O que é espiritualidade?

Posted on 23 de Fevereiro de 2010

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Definir espirtualidade é correr o risco de empobrecer seu conteúdo. Muitos já os fizeram e, creio eu, que este é a razão pelo qual encontramos diveras maneira do mesmo conceito. Talves você me vê como pretencioso, no entanto para satisfazer e conceituar aquilo que pretendo dizer a difinimos assim: espiritualidade é a dimensão da pessoa humana que traduz o modo de viver característico de um crente que busca alcançar a plenitude da sua relação com Deus. Falando sobre o anseio do ser humano e sua necessidade de relacionamento com Deus, Madame Guyon diz: “A plenitude da relação com Deus é possível através da pessoa de Jesus Cristo.A perfeição pode ser facilmente adquirida, e isso é verdadeiro. Jesus Cristo é a perfeição, e quando O procuramos dentro de nós mesmos, Ele é facilmente encontrado. Talvez, porém, você responda: Mas o Senhor não disse: ‘Haveis de procurar-me, e não me achareis; também aonde eu estou, vós não podeis ir’? (Jo 7:34). Ah! Mas o Senhor que não pode contradizer-se, também disse a todos: ‘Buscai e encontrareis’. (Mt 7:7).” (Guyon: 2002, p.5)

A espiritualidade pode ser entendida mais facilmente como uma profunda busca pela pessoa de Deus. É uma vida que tem como objectivo central agradar e imitar a pessoa de Jesus Cristo, encarná-lo em todas as esferas da vida. O apóstolo Paulo inspirado pelo Espírito Santo expressa esse entendimento quando dizendo: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé no filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim.” (Gl 2:20). Por esta razão podemos dizer que a espiritualidade bíblica é aquela que se traduz em ações práticas no cotidiano, uma espiritualidade puramente filosófica ou emocional não merece ser vivida.

Ao ler estes textos cuidadosamente concluimos que a espiritualidade autêntica é também aquela que nos confronta, que nos desafia a ir além dos nossos limites. Jesus mostra essa espiritualidade em seu famoso Sermão do Monte. Ele desafiava seus ouvintes com seus muitos: “Eu, porém, vos digo…”. Todas as vezes que Jesus fazia esta citação ele puxava seus ouvintes para além de seus limites. Ele fazia comparação entre os limites dos homens com aquilo que ele tinha para os oferecer. Por exemplo; quando ele falou do amor aos inimigos: “…se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis demais? não fazem os gentios também o mesmo?” (Mt 5:5-7, 46-47). Portanto, a espiritualidade deve confrontar nossos limites éticos, nossos limites relacionais, nossos limites na caridade, nossos limites na busca por aquilo que é santo, e todos os limites em tudo aquilo que está relacionado com nossa vida. A expectativa de Cristo é evidente: “Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai celestial.” (Mt 5:48) A espiritualidade é uma caminhada em busca desta perfeição e do Perfeito, e aqueles que sinceramente trilham por estes caminhos serão gradualmente metamoforseados. Em seu clássico sobre o Sermão do Monte, Martyn Lloyd-Jones escreveu que “o Sermão do Monte exige de nós é que sejamos tão perfeitos quanto Deus, tão perfeitos quanto Ele no tocante a essa questão de amarmos aos próprios inimigos.” (Lloyd-Jones: 1989, p. 290). Obviamente o homem natural, cuja espiritualidade não ultrapassa os limites da emoção e da mente jamais será capaz de experimentar tamanha transformação. Lloyd-Jones disse ainda: “Nenhuma dessas descrições (as exigências do Sermão do Monte) refere-se àquilo que poderíamos chamar de tendências naturais.” (Lloyd-Jones: 1989, p. 30). Só uma pessoa que busca uma espiritualidade verdadeira experimentará uma verdadeira transformação.

Infelizmente em nossos dias existe certos modismo espiritual que é oferecido como alternativa para aqueles que buscam uma experiência espiritual. Mas a espiritualidade vivenciada em muitas igrejas hoje não confronta e nem desafia o povo a imitar a Cristo obedecendo seus ensinamentos e muito meno provoca mudanças . Este modismo está relacionado com emocionalismo, e alguns chegam até ao ridículo nestas coisas. É lamentável ver tantos cristãos envolvidos com estas coisas, porém sem demonstrar qualquer tipo de transformação interior. Vivem apegados a tipologias bíblicas, apegadas a exemplos isolados das Escrituras Sagradas, porém, seu íntimo está longe daquilo que seria uma identificação com a pessoa de Jesus Cristo.

A espiritualidade deve ser cristocêntrica, pois se não nos conduzir a pessoa de Cristo ela é vazia em seus significados e propósitos. Ricardo Barbosa de Sousa em seu artigo “Espiritualidade e Espiritualidades” escreveu: “O propósito da espiritualidade cristá é o nosso crescimento em direção a Cristo, ser conformados à imagem de Jesus Cristo. Não se trata de um ajustamento sociológico ou psicológico, de sentir-se bem emocionalmente ou socialmente, mas de um processo de crescimento e transformação. Para Paulo isto significa caminhar em direção à perfeita varonilidade, à medida de estatura de Cristo. Ele mesmo afirma que a vida encontra-se oculta em Cristo e, por esta razão, devemos buscar as coisas do alto onde Cristo vive. O fim da espiritualidade cristã esta numa humanidade madura e completa em Cristo.” O apóstolo Paulo escreveu “Porque dele, e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém.” (Rm.11:36) Neste sentido, não há como relacionar a espiritualidade cristã com qualquer outra espiritualidade disponível neste mundo. Em nossa busca pela comunhão e relacionamento com Deus temos que vigiar para não ceder a certos encantos. Se a espiritualidade não é de Cristo, se não é para Cristo, se não é por Cristo, também não deve ser para nós. O que é espiritualidade? É um estilo de vida pautado pelo evangelho que visa a imitar a pessoa de Jesus.
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Madame Guyon (2002), Experimentando as Profundezas de Jesus Cristo Através da Oração. Editora dos Clássicos
Martyn Lloyd-Jones (1989), Estudos no Sermão do Monte. Editora Fiel

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