A espiritualidade consumista

563342_4346913235514_817127205_nQuando Jesus enviou os setenta discípulos para pregarem o evangelho, ele fez a seguinte recomendação: “Não levem bolsas, nem saco de viagens nem sandálias […]” (Lc 10:4). A ideia era mostrar a estes irmãos que deveriam ser dependentes de Deus para a sua provisão diária. Embora esta advertência seja direcionada a um grupo específico, temos na Bíblia outras recomendações para não colocarmos o nosso coração nas coisas deste mundo. Segundo Jesus, onde estiver o nosso tesouro, ali também estará o nosso coração (Mt 6:21). Em outra advertência, o Senhor Jesus nos recomenda a não andar ansiosos pelas coisas desta vida, pois o Pai sabe do que necessitamos e cuidará de nós (Mt 6:25-34).

No mundo de hoje as necessidades humanas são um pouco diferente daquelas dos dias de Jesus. Naqueles dias as pessoas estavam preocupadas com coisas básicas da vida, como o que comer e com o que vestir. Certamente que haviam outros aspectos envolvidos nestas necessidades. Mas nada se compara a sociedade consumista dos dias de hoje. Já não consumimos por necessidade ou por acumulo, mas pelo simples prazer de mudar. Isto nos mostra que nosso apetite consumista já ultrapassou a esfera da necessidade física e agora domina também a esfera psicológica e espiritual, tornando o homem eternamente insatisfeito e ansioso. Mamom nunca conseguiu chegar tão longe no controle do coração do homem como nos nossos dias.

A profunda penetração do consumismo no homem tem causado igualmente profundos danos na espiritualidade. Como bem escreveu Gilles Lipovetsky: “Ao contrário do que se verificava no passado, a Igreja já não privilegia as noções de pecado mortal, já não exalta o sacrifício ou a renúncia”. A mensagem da igreja pós-moderna exalta outros valores, como o conquistar, receber, triunfar, sentir-se bem, e por ai vai. As preocupações dos crentes já não são mais coisas como o pecado, como servir e agradar a Deus, missões ou como servir ao pobre, mas como fazer sua vida ficar melhor. Então houve uma mudança na mensagem do púlpito das igrejas, que tomaram uma forma humanista e consumista. Lipovetsky diz ainda: “De uma religião centrada no Além, o cristianismo passou a ser uma religião ao serviço da felicidade terrena, colocando a ênfase nos valores da solidariedade e do amor, na paz interior, na realização total da pessoa”.
A igreja passou a ser um local onde a pessoa busca estímulo e encorajamento para perseguir com bravura a sua auto-realização. Reduzimos as promessas de Deus às coisas desta vida e ao sentir-se bem. Vejamos por exemplo as canções modernas entoadas nas igrejas, com algumas exceções, falam apenas da nossa conquista pessoal, das bênçãos de Deus voltadas para nossa realização terrena, prometem um triunfo ilimitado diante das obras do maligno, e por outro lado, também estão voltadas para o êxtase emocional do momento. Veja o que escreveu Lipovetsky: “Hoje, até a espiritualidade funciona em livre-serviço, na expressão das emoções e dos sentimentos, na procura resultante da preocupação com o melhor-estar […]”.

É preciso ter os olhos bem abertos para ver o que se passa conosco, para não seguirmos o fluxo do mundo, que desenfreado busca apenas o que é terreno. Nossa espiritualidade não pode ser moldada pela sociedade moderna. Não podemos permitir que o evangelho da salvação seja confundido com o evangelho da realização temporal. É preciso voltar a essência da fé, do arrependimento, da renúncia, do sacrifício e do amor genuíno. A única forma de mudança está em buscar em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça (Mt 6:33). Uma pergunta simples e que pode nos ajudar a manter o rumo certo da nossa vida é: “Será Deus glorificado com esta minha atitude?”
Ao buscarmos sinceramente o que glorifica a Deus, certamente estaremos a nos livrar desta espiritualidade consumista que anda por ai.

Rev. Luis A R Branco

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As citações de Gilles Lipovetsky foram extraídas do livro: A Felicidade Paradoxal, Ensaio Sobre a Sociedade do Hiperconsumo, Editora 70, Portugal.

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