O chamamento

Posted on 4 de Abril de 2010

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Estamos entrando em campanha missionária por aqui, como é costume em minha tradição evangélica, cada igreja é desafiada a alcançar um determinado valor que é destinado ao fundo missionário. No entanto, estou aqui arrazoando com meus pensamentos e meio que desestimulado, pois não sei ao certo o que fazer para estimular a igreja a envolver-se, nem sei se determinados projetos e necessidades me atraem. Desculpe-me a sinceridade, se calhar o defeito é todo meu, mas percebo que sinto saudades de ouvir um testemunho sobre o chamamento missionário de um vocacionado e sobre a sua paixão por um determinado povo. Nada assim tão elaborado, nem precisa ser algo estilo John Hyde, apenas um testemunho sincero de alguém que sabe quando Deus lhe chamou e para o que lhe chamou. Acho que cansei dos números, das estatísticas, das fotografias sensibilizadoras, e das histórias de uma terceira pessoa. Só queria ouvir um testemunho de um chamado claro e específico. Não sei o que aconteceu conosco, mas precisamos resgatar urgentemente a paixão em nossa vocação.

Acredito que precisamos falar mais sobre o chamado missionário, pois ele precisa ser genuíno. Creio que Deus deseja que todos os seus filhos se envolvam de uma maneira ou de outra com missões, e as vezes nossa tentativa por desmistificar o chamado e o apelo por torná-lo “genérico”, esfriou a paixão. Já que é tão simples e para todos, a paixão tornou-se sem sentido. Ela cedeu lugar a um bom preparo, um bom sustento e um bom projeto. Concordo que o chamado para um envolvimento missionário é para todos, no entanto apenas alguns queimarão as juntas de boi, deixando para trás toda uma vida, e tomando sobre si o chamamento missionário, seguirão os caminhos designados pelo Senhor (1 Rs 19:19-21). Quando a paixão genuína e específica é inexistente, a vida missionária soa mais como uma “boêmia missionária”.

Hoje, se calhar estou demasiadamente atrasado, mas formou-se outros tipos de vocação missionária, muito mais subjetivas. Já ouvi algumas coisas que não consigo entender o que querem de fato dizer, coisas do tipo: “Sou chamado para as nações! Sou chamado para servir onde houver necessidade!” E sem contar outros chamamentos estranhos, os quais prefiro não especificar, mas tudo muito subjetivo. Creio que Deus é objetivo ao chamar homens e mulheres para a obra missionária, é assim que observo o movimento missionário nas Escrituras e até na história recente da missão. No entanto, hoje prevalece um certo oportunismo, do tipo “se a porta abrir eu vou”.

Fico a pensar se esta subjetividade não tem forte relação com as crises missionárias dos nossos dias e que levou a missão a criar uma retaguarda para apoio psicológico dos que saem ao campo, o que reconheço como muito útil. No entanto, se as vocações fossem provadas, objetivadas e esclarecidas, por parte do vocacionado, as possibilidades de prejuízo psicológico seria sem dúvida muito menor. Não creio que adianta falar de cuidado missionário, sem antes reforçar a necessidade de um verdadeiro chamado, claro e objetivo. Talvez aqueles que são responsáveis pelas agências e por levantar vocacionados deviam se aperfeiçoarem em despertar a paixão no coração dos ouvintes, na esperança de que Deus chame alguns, ao invés de lançarem oportunidades na platéia, como se a disposição fosse tudo.

Enquanto isso não acontece, e as vocações genuínas desaparecem, fico aqui com os projetos, números, fotografias, e uma lista infindável de necessidades, enquanto me bastava hoje apenas ouvir um testemunho de alguém consciente do seu chamado e que seja capaz de na simplicidade das palavras incendiar meu coração com paixão por um povo.

Rev. Luis A R Branco

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