter sonhos maravilhosos com os anjos de Deus. E até mesmo, num casamento podemos ver um milagre como conseqüência da presença de Cristo. Nos momentos difíceis, como o da doença, da morte e da adversidade também é possível vive-los com Cristo. E como é óbvio, na oração, adoração, e pregação também observamos homens e mulheres envolvidos em intensas experiências com Deus.

A experiência de Deus não está restrita a momentos tidos como espirituais, é algo maravilhoso e disponível desde o levantar até o deitar. Como escreveu o salmista: “SENHOR, tu me sondas e me conheces. Sabes quando me assento e quando me levanto; de longe penetras os meus pensamentos. Esquadrinhas o meu andar e o meu deitar e conheces todos os meus caminhos.”[1] E ainda: “Para onde me ausentarei do teu Espírito? Para onde fugirei da tua face? Se subo aos céus, lá estás; se faço a minha cama no mais profundo abismo, lá estás também; se tomo as asas da alvorada e me detenho nos confins dos mares, ainda lá me haverá de guiar a tua mão, e a tua destra me susterá.”[2] A onipresença de Deus não está apenas na sua capacidade de estar em todos os lugares ao mesmo tempo, mas também é a sua capacidade de estar presente em todas as circunstâncias da vida, no cotidiano de homens e mulheres em todos os cantos do mundo. A questão não é se Deus estará lá, mas se sou consciente da sua presença. Charles Spurgeon disse certa vez: “Em quarenta anos nunca passei quinze minutos acordado sem pensar em Jesus”.

Os reformadores contribuíram imensamente para a experiência de uma espiritualidade integral através da famosa frase latina coram Deo. Ouvi sobre coram Deo há muito tempo atrás, nunca mais esqueci seu significado. Coram Deo significa literalmente “perante a face de Deus”. É o viver consciente do crente diante da presença de Deus. Não se trata de um viver comum, mas de um viver consciente da sua presença e uma completa submissão à sua autoridade. É a consciência de que em tudo que nos envolvemos, seja onde for, os olhos de Deus estão sempre sobre nós. Isto não acontece apenas na igreja, ou no domingo pela manhã, mas como vemos nas páginas da Bíblia, em qualquer lugar do mundo, em qualquer atividade da vida, seja em que circunstância for, os olhos de Deus estão sobre nós e eles nos acompanham em todo percurso com sua doce presença.

Quando nos levantamos pela manhã os olhos do Senhor estão sobre nós, quando saímos pela rua, os olhos do Senhor estão sobre nós, quando trabalhamos os olhos do Senhor estão sobre nós, e até mesmo quando dormimos, os olhos do Senhor estão sobre nós. Ele contempla cada passo que damos, ouve cada palavra que falamos, lê cada pensamento que vem-nos a mente e conhece cada desejo que sobe ao nosso coração. Se formos capazes de absorver em nossa vida este entendimento, e viver coram Deo, iremos ver que é simplesmente impossível separar a ida à padaria da experiência da presença de Cristo em nós.

Coram Deo não significa apenas o gozar da presença, mas é também a nossa submissão à soberania de Cristo. É o entregar completo e constante da nossa vida a ele, para que ele nos conduza, nos molde e nos transforme conforme sua vontade para que Deus seja em tudo glorificado em nossas vidas. Mesmo cheio de poder, majestade e glória Deus tem prazer em manter seus olhos sobre nós. João Calvino escreveu: “A glória incompreensível de Deus não o induz a afastar-se para longe de nós, nem o impede de descer às profundezas de nossa miséria.”[3]

Rev. Luis A R Branco

 

[1] Salmo 139:1-3

[2] Salmo 139:7-10

[3] COSTA, Hermisten. Calvino de A a Z. São Paulo: Editora Vida, 2006, pág. , pág. 140.

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