Papai, eu sou brasileira?

Posted on 20 de Março de 2010

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flag_brazil Há alguns dias minha filha, com apenas quatro anos, aproximou-se de mim e perguntou: “Papai, eu sou brasileira?” Então respondi: “É sim minha filha!” A pergunta teve origem em meio a uma brincadeira de crianças, onde ela e alguns amiguinhos que estavam a passeio por Portugal brincavam entre si.

Embora filha de pais brasileiros, minha filha nasceu na Noruega e está sendo criada em Portugal. Até recentemente, para ela o Brasil era apenas uma terra virtual, pois nunca havia pisado lá, apenas o conhecia por ouvir falar, das conversas por telefone com os avós que lá vivem e também dos muitos “vem-e-vai” de brasileiros que passam por nossa casa. A oportunidade de conhecer esta terra tão falada veio recentemente, com nossa ida de férias ao Brasil e depois numa viagem mais curta com a mãe e a irmã. Ao chegar ao Brasil, conheceu pessoalmente as pessoas que antes só conhecia por fotografias, conheceu os primos, tios, avós, e outros amigos. Ela brincou, correu, comeu, e se esbaldou naquela terra abençoada por Deus. Como minha esposa diz, no seu “minerês”, parecia um “pinto no lixo”.

A volta para Portugal foi sofrida e chorosa, não que ela não gostasse de Portugal, mas deixar o Brasil, para essa “brasileirinha”, era doloroso, pois ali estava a sua identidade. Ao chegar em Portugal, a vida voltou ao normal, mas agora o Brasil já não lhe era mais virtual e desconhecido, e sim um lar prazeroso. Ela não fala muito no Brasil, mas agora, quando precisa, sabe afirmar a sua identidade e dizer: “sou brasileira”.

A pergunta de minha filha não era a pergunta do desconhecimento, mas da necessidade de afirmação diante de seus coleguinhas, da sua identidade. É o sentimento do pertença. Ela pouco sabe das vantagens e desvantagens de ser deste ou daquele país, isto ainda é muito abstrato para sua pequenina cabeça, o que é claro é a necessidade de saber quem é, e poder afirmar: “sou brasileira”.

Afirmar a sua identidade não é desprezar a dos outros, nem mesmo uma ingratidão ao povo que lhe acolhe, mas sim o encontro consigo mesmo, com as suas origens e raízes. Aquele que nega suas raízes e suas origens, nega a si próprio, e viverá em confusão. Não importa de onde venho, qual a minha nacionalidade, ou família. Estes são elementos que não posso mudar. Mesmo que adquira uma outra nacionalidade, ou seja adotado por uma outra família, haverá sempre aqueles elementos próprios e singulares, que me mostram de onde venho e onde estão minhas raízes. Negá-las nunca me ajudarão ou me darão uma outra identidade, ao contrário me levarão à confusão e a infelicidade.

Há uma pressão externa, talvez maligna, que tenta nos fazer negar ou fugir daquilo que somos. Lembro-me do dia em que precisava tratar de um assunto em uma repartição pública em Portugal, algo relacionado a minha filha nascida aqui, mas que é brasileira, e a pessoa me disse: “Você deve tirar a nacionalidade portuguesa da sua filha.” Este funcionário público dizia isto, pois havia uma burocracia que estava sendo mal aplicada e que impedia minha filha de gozar de seus direitos de ser “gente”, não é nem brasileira ou portuguesa, mas simplesmente gente. Ironicamente eu disse a funcionaria: “Será que as pessoas não podem perceber que nem todo mundo quer ser português?” Há pessoas que apenas querem ser quem elas são, sem constrangimentos, e sem que tenham que sofrer por isso.

Barbara Rumscheidt escreveu: “Há um tipo de pobreza que eu chamo, a pobreza antropológica. Consiste em destituir o ser humano não só do que eles têm, mas de tudo aquilo que constitui a sua essência e a sua identidade, história, raízes étnicas , língua, cultura, fé, criatividade, dignidade, orgulho, ambições, direito de falar … e podíamos ir em indefinidamente” (Rumscheidt, 1998: 53).

Essa pobreza é a pobreza de espírito, de capacidade intelectual para raciocinar indiscriminadamente. Nem todo mundo quer ser português, norueguês, americano ou brasileiro, a maioria deseja ser apenas quem são e mesmo assim gozar dos seus direitos.

Este é o quinto país onde tenho o privilégio de viver, em todos eles me alegrei, fui amado, amei, e também tive minhas dores. Jamais desejei “ser” de qualquer um deles, além daquilo que Deus me enviou para ser, um missionário. Não que seja contra o adquirir a cidadania do país onde se vive, desde que não seja uma fuga das suas origens, uma negativa da sua identidade, e até mesmo como uma forma de tirar vantagens. Talvez devêssemos pensar nisto como um casamento com essa outra cultura, onde continuo sendo eu, mas unido eternamente com ela.

Não quero mudar minha identidade por me envergonhar dela, não quero mudar minha identidade por conveniência, mas se um dia vier a fazê-lo, será por ter namorado tempo o suficiente e achar que já cheguei ao ponto de maturidade para casar.

Jesus nunca negou sua identidade, a sua raiz estava em uma pequena cidade da Judéia, Nazaré. Tratava-se de uma cidade pobre, irrelevante no contexto histórico dos Judeus, formada basicamente por trabalhadores braçais e gente sofrida. Mas foi o nome desta cidade que Jesus carregou durante toda a sua vida e ainda hoje carrega, Jesus de Nazaré (Mc 10:47; Jo 1:45; At 10:38). O mesmo aconteceu com os apóstolos, que por vezes foram ridicularizados por serem galileus (At 2:7); no entanto nunca negaram ou envergonharam-se da sua identidade.

A felicidade começa com a afirmação e aceitação da nossa identidade. Não importa qual seja ela, foi Deus que nos fez parte deste povo, e devemos nos alegrar com isso. Como bem disse o Pastor Tomé Fernandes um dia: “As etnias não são uma anomalia da criação Deus”. Glória a Deus, pois ser brasileiro ou cubano, não é uma anomalia da criação de Deus, mas uma forma que Deus escolheu para glorificar a si mesmo através de nós.

Que Deus nos dê a simplicidade da minha pequena Micaela, para me alegrar por ser quem sou.

Soli Deo Glória!

Luis A R Branco

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